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Quarta, 20 de agosto de 2008, 07h57

Filme Mudo (variação Nº 4)

Amilcar Bettega
De Paris

Sentada e fumando, indiferente à balbúrdia de vozes, barulho de copos e o vaivém dos garçons em torno das mesas, Sophie parecia imersa em um sonho. De tempos em tempos seu olhar se dirigia para a parede de vidro ao seu lado. Lá fora as pessoas caminhavam na calçada, sob plátanos cujas folhas refletiam o sol do meio da tarde. No outro lado da rua, os prédios formavam um plano compacto de fachadas de arquitetura marcadamente 1900 onde se multiplicavam outros cafés e restaurantes. Ela já não sabia há quanto tempo estava ali.

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(também eu não sei há quanto tempo ela está lá, confinada nessa imagem que insiste em voltar sempre, como um sonho obsessivo)

Suas mãos moviam-se bastante, mas num espaço reduzido dentro do já reduzido espaço formado pelo tampo circular da mesa que ela dividia com Martín. Ele, por sua vez, apenas a observava. Tinha os cotovelos apoiados no mármore da mesa e as mãos sob o queixo, numa atitude que poderia ser de espera, impaciência, enfado ou mera passividade.

(Martín espera por Sophie. Não poderia fazer outra coisa neste momento, fascinado por algo que para ele, e para mim também, continua sendo um mistério)

De repente, após olhar demoradamente através da parede envidraçada, ela voltou-se para Martín e começou a falar.

Ele não alterou a sua posição, cotovelos fincados na mesa e mãos sob o queixo, e seguia a trajetória que cada palavra saída da boca de Sophie fazia no ar até a sua dissipação em meio ao rumor de vozes e ruídos na balbúrdia do café. Mesmo se desejasse ele não conseguiria afastar o olhar dos lábios de Sophie e das palavras que eles despejavam no ar com um corpo, uma espessura, uma materialidade evidentes, ainda que inapreensíveis. E em seguida vinha a dissipação dessas palavras, como bolhas de ar subindo em meio a uma massa de água para estourar na superfície, empurradas por outras palavras que o movimento dos lábios de Sophie deixavam passar desde o seu interior até a confusão de sons do café.

(impossível para mim, deixar de vê-los assim, um diante do outro nesta mesa de café, presos os dois naquilo que um conta e o outro escuta)

(preso eu também, como parte desta cena que volta sempre, como parte de Sophie e de Martín, na busca das palavras que se dissipam como bolhas de ar estourando na superfície de uma massa de água)

Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005). Vive em Paris.

Fale com Amilcar Bettega: amilcar.bettega@terra.com.br

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