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Quarta, 13 de agosto de 2008, 08h00 Atualizada às 21h38

O arquiteto que não fui

Milton Hatoum
De São Paulo

Naquela época eu queria ser arquiteto.

Aquela época é a década de 1970, que parece mais distante que a última estrela de uma noite esfumada. Como foi pesada a década de setenta. Queimei os miolos para ingressar na Fau-Usp, e o tempo mostrou que meu esforço não foi gratuito. Nada é gratuito, nem o mínimo gesto de dizer adeus ou silenciar.

Mas o fato é que nunca me considerei um arquiteto, nem um urbanista. Debruçado na prancheta - hoje um objeto obsoleto -, sonhava com projetos de habitação popular, projetos para moradias dignas, e não casas e prédios horrorosos, com janelinha de presídio, réplicas de canis habitados por brasileiros pobres. Visitávamos favelas e sonhávamos em projetar espaços nobres para o povo. E tínhamos na mente o famoso poema de João Cabral: Fábula de um arquiteto. Um dos versos sugere muita coisa com poucas palavras:

Portas por-onde, jamais portas-contra.

Mas só nos deparávamos com portas contra e janelas de cárcere em paisagens tristes. Era difícil respirar, difícil ser arquiteto num país em que os pobres sequer merecem uma janela para o exterior. Mas bem que tentamos, eu e vários colegas da Usp e de outras faculdades de arquitetura. Dizer que o curso da Fau foi inútil é um exagero, uma ingratidão. Tive bons professores, grandes arquitetos e urbanistas como Joaquim Guedes, cuja morte recente me entristeceu e enlutou a arquitetura brasileira. E também historiadores e críticos de arte como Flávio Motta, Gabriel Bolaffi e os saudosos Luis Carlos Daher e Flávio Império.

Na Fau aprendi a ter uma visão crítica da cidade e da sociedade. Não se dava muita cancha para o cinismo, a alienação, a indiferença. Aprendi que a intervenção no espaço urbano não se dissocia da leitura histórica, cultural e geográfica do lugar a que se destina o projeto arquitetônico ou urbano. Fiz alguns projetos, lecionei História da Arquitetura, sonhei com o futuro numa época de pesadelo. E percebi, enfim, que andava de mau-humor com a minha profissão. Sublimei até o limite do suportável o desejo de escrever. Fui um poeta frustrado, cometi a imprudência de publicar um livrinho de poesia, esqueci este livro, invejei meus poetas preferidos e joguei fora todos os contos que escrevi naquela época. Depois, no fim da década distante, tive a sorte de ganhar uma bolsa de um instituto espanhol e pulei o muro.

Parece que foi ontem. Ainda posso ver o quartinho frio no sexto andar de um edifício em Arguelles, próximo à Gran Via, no coração de Madri. Nos meses de inverno, quando saía do Instituto Ibero-Americano, ia tomar um conhaque no Galiza, uma tasca no bairro onde morava. O dono do bar, um galego de Vigo, me perguntava: E então, brasileiro, como vai o romance? E eu dizia, envergonhado: Não sai do lugar, não vai a lugar nenhum...

Não ia mesmo. Eu era escravo da minha lentidão: a caneta escrevia com tanta morosidade que eu mal percebia o andamento da narrativa. Mas percebia, com clareza, que o arquiteto morria em mim. Morria também a frustração, o desgosto, a imobilidade. E a amargura, herança do meu país e do tempo que me tocou viver. Para onde ia, levava o manuscrito de um romance que parecia não ter fim. Lembro das manhãs de sábado no Parque do Retiro, onde eu sentava no gramado para escrever, corrigir e reescrever; fazia bicos com traduções não literárias, a maioria eram textos pesados sobre economia latino-americana, com os habituais jargões tediosos e inconseqüentes. E quando as traduções rareavam, eu e uma amiga argentina cantávamos canções brasileiras e do Rio de la Plata nos bares de Lavapiés e nos arredores do Mercado El Rastro.

O que mais fazia falta era a prata mesmo, muito mais falta que o Brasil e a Argentina, para onde não queríamos voltar, porque esses países eram reinos de trevas. De cidade em cidade, eu enchia cadernos com palavras, aqui e ali aulas de português e traduções, bossa nova e samba para gringos, o tempo dava cambalhotas como uma ampulheta louca vazando areia por todos os cantos.

E então, brasileiro, como vai o romance? A pergunta do dono do Galiza reverberava nos meus ouvidos, e anos depois, quase num susto, terminei o Relato de um certo Oriente. Isso em 1987, quando já morava em Manaus, onde tive a última e desastrosa recaída de arquiteto. O arquiteto que não fui.

Milton Hatoum é escritor, autor dos romances Órfãos do Eldorado, Dois Irmãos, Relato de um Certo Oriente e Cinzas do Norte.

Fale com Milton Hatoum: milton.hatoum@terra.com.br

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