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Quarta, 3 de setembro de 2008, 07h56

O violeiro azul

Amilcar Bettega
De Paris

Foi Lunara, a mais jovem de nós, quem ouviu pela primeira vez. A lua estava vermelha, disse-nos com água nos olhos, e a música chegara lenta e plástica, como um vôo de garça. Ela então se viu nua diante do violeiro que se aproximava, azuladamente, desde uma curva na ponta da estrada. Ele vinha. E veio entoando uma canção que falava das flores, do perfume das corolas, do fruto. O homem a contornou, azul e músico, e seu hálito de mato lambeu-lhe o corpo. O violão vibrava como nunca ela imaginara: cada verso, cada nota, corria a pele, da cabeça à ponta dos pés.

No outro dia surgiu mudada, e nos disse como fazer: fechar os olhos no silêncio da noite e ouvir o próprio peito até sentir a música no fundo do ouvido. Então, o violeiro a passos lentos, cheio de luz.

Pouco a pouco cada uma de nós foi ouvindo, e passamos a recebê-lo juntas, num descampado à periferia do povo. Os dias já não eram tão longos quanto foram no nosso passado. Cuidávamos do jardim das nossas casas, pintávamos as unhas, penteávamos os cabelos e fazíamos vestidos de fazenda estampada com flores. Não dormíamos como antes: a noite era reservada à canção do violeiro azul.

Ouvíamos. E depois de ouvi-la, retornávamos às casas, cada qual carregando um pedaço de lua vermelha nos dentes.

Nossos maridos não mais trouxeram, trôpegos, aqueles risos empedrados, aquelas gargantas incendiadas. E as mãos deles perderam muito do peso costumeiro, agora tocando nossos corpos com das primeiríssimas vezes. Não tinham mais a pressa do desamparo, e gemiam palavras que a nós sempre foram proibidas.

Mas numa dessas noites de espera - os ouvidos já preparados para a canção - passou-se uma hora, duas, veio a madrugada e o violeiro não aparecia. A apreensão tomou conta de nós, algumas choramingavam, tememos que o mundo fosse mesmo um dia comprido e uma cama cheirando a bebida.

Quando o horizonte começou a clarear, separando o que era céu do que era terra, arriscamos olhar umas para as outras, já pensando no pior. Foi aí que vimos, com perfeita nitidez, nossos corpos banhados por uma luz azul, legítima. E começamos a cantar baixinho aquela música, que nunca mais saiu dos nossos ouvidos.

Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005). Vive em Paris.

Fale com Amilcar Bettega: amilcar.bettega@terra.com.br

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