Atualizada às 11h48 Claudio Leal
Era a cerimônia do adeus. Em 10 de agosto de 2006, o Teatro Castro Alves, em Salvador, reencontrava o compositor Dorival Caymmi (1914-2008). Com o Prêmio Jorge Amado de Literatura e Arte, a Bahia oficial pedia desculpas ao soteropolitano da rua do Bângala, depois de anos de hostilidades do ex-governador Antonio Carlos Magalhães. Onze anos de ausência.
O estremecimento da amizade veio em 1971, quando Caymmi vendeu a casa doada pelo governo baiano. Em 1968, fixara residência por poucos meses no Rio Vermelho. Mas a teia de compromissos o tragava para o Rio de Janeiro, onde voltou a morar.
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Houve quem visse nessa segunda despedida o desejo do artista de guardar distância moderada do seu universo mítico. Numa interpretação rasteira, o político baiano entendeu a mudança como uma renúncia à baianidade. Brios feridos, trocaram petardos. Caymmi, fino trato, cravou: "Conheci Antonio Carlos no tempo em que ele apenas servia cafezinho a Odorico Tavares".
Odorico, diretor dos Diários Associados na Bahia, amigo do músico e protetor do jovem jornalista ACM. Em 2000, iniciou-se a reaproximação. Desfazer de mal em câmera lenta. Contrariando arraigado princípio, Toninho estendeu a mão. O Prêmio Jorge Amado, em agosto de 2006, selará as pazes oficiais.
As rusgas de três décadas se resumiam ao andar de cima. A Bahia real continuava a tremer de encanto pelas canções praieiras e pelos sambas sacudidos. Caymmi, Jorge Amado, Odorico, Carybé e Pierre Verger formam o quinteto da fundação afetiva e cultural da "Cidade da Bahia". Geração pioneira na assimilação das heranças africanas nas artes.
Assim que se anuncia o retorno de Caymmi, aos 92 anos, essa província utópica revolve a mente. Os baianos se esmeram para honrar o que seria a despedida final.
Em 9 de agosto, o obá de Xangô do terreiro do Axé Opô Afonjá desembarca no Aeroporto 2 de Julho. "Água da Bahia...", balbucia Caymmi ao reidratar-se. "As minhas músicas falam de uma Bahia autêntica e diferente de todos os Estados", define. Em dois dias, despede-se da cidade com o filho Danilo e seus netos - a maior parte do tempo em silêncio, contemplando através da janela do carro a Salvador moderna e as curvas ancestrais da São Salvador.
Inúmeras cidades morreram desde a partida de Dorival para o Rio, em 1938. O velho transparece aceitar as mudanças: não há por que "perdoar" os desvios da urbe recriada e idealizada em suas músicas.
Toma o tradicional sorvete da Ribeira no Palácio de Ondina. Em 11 de agosto, a poucas horas do retorno, mãos entrelaçadas, reza na igreja do padroeiro dos católicos baianos. "Tenho fé em Senhor do Bonfim da Bahia", declara no reecontro com a divindade invocada em O que é que a baiana tem?, São Salvador e Você já foi à Bahia?.
Mas a carroça ultrapassa os bois. De volta ao Teatro Castro Alves, na véspera da ida à Colina Sagrada.
Na entrega do Prêmio Jorge Amado, cerca de 1.500 pessoas gramam discursos de burocratas antes da entrada do mestre da música popular. Sob os acordes da Canção da Partida, Dorival Caymmi vai ao proscênio, numa cadeira de rodas. Segue-se uma rara aclamação no histórico espaço do teatro brasileiro. Durante quinze minutos, a platéia o aplaude de pé.
Silencioso e comovido, Caymmi põe a mão no peito. O filho Danilo o acaricia. Ali perto, Zélia Gattai. Dorival recobra a voz rouca para entoar as palavras finais dos versos da Canção da Partida.
"Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar meu bem querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer
Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer"
Pela manhã, ao acordar, ele se enternecera com o mar azul. Mar azul da Bahia. À noite, no Castro Alves, a cada aplauso estridente, Caymmi e os baianos intuíam a verdade de Cole Porter: morre-se um pouco cada vez que dizemos "adeus".
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