
Atualizada às 15h40 |
Ricardo Stuckert/Agência Brasil
O ginasta Diego Hypólito, eliminado dos Jogos Olímpicos de Pequim, que desabafou depois da derrota e pediu "desculpas ao povo brasileiro"
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Raphael Prado
Olimpíadas. Aqui ou na China, funciona assim: um ganha o ouro. O segundo colocado fica com a prata, mas perdeu também - o ouro, afinal. Quem fica com o bronze, perdeu o ouro e a prata. Quem não ganhou medalha, dependendo da posição, ganhou de muita gente, mas perdeu pra muita gente também. Tudo é uma questão de ponto de vista e assim é o esporte: uns ganham, outros perdem, como já explicariam os pais às suas crianças desde os joguinhos de várzea.
Mas para atletas profissionais, enfrentar a derrota pode não ser tão simples assim. Aos prantos descontrolados, Diego Hypólito deixou as Olimpíadas de Pequim no domingo, 17, com a frustração de quem se sentia praticamente obrigado a trazer o ouro para o Brasil. Desabafou:
- Peço desculpas ao povo brasileiro.
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A frase "gela a espinha" de Katia Rubio, professora da Faculdade de Educação Física da USP e presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte. Ela critica a falta de apoio psicológico aos atletas brasileiros e condena as declarações do técnico de Diego Hypólito, feitas após a derrota. Disse Renato Araújo ao próprio atleta, conforme informou o editor-chefe de Terra Magazine, Bob Fernandes, em seu blog: "...o mundo caiu, o seu mundo, o meu mundo caiu, nosso mundo caiu, mas a vida continua".
- O que é isso? Caiu como? Sendo que a função dele naquele momento era dar o apoio que o menino estava precisando... Ele não contribui em nada, pelo contrário! E isso ainda coloca o atleta numa posição mais delicada. - analisa Rubio.
Para a professora, falta ao Comitê Olímpico Brasileiro dar mais condições para formar medalhistas nos Jogos. Ela cita o nadador norte-americano Michael Phelps como exemplo de boa preparação física, técnica e psicológica. Enquanto na concepção brasileira, segundo ela...
- ...se fala em psicologia do esporte quando as coisas dão errado e quando o atleta surta.
Leia abaixo a íntegra da conversa com a professora da USP, pós-doutora em Psicologia Social pela Universidade de Barcelona. Ela avalia como o Brasil pode mudar essa situação dos atletas se quiser ser uma potência no esporte e sediar os Jogos de 2016 no Rio de Janeiro.
Terra Magazine - Qual é a análise psicológica que se faz da frase "Peço desculpas ao povo brasileiro", dita pelo Diego Hypólito? Qual é o grau de responsabilidade que o atleta enxerga naquilo que ele faz, em relação a uma nação toda?
Katia Rubio - Eu acho que mais importante do que aquilo que ele pensa é o que a nação joga sobre ele. Não existe favoritismo em Jogos Olímpicos, essa é a questão inicial. Criou-se um favoritismo em alguns atletas em função do resultado obtido em suas modalidades, em eventos particulares. Porque quando se fala em Mundial de Judô, ou de Ginástica Olímpica, é um campeonato importante sim, mas é de uma modalidade. Não existe nada que se assemelhe aos Jogos Olímpicos. Então querer transportar a performance de um campeonato mundial para os Jogos Olímpicos não é possível, é uma outra relação, uma outra forma de se competir dentro do esporte. Quando eu vejo o Diego ou a Edinanci (Silva, do judô) pedindo desculpas à nação, eu vejo uma 'responsabilização irresponsável' dos nossos atletas. Eles dedicam suas vidas a isso, em alguns casos não têm as melhores condições para chegar lá, não recebem o apoio necessário para isso. E responsabilizam esses atletas por um tipo de resultado que não é o objetivo. Quando eu vejo o Tiago Camilo, o João Derly (ambos do judô), ou o Diego Hypólito irem para os Jogos e a mídia e a população brasileira acreditando que eles serão campeões, isso me gela a espinha. Porque não é assim.
De que forma isso prejudica a formação psicológica do atleta, considerando que o Diego Hypólito, por exemplo, tem 22 anos de idade?
Eu acho que isso é uma irresponsabilidade, porque os danos que causa ao atleta podem ser muito grandes, dependendo da estrutura psíquica desse sujeito. O que assistimos hoje é uma preocupação exacerbada com a preparação física e técnica do atleta e não com a preparação psicológica. Então o atleta vai para uma competição como certo de que ele será alguma coisa. E não existe certeza nenhuma nessa vida. Muito menos em se tratando de esporte, porque na mesma apresentação do Diego, por exemplo, vários atletas tiveram erros crassos, tiveram quedas. Todos eram favoritos ali, o romeno, o russo, o chinês. E caíram. Qual é o dano que isso pode causar, então? Uma desmotivação, porque podem avaliar "o que que eu estou fazendo com a minha vida?" E alguns tomam isso quase como uma situação de morte, gerando danos bastante sérios do ponto de vista da saúde mental. Outros dão a volta por cima. Mas quando eu vejo a Daiane dos Santos virar para o Oleg (Ostapenko, técnico da ginástica brasileira) e dizer: "ai, que alívio, acabou"... ela não estava lá para competir, mas para acabar com alguma coisa rapidamente. E não é isso que faz um atleta campeão, que tem a tranqüilidade de saber que ele vai fazer o melhor porque ele tem garantias disso. Nossos atletas não têm a garantia de serem os melhores, ainda que eles consigam bons resultados em casos específicos.
Tranqüilidade que dá para perceber, por exemplo, no Michael Phelps, que termina as provas como se estivesse saindo de um treino...
É isso. Porque ele tem uma preparação técnica, física e psicológica para ser um campeão.
O Comitê Olímpico Brasileiro tem psicólogos na delegação?
Não tem. Algumas modalidades têm psicólogos, mas que acompanharam esporadicamente e agora de longe. A única psicóloga que está lá em Pequim é a consultora da seleção de vôlei feminino, mas mesmo assim porque o José Roberto Guimarães (técnico) bancou, não foi a federação. Tanto que ela não está na Vila Olímpica. Então se fala em psicologia do esporte quando as coisas dão errado e quando o atleta surta. O Diego Hypólito fica com aquela cara, de óbvio desapontamento e frustração, e cadê o psicólogo para dar apoio? Aí vira o técnico e fala "o nosso mundo caiu"! O que é isso? Caiu como? Sendo que a função dele naquele momento era dar o apoio que o menino estava precisando... Ele não contribui em nada, pelo contrário! E isso ainda coloca o atleta numa posição mais delicada. Se é para fazer um trabalho sério, se de fato o Brasil quer ser sede olímpica e ter um trabalho campeão, é preciso estar mais atento a essas questões.
Para citar um outro atleta brasileiro, o Thiago Pereira conquistou seis medalhas de ouro no Pan-Americano, a mídia comparou alhos com bugalhos, e ele foi para a Olimpíada quase com a obrigação de apresentar bons resultados...
... ser um Phelps.
Exatamente. Mas ele passa a impressão de ser bem tranqüilo quanto a isso. Ele pode ter alguma dificuldade psicológica se entrar nessa de ter que vencer?
Eu não o conheço pessoalmente, não lido com ele. Mas o Pan do Rio de Janeiro era uma fantasia. Todo mundo sabia. Quem trabalha com esporte com seriedade, sabe que ele não significa nada em termos mundiais.
Tanto que o Phelps disse 'não, obrigado'.
Pois é. E assim como a China está fazendo com os Jogos Olímpicos, mas de forma competente para mostrar sua superioridade, tentou-se fazer o mesmo com os atletas brasileiros no Pan. Agora, o mundo lá fora é outra coisa. No mundo do faz-de-conta, somos os melhores. Os resultados que temos no atletismo também... nossos atletas estão sendo eliminados na primeira classificatória. Isso é uma demonstração do quanto o Comitê Olímpico Brasileiro trabalhou com a irrealidade, não com a realidade do esporte brasileiro. Eu não estou dizendo que as seletivas precisam ser mais difíceis, porque foram. Mas uma coisa é conseguir o índice numa seletiva, outra coisa é preparar o atleta para ir para uma competição e ser vencedor.
O que faltou, então, nessa preparação?
Faltou tratar os nossos atletas como vencedores. Porque a cada edição dos Jogos eu me certifico mais que a comitiva brasileira trata como se a ida aos Jogos Olímpicos já fosse a grande premiação. E é muito difícil trabalhar com atleta para fazê-los se sentir vencedores. É muito evidente que aquilo que separa o medalhista de um participante dos Jogos é a determinação de ir para ser um campeão, e não para ser mais um. E infelizmente ainda a preparação do atleta brasileiro é para ser mais um, estar entre os 20, os 30, e não para ser um medalhista.
Terra Magazine
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