Atualizada às 13h16 |
Georgy Abdaladze/AP
Mulher com as bandeiras dos EUA e da Geórgia em Tbilisi, na capital do país. Na quarta-feira, 13, aterrisou na capital geórgia o primeiro avião norte-americano, carregado de suprimentos
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Daniel Milazzo
No dia 7 de agosto, o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, ordenou o envio de tropas ao território separatista da Ossétia do Sul, no norte do país, região fortemente ligada à Rússia. Em contrapartida à ofensiva, Moscou enviou tropas e tanques à Ossétia do Sul e bombardeou pontos estratégicos do país, como a cidade de Gori. Apesar do cessar-fogo acordado na terça-feira, 12, entre Rússia e Geórgia, a região continua em estado de tensão.
Segundo a especialista francesa Aurélie Campana, membro do Instituto Quebequense de Altos Estudos Internacionais (IQHEI, da sigla em francês) e professora de Política Externa Russa na Universidade Laval (Québec, Canadá), a investida russa em território geórgio, tem a clara intenção de reafirmar o papel da Rússia no cenário internacional, como um país que defende suas próprias posições.
Campana destaca que o conflito poderá reequilibrar as forças geopolíticas da região do Cáucaso - que compreende Geórgia, Armênia e Azerbaijão, entre os mares Negro e Cáspio. Desde 2003, a Geórgia voltou-se ao Ocidente, pleiteia a entrada na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e seu principal aliado hoje são os Estados Unidos. Inclusive, o presidente norte-americano declarou ontem que ajudará a Geórgia com apoio diplomático e humanitário. Campana destaca, entretanto, que uma investida militar dos EUA no conflito está "completamente fora de questão".
A Geórgia representa um ponto estratégico. No aspecto energético, a Geórgia é o país por onde passam os únicos oleodutos e gasodutos que transportam o petróleo e o gás do Mar Cáspio até a Europa sem passar por território russo. Hoje, a Rússia é um dos principais fornecedores de países da Europa ocidental, como França e Alemanha. Contudo, Aurélie Campana esvazia a hipótese de que esta seja a razão da contra-ofensiva russa. Ela acredita que daqui em diante Moscou deverá manter uma política cada vez mais fechada.
Leia a seguir a entrevista com Aurélie Campana:
Terra Magazine - Quais são as intenções da Rússia na Ossétia do Sul? E no Cáucaso como um todo?
Aurélie Campana - A Rússia apóia essas regiões separatistas desde a sua criação, ou seja, desde 1992 para a Ossétia do Sul e desde 1993 para a Abkházia. Ela apóia politicamente, economicamente, mas não reconhece a independência. Essas duas regiões separatistas vivem o que chamamos de "conflito congelado", isto é, não havia confrontos violentos, ainda que sempre tenha existido antipatia entre os abkhazes e os geórgios, e entre os ossétios e os geórgios. Há órgãos de mediação internacional em território geórgio, como a ONU (Organização das Nações Unidas), a OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa), a França, os Estados Unidos. A Rússia participava desse processo de mediação, apoiando os ossétios e os abkhazes. Para a Rússia, era uma forma de manter sua influência no Cáucaso. Mas desde a chegada de (Mikhail) Saakashvili ao poder, em 2003, a Geórgia voltou-se ao Ocidente. A Geórgia reivindica pertencer à Europa. Antes de mais nada, ela quer descolar-se da Rússia.
Qual a importância da Geórgia para a Rússia?
Ela não aporta grandes benefícios econômicos para a Rússia, embora haja a construção dos oleodutos e gasodutos que passam por Tblisi (capital da Geórgia) é um tema espinhoso com a Rússia, justamente porque permite transportar o petróleo e o gás do Mas Cáspio rumo a Europa sem passar por território russo. Mas essa não é a causa principal do conflito.
Uma das motivações dessa intervenção da Rússia é impedir que a Europa compre gás que não passa pelo território russo?
É uma eventualidade. Mas, realmente, não é o principal. O que a Rússia procurou fazer na Geórgia é se reafirmar no cenário internacional e passar a mensagem aos ocidentais - leia-se a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a ONU, os EUA - de que ela está acumulando poder, está reconquistando sua própria segurança, reorganizado seu exército, e de que não aceitará mais as humilhações que sofreu nos anos 90. Ela quer tornar-se um ator indelével das relações internacionais. Ela quer defender suas próprias posições. O que ela está mostrando é que o Cáucaso representa sua zona de influência e que a expansão da Otan deve parar por aí.
Quais são os possíveis desdobramentos desse conflito no curto prazo?
É difícil dizer. Vale lembrar que além dos confrontos armados há aí uma guerra de informação. A proposta da União Européia, cuja presidência rotativa é atualmente ocupada pela França, é um retorno ao status quo. Eles preconizam o respeito à integridade territorial da Geórgia, isto é, a retirada das tropas russas, a manutenção de Saakashvili no poder e a permanência das regiões da Abkházia e Ossétia do Sul na Geórgia.
A justificativa é proteger a população dessas regiões separatistas, das quais a maior parte, cerca de 90%, possui cidadania russa?
É o argumento russo. Vale ressaltar que as regiões separatistas da Abkházia e da Ossétia do Sul não reconhecem a autoridade da Geórgia. Mas como elas não são independentes, não podem emitir passaportes. Então, uma das formas de apoio que a Federação Russa escolheu foi oferecer o passaporte russo aos abkhazes e ossétios. Quando os russos dizem que vão salvar cidadãos russos, eles instrumentalizam abkhazes e ossétios. Ou seja, eles concederam a cidadania russa, mais uma vez, para reforçar sua zona de influência.
Entretanto, o que abkhazes e ossétios desejam mesmo é uma cidadania própria, não a russa. Eles querem a independência, não?
Os abkhazes querem a independência, mas que contemple uma associação com a Rússia, não uma integração - são status jurídicos um pouco diferentes. Por outro lado, os ossétios do sul querem uma ligação com os ossétios do norte. E tendo em vista que a Ossétia do Norte pertence à Rússia, eles querem a incorporação à Rússia. É uma população que se sente muito mais próxima da Rússia do que da Geórgia.
Quais são os interesses da União Européia no Cáucaso?
A União Européia pôs em prática em 2004 um status jurídico de "país vizinho", do que os três países do Cáucaso (Geórgia, Armênia e Azerbaijão) se beneficiam. É uma política que visa sustentar e proporcionar o desenvolvimento econômico mas que está condicionado ao desenvolvimento democrático. Até agora a UE pensava que favorecendo a democracia, ela poderia chegar a uma solução para este "conflito congelado". Porém, com o começo da crise, a UE, presidida pela França, decidiu tomar uma posição muito mais pró-ativa. Impulsionada também pelo ministro francês de Relações Exteriores, Bernard Kouchner, ela adiantou-se à OSCE e se ofereceu para fazer essa mediação. O papel desempenhado pela UE no Cáucaso há alguns anos é muito fraco. Ele era mal visto pelos russos, mas a UE ainda é considerada mais neutra do que a Otan. Isto é, sua mediação é mais bem aceita. Trata-se um meio para a UE se impor não apenas como ator econômico, mas também ator político e eventualmente militar.
Isso é consenso na União Européia?
A UE está profundamente dividida. Em particular sobre a política a ser mantida em relação à Rússia. Os países bálticos (Letônia, Estônia e Lituânia) e a Polônia têm uma política anti-Rússia muito firme. Há países como a França e a Alemanha querem um diálogo tranqüilo com a Rússia. De um lado há Nicolas Sarkozy, que propõe a mediação, enquanto, de outro, os presidentes dos países bálticos, além dos presidentes da Polônia e da Ucrânia, os quais foram a Tbilisi oferecer seu apoio à Geórgia. Isso já dá uma bela noção da clivagem na UE e pode dificultar seu papel na resolução desse conflito.
Isso pode gerar uma crise interna na União Européia?
Eu não classificaria como uma crise, é mais como uma tensão que já existe, sobretudo a respeito da política em relação à Rússia. Porque existem aqueles que a consideram um vizinho como qualquer outro, e aqueles que acham que a Rússia é mais do que um vizinho qualquer, é um país a ser controlado, mas com o qual se deve manter o contato. De qualquer forma, vale lembrar que a Rússia fornece grande parte do gás que abastece a Europa.
Sobretudo a França e a Alemanha estão atentas a isso, pois há esse laço de dependência energética junto à Rússia.
Sim, mas principalmente a Alemanha. Cerca de 46% do gás que chega à Alemanha é russo. Na França, são cerca de 20%. É muita coisa.
Essa tensão irá aumentar a força de uma política alinhada com os Estados Unidos na região?
Não sei. Ainda não podemos fazer uma análise precisa. Mas dois pontos são importantes. Primeiro, os EUA foram considerados pelos russos um participante indireto no conflito. Ou seja, eles (os EUA) ajudam os geórgios politicamente e auxiliaram no transporte de soldados geórgios que estavam no Iraque até a Geórgia. Mas uma intervenção norte-americana na região está fora de questão. Os americanos não têm qualquer interesse em engajar-se militarmente no Cáucaso. Segundo ponto, é uma recomposição das forças geopolíticas na região. A Geórgia não se afastará do Ocidente - inclusive, ela acaba de deixar a Comunidade dos Estados Independentes (CEI). Ela vai continuar a buscar apoio, principalmente junto à Otan.
E os outros países da região?
Ucrânia, Polônia e países bálticos manterão o alinhamento com os americanos. Sobretudo a Polônia e os bálticos, que podem se permitir essa aproximação mais do que a Ucrânia. Mas uma coisa é certa: a Rússia vai adotar uma posição cada vez mais fechada. E poderemos ter tensões entre a Rússia e a Ucrânia, sobre a região da Criméia.
Inclusive um conflito armado?
Sim, existe essa possibilidade na região do Mar Negro.
Já existe uma tensão ali?
Sim. Tem uma questão que vai envenenar as relações entre Rússia e Ucrânia: a Rússia aluga um porto ucraniano, ao sul da Criméia, o porto de Sebastopol; a Ucrânia já anunciou que não irão renovar o acordo de alocação, e em 2017 a Rússia deverá ter deixado o lugar. Isso não será sentido agora, mas pouco a pouco essas tensões irão aumentar.
A Rússia hoje está isolada?
Não, ela tem aliados na região. Há a Bielorússia, ela está próxima da Armênia e não tão distante do Azerbaijão. Ela também conta com o apoio da maior parte dos países da Ásia Central, principalmente o Cazaquistão e o Uzbequistão.
Irã inclusive?
Com o Irã as relações são um pouco mais complicadas. Mas, sim, pode-se dizer que nesta questão eles são aliados. Noutros aspectos eles estão um pouco mais distantes.
Quais outros conflitos, dos quais não se fala muito, que podem gerar futuros problemas na região?
Dois outros conflitos que virão à tona são a Transnistria, na Moldávia, e o Nagorno Karabakh, no Azerbaijão. Principalmente na Transnistria, a Rússia tem um papel semelhante ao que ela desempenha na Ossétia do Sul, ou seja, ela toma partido no conflito e pode ter uma posição muito mais fechada.
A Rússia manterá essa posição mais fechada porque não há outra forma de se fortalecer e de impedir uma maior influência do Ocidente?
Na verdade, o que a Rússia pretende é reafirmar-se no cenário internacional como um ator que defende seus próprios interesses e tem sua própria visão das relações internacionais. É uma espécie de recomposição geopolítica da região. Não podemos esquecer que a política russa depende muito dos que estão no poder. Hoje há um "vazio": quem dirige é o presidente (Dmitri) Medvedev ou o primeiro-ministro Vladmir Putin? Essa crise mostrou também que Medvedev teve um papel marginal. Pelo que parece, é o Putin quem tomou a decisão pela intervenção. Isso demonstra a necessidade de um reequilíbrio interno, cujo desfecho ainda não se pode prever.
Sobre os milhares de refugiados produzidos por este conflito na Geórgia (a ONU já aponta mais de 100 mil), isso vai desestabilizar ainda mais a região?
Não acho que isso vá acontecer. Os refugiados ossétios do sul foram para a Ossétia do Norte e os geórgios refugiaram-se na própria Geórgia. Para os ossétios esse retorno não será complicado, pois os russos vão ajudar. Contudo, para os geórgios isso será mais difícil, pois, desde o primeiro conflito armado na região, em 1992, esse retorno dos refugiados às suas casas foi complicado. E agora eles são deslocados uma segunda vez, por outro conflito. O processo será longo e complicado. A comunidade internacional já disse que porá à disposição efetivos. Mas não acho que isso vá desestabilizar mais a região, apesar dos prejuízos econômicos que a Geórgia irá sofrer - sua economia já está muito debilitada, ainda mais depois dos bombardeios russos que debilitaram instrumentos econômicos de primeira importância.