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Segunda, 25 de agosto de 2008, 07h57 Atualizada às 21h53

Zola, Dreyfus e o Panteão

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França celebra 100 anos da transferência de Émile Zola para o Panteão
França celebra 100 anos da transferência de Émile Zola para o Panteão

Fernando Eichenberg
De Paris

"Banco Universal!". Ao acordar, Aristide Rougon viu o nome da empresa surgir em letras de fogo no quarto ainda tomado pela escuridão. "É simples, grande, engloba tudo, cobre o mundo... Excelente!". Escolhido o nome quase como inspiração divina, a empresa foi constituída com o devido apoio de políticos influentes e com plenos poderes concedidos a seu presidente pelo conselho de administração. Generosos empréstimos, autorizados por pequenos acionistas imbuídos de otimismo e influenciados pelas promessas dos dirigentes, aumentam rapidamente o capital do grupo. A cotação das ações sobe vertiginosamente, apesar de especulações financeiras contrárias, conspiradas nos subterrâneos da Bolsa.

Para manter a curva ascendente e continuar a levantar o capital necessário à expansão mundial da empresa, alguns balanços são omitidos, outros maquiados, e a cumplicidade dos acionistas é comprada por meio da emissão e farta distribuição de novos títulos. Como medida preventiva contra qualquer abalo inesperado na confiança dos investidores, a empresa trata de comprar suas próprias ações por meio de novos empréstimos - sua dívida aumenta, é claro, mas o futuro promete ser pródigo. Nada a temer, por outro lado, por parte de analistas financeiros e da imprensa especializada, já devidamente cooptados por meio de gordas recompensas em espécie.

O grupo se expande, os negócios frutificam e as ambições de seu presidente levam-no mesmo a desafiar seu principal rival no mundo das finanças. Mas nem sempre pode-se enganar todo o mundo o tempo todo, a conjuntura não ajuda e a casa cai. A cotação das ações despenca na Bolsa. Pela manhã, vice-presidentes e integrantes do conselho de administração manifestam seu apoio ao presidente e, à tarde, se desfazem de suas ações. A empresa já não consegue honrar suas dívidas, milhares de investidores são arruinados pela derrocada e a sombra da Justiça parece próxima. O presidente ainda acredita em uma volta por cima, mas os políticos antes sócios de sua causa agora lhe dão as costas e outros mesmo desejam vingança. Resta-lhe o exílio para escapar das algemas e da prisão.

Para quem não conhece, Aristide Rougon, vulgo Saccard, é um dos personagens da saga Les Rougon-Macquart - histoire naturelle et sociale d'une famille sous le Second Empire, obra de 20 tomos escrita em 25 anos por Émile Zola (1840-1902). O escritor é lembrado este ano na França pela comemoração dos cem anos da transferência de seus restos mortais para o Panteão (a igreja Sainte-Geneviève, transformada pelos herdeiros da Revolução em sepultura dos grandes homens da nação), em Paris. Para marcar a data, uma exposição foi montada no local, aberta à visitação até outubro.

Nunca é demais lembrar a premonitória desventura do Banco Universal, relatada no volume sugestivamente intitulado L'Argent (O Dinheiro), publicado em 1891. Para construir sua história, o escritor se inspirou na quebra da empresa Union Générale, em 1882, depois de quatro anos de um crescimento impressionante. Mas em tempos de escândalos político-financeiros, o romance realista de Zola bem que poderia ter sido inspirado no noticiário atual. Para economistas, o livro faz uma análise do mundo financeiro sob todos ângulos e exibe todos os instrumentos da ciência econômica moderna, promovendo o escritor a augure: o romance de Zola teria antecipado duas ou três importantes crises da Bolsa e um século de pesquisas em economia.

Mas quando votaram pela inclusão de Zola no seleto grupo de imortais do Panteão, os deputados da Assembléia Nacional francesa pensaram menos no escritor de obras como Germinal do que no autor do célebre manifesto Eu acuso - a carta endereçada ao presidente da República (publicada no jornal L'Aurore, em 1898), em defesa do capitão Alfred Dreyfus (1859-1935), injustamente acusado e condenado por "alta traição" à pátria. O oficial do exército foi preso na manhã de segunda-feira de 15 de outubro de 1894, suspeito de ter passado informações militares secretas ao adido militar alemão em Paris. Na verdade, viu-se metido numa cilada de conspirações, mentiras e maquinações político-judiciárias, no que ficou mundialmente conhecido como o Caso Dreyfus.

De origem judaica, o capitão Dreyfus era o bode expiatório ideal para um Estado-maior que não via com bons olhos judeus em postos de alto comando e oficiais de espírito aberto à democratização das regras militares. Também era o alvo certo em um país tomado por um clima nacionalista e anti-semita. No dia em que a opinião pública foi informada do caso, o jornal Libre Parole imprimiu a manchete: "Alta traição! Prisão de um oficial judeu! O capitão Dreyfus!".

Sumariamente julgado pelo Conselho de Guerra, apesar de todos seus esforços em afirmar sua inocência, o capitão foi condenado à degradação e à deportação. Em 21 de fevereiro de 1895, foi transferido para a prisão da Ilha do Diabo, na Guiana Francesa, onde permaneceu por quase cinco longos e sofridos anos num rígido regime de encarceramento.

Sua determinação e o engajamento em sua defesa de políticos e de intelectuais como Zola levaram à revisão do processo pela Justiça militar. No novo julgamento, em 1899, Dreyfus foi mais uma vez condenado, mas com "circunstâncias atenuantes", e dessa vez recebeu a graça presidencial. Sua reabilitação oficial só foi ocorrer sete anos mais tarde, em 1906, quando a Corte de Cassação declarou sua completa inocência. Mesmo tendo recebido a medalha da Legião de Honra, sua reintegração ao Exército foi incompleta: os cinco anos de reclusão, impedindo-o de postular um grau mais elevado na hierarquia militar.

O repouso final de Zola na "casa dos grandes homens", no entanto, não se deu sem muita polêmica. Proposta no Parlamento em 1902, à morte do escritor, a proposição de lei sobre a discutida transferência só foi adotada em 13 de julho 1906, mas sem feito imediato. O debate voltou à tona quando, em 19 de março de 1908, ocorreu uma sessão para aprovar um crédito extra de 35 mil francos para a organização da cerimônia, na qual se afrontaram o escritor e deputado nacionalista Maurice Barrès (1862-1923) e o líder socialista Jean Jaurès (1859-1914). "Senhores, estão nos pedindo 35 mil francos para levar as cinzas de Zola para o Panteão. Creio que jamais teremos uma ocasião melhor para fazermos economia", alfinetou Barrès, provocando protestos à esquerda e aplausos e risos à direita.

Em 4 de junho de 1908, a cerimônia foi finalmente realizada. Presente, Alfred Dreyfus foi ferido por um tiro no braço, disparado pelo nacionalista Louis Grégori, um dos que manifestavam no local contra a entrada de Zola no Panteão. Julgado em setembro, o agressor declarou que não pretendeu atirar na pessoa de Alfred Dreyfus mas no "dreyfusismo", e foi absolvido pelo júri.

Para o historiador Vincent Duclert, autor da biografia de referência do personagem, Dreyfus encarna um herói ordinário, um modelo de francês que, nunca negando suas origens religiosas, colocou acima delas os valores de razão e de progresso que haviam, precisamente, liberado as comunidades judaicas da França e da Argélia para o caminho da universalidade.

Duclert vai além e sugere até mesmo a transferência dos restos mortais de Alfred Dreyfus para o Panteão: "Fazendo entrar Dreyfus no Panteão, a França dirá aos franceses e ao mundo que ainda quer permanecer como a pátria do direito e da verdade contra o racismo e o anti-semitismo, lembrando que um imenso combate para salvar um judeu foi travado, num século 19 que ainda não havia conhecido o século 20, e que esse combate foi vitorioso porque um ato da mais alta Corte de Justiça, fundada no direito e na história, se impôs contra processos arbitrários, o linchamento das massas e a razão de Estado".

Exposição Zola au Panthéon - 1908-2008, até 31 de outubro.

Alfred Dreyfus: l'Honneur d'un Patriote, Vincent Duclert, ed Fayard, 1.259 págs., 30 euros.


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há dez anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros, e é autor do livro "Entre Aspas - diálogos contemporâneos", uma coletânea de entrevistas com 27 personalidades européias.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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