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Sexta, 15 de agosto de 2008, 07h58 Atualizada às 15h27

Antônio Araújo: e agora Doutor?

Deolinda Vilhena
De Santos (SP)

Antônio Araújo faz parte de um grupo de privilegiados beneficiados pela condição de notório saber nato que o dispensaria da necessidade de qualquer título acadêmico. Para os que não o conhecem, e nem acompanham a vitoriosa trajetória desse jovem e talentoso diretor, uma busca básica no Google ou uma passada no site do Teatro da Vertigem podem confirmar o que estou dizendo. Mas Tó, como ele é mais conhecido no meio teatral, é um perfeccionista e, entre a criação de seus espetáculos, suas aulas no departamento de Artes Cênicas da escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, encontrou tempo (e motivação!) para preparar uma tese, "A encenação no coletivo: desterritorializações da função do diretor no processo colaborativo".

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Na sexta passada Tó ocupou a cena do Teatro Laboratório-Sala Alfredo Mesquita como ator principal de um espetáculo "dirigido" por Jacó Guinsburg, mestre dos mestres, com o auxílio luxuoso de Sílvia Fernandes Telesi, Maria Lúcia de Souza Barros Pupo, Edélcio Mostaço e Cassiano Quilici Sydow.

Na platéia da Sala Alfredo Mesquita, amigos, companheiros do Teatro da Vertigem e a presença de D. Fátima, a mãe do Tó, todos na expectativa da decisão do júri que horas depois outorgaria, com todas as honras, o título de Doutor em Artes ao nosso Antônio Araújo.

O primeiro a falar foi Edélcio Mostaço que exaltava o fato de ser uma tese articulada por um artista cujos méritos são altamente reconhecidos e falava da felicidade de poder ainda aprender com o trabalho em questão.

Tó teve o seu direito de resposta e mostrou-se visivelmente emocionado com os elogios recebidos e, como era de se esperar, dividiu com a equipe do Teatro da Vertigem o resultado do seu trabalho acadêmico:

- Nós criamos essa reflexão juntos no próprio trabalho, no momento da feitura por isso esse trabalho é profundamente devedor às pessoas que trabalham no Vertigem.

Lembrou da vantagem de ter um orientador "provocador" que há anos trabalha para estabelecer um verdadeiro diálogo entre a prática e a teoria.

Maria Lúcia Pupo fala do prazer de ler um trabalho com a qualidade do produzido pelo Tó, como se ele tivesse conseguido transportar para o trabalho acadêmico a excelência artística que é a marca do Vertigem, e aponta para o "grande pedagogo" que é Antônio Araújo.


Antonio Araújo e Sílvia Fernandes em momento de descontração (Foto: Eduardo Fragoaz)

Sílvia Fernandes falou de uma "simbiose entre teoria e prática" e da "importância de ver um encenador criar uma teoria tão potente". Compara a emoção que sentiu ao ler o trabalho com a experiência sentida vendo os espetáculos criados por Antônio Araújo para o Teatro da Vertigem. Coloca o nosso Tó em pé de igualdade com outros diretores-pedagogos que escrevem sobre os seus próprios trabalhos, diz que Tó deu uma prova de "inteligência prática e inventividade teórica".

E Tó cada vez mais encolhido na cadeira, achando que tudo é exagero da banca. Engraçado vê-lo centro de todas as atenções por conta de um trabalho no qual analisa a função do encenador num trabalho coletivo, num processo colaborativo, onde ele não é mais o "epicentro", ainda que sua figura esteja longe de estar diluída.

Faço uma pausa para pensar em todos os que fizeram essa trajetória do Tó. Vários de nossos diretores hoje estão ligados ao universo acadêmico. De cara penso no Márcio Aurélio, no Luiz Arthur Nunes, ambos "doutores". Penso nessa universidade que se abre cada vez mais para o mundo e convive cada vez mais com a prática, um casamento que eu mesma venho buscando.


BR 3 - Espetáculo dirigido por Antonio Araújo para o Teatro da Vertigem (Foto: Maurício Alcântara)

Fala-se da autoridade dos diretores, fala-se de hierarquia, os assuntos vêm e vão... O professor Jacó lembra que o mais autoritário dos diretores foi também o maior pedagogo da história do teatro: Constantin Stanislavski. Impossível não pensar em Ariane... Viajo, viajo...

De repente o professor Jacó pede ao público que se retire para que a banca delibere. Volto no tempo e me vejo na mesma situação há pouco mais de um ano. Brinco com o Tó. Ele sabe que já "ganhou", mas espera a resposta para só então comemorar. E ela vem pouco depois, todos de pé, na platéia e no palco para ver o nosso Tó entrar lindamente no rol dos nossos diretores-doutores. Ele, que "acabou no Tietê", como brinca seu orientador, recebe ali a recompensa vinda de seus pares. Um trabalho "excepcional" - esse foi o adjetivo repetido diversas vezes.

Saio da USP feliz, meu amigo foi lindamente aprovado. Lembro que um título de Doutor não muda muita coisa na vida, mas descobrir que existe vida após a tese é o melhor de todos os presentes. E a comemoração é inevitável.

Antes de voltar para Santos vou almoçar com o Vendra, meu ex-professor, hoje meu colega de profissão, e acima de tudo meu amigo e fiel interlocutor. Questão de matar a saudade e falar um pouco mais de teatro. Entro no metrô pensando no que disse a Muriel Mayette, quando da visita à Comédie-Française feita na minha recente temporada parisiense. Ser gente de teatro é fazer parte de uma família, não importa se essa família se chama Les Atrides (Os Atridas). O que importa é a certeza de que somos uma família e isso me dá o direito de me emocionar com o sucesso do Tó e com minha conversa com o Vendra e fazer disso o assunto da minha coluna semanal.


Deolinda Vilhena é jornalista, produtora, Doutora em Estudos teatrais pela Sorbonne, pós-doutoranda em Teatro na ECA/USP com bolsa da FAPESP.

Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br

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