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Terça, 19 de agosto de 2008, 07h15 Atualizada às 14h58

Em nome de Zizo

Marina Silva
De Brasília (DF)

A cantora entoava o Hino da Independência num solo à capela e nós repetíamos o estribilho: "ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil". Em torno, o frescor da Mata Atlântica cheirosa, barulho de riacho, de folhas. No centro, a memória de um jovem estudante bonito, generoso, que poderia estar ali, entre seus irmãos e amigos, aos 63 anos. Mas morreu aos 24, durante a ditadura militar, numa emboscada armada por delegados do DOPS, perto da avenida Paulista, em São Paulo.

De repente me dei conta de que estávamos retomando - especialmente a família de Luiz Fogaça Balboni, o Zizo - a saga de quem resolveu não apenas cantar o refrão do Hino, mas vivê-lo com radicalidade, assumindo morrer numa guerra de objetivos não bélicos, não de conquista de territórios, mas de conquista de democracia, para que o Brasil fosse uma pátria livre.

Outros jovens dos anos 1960 e 70 estavam ali, muitos deles pais de moços e moças que hoje tem a idade do amigo quando foi morto. Quando passam pelo quarto dos filhos, talvez achem que ainda são meninos e meninas e lhes cobrem os pés, apagam a luz, fecham a porta. E, no entanto, com a mesma idade, foram uma força criativa, inovadora, corajosa, que abandonou todas as proteções familiares e institucionais para correr os riscos de lutar pelos tesouros mais profundos do Brasil, pelo direito de ir e vir, de pensar e falar, participar da vida nacional, escolher rumos.

Isso aconteceu no sábado, dia 16 de agosto. Juntamente com o ministro Paulo Vanucchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, fui à inauguração de uma escultura em homenagem a Zizo, como parte do projeto "Direito à Memória e à Verdade". Ela fica no Parque do Zizo, no município de São Miguel Arcanjo, uma área de preservação ambiental com 300 hectares, implantada por seus irmãos com o dinheiro da indenização aprovada pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

A ONG APAZ cuida do espaço há mais de dez anos e desenvolve ali atividades que unem a educação ambiental de crianças e jovens, como base para o aprendizado dos valores de cidadania, e a observação de pássaros e outros seres da floresta, catalogando-os e estudando seus hábitos. Mais de 250 espécies de aves já foram identificadas, além de onça parda, jaguatiricas, uma família de monos carvoeiros, o maior primata das Américas, e outros animais que guardam a riqueza rara da Mata Atlântica original.

A Mata Atlântica sabe como ninguém otimizar espaços e a energia da terra. Nas árvores nasce outra floresta aérea de bromélias, liquens, cipós, uma profusão de vida que não se enraiza diretamente no chão. É uma sinergia total. Como se fossem verdadeiros condomínios vegetais. Parece que agora que sabe que só lhe restou 7% de seu território, a floresta radicalizou na exuberância que enfeita o parque que contribui para que ela sobreviva. A família de Zizo imaginou, inicialmente, construir uma maternidade com a indenização, numa simbólica acolhida aos filhos e netos que ele não teve tempo de ter. Com a opção pelo parque, acabou, de certa forma, fazendo uma maternidade. Para os seres humanos, o parque servirá para estimular o contínuo renascimento, em nossos corações, de sonhos como aqueles que levaram a geração de Zizo à total entrega à causa da liberdade e da justiça.

Será ainda a maternidade de borboletas, antas, macacos, cobras, insetos, passarinhos. E também o espaço para elaborar o luto dos anos de chumbo, narrar o trauma, como diz Marcio Seligmann-Silva, no seu texto "Narrar o trauma. A questão dos testemunho de catástrofes históricas". Para não deixar a neurose da raiva e da vingança tomar conta e ocupar o lugar da criação, da relação amorosa com o universo. A vitalidade de um parque é o melhor cenário para que a lembrança seja profundamente generosa, até com quem oprimiu, pois mesmo essas pessoas são beneficiárias da liberdade e da democracia.

Não conheci o Zizo, mas reconheço a força que o levou a lutar para refazer o mundo de seu tempo. Reconheço a juventude pulsando em seus atos, alerta, vigorosa, valente, certa de estar atuando em favor de seu ideal de país. Reconheço seus passos apressados, ao encontro da realização do impossível e, depois, fugindo da perseguição, ressoando na calçada, até serem freados por uma bala no peito. Reconheço no seu apelido a intimidade que a família empresta ao Brasil para lembrá-lo no mesmo código de amor de pais e irmãos que o tornou único na infância e, agora, é expressão de um Zizo coletivo que permanecerá neste memorial onde outros jovens virão aprender a gostar da vida em eterno recomeço, expressa na natureza.

Não por acaso Zizo dá nome a uma parte da mata que teima e resiste à destruição, à violência, aos equívocos da insensatez e sobrevive aos seus algozes, sendo-lhes necessária e fundamental.


Marina Silva é professora secundária de História, senadora pelo PT do Acre e ex-ministra do Meio Ambiente.

Fale com Marina Silva: marina.silva08@terra.com.br

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