
Atualizada às 09h17 Deolinda Vilhena
De Santos (SP)
Há alguns anos conheci uma garota, sim ela tinha pouco mais de 18 anos, seu nome Nicole Algranti. Era uma garota como tantas outras da sua idade, com um pequeno detalhe: era sobrinha-neta de Clarice Lispector. E Clarice, Clarice era um pouco meu ídolo, seus livros fazem parte da minha história...
Nicole queria ser fotógrafa. Passaram-se os anos, nos perdemos de vista, e graças à Internet retomamos contato. Ela é leitora assídua dessa coluna. Nicole hoje é cineasta.
Há alguns meses ela me falou de seu projeto de transformar em filme as entrevistas de Clarice Lispector realizadas entre maio de 1968 e outubro de 1969, para a revista Manchete, sob o título de Diálogos Possíveis com Clarice Lispector, e outras feitas para o Jornal do Brasil, reunidas no livro Entrevistas, lançado em maio de 2007 pela editora Rocco. O livro reúne conversas de vida com 25 personalidades como Bibi Ferreira, Tarcísio Meira, Chico Buarque, Tônia Carrero e os falecidos Paulo Autran, Iberê Camargo, Clóvis Bornay, Marly de Oliveira, Érico Verissimo, Helio Pellegrino, Tom Jobim, entre outros. Transportar para a telona esses encontros memoráveis me soou como um desafio.
Pois não é que Nicole - leia-se Taboca Produções, em parceria com Camila do Espírito Santo - conseguiu captar recursos, montar um elenco de primeira que vai de Louise Cardoso a Lucélia Santos passando Aracy Balabanian e Fernando Eiras até uns jornalistas alçados à categoria de "atores por um dia" - como essa que vos escreve e Arnaldo Bloch de O Globo, e está produzindo e dirigindo De corpo inteiro para ser lançado no mercado de DVDs no Brasil?
Para tornar isso possível ela conta com uma equipe competente e deliciosa: Chico Serra, Joana Antonaccio, Luis Saldanha e muito mais.
Vocês podem imaginar o tamanho da minha surpresa quando recebi o convite para participar do filme entrevistando três mulheres "porretas": Bibi Ferreira, Elke Maravilha e Tônia Carrero.

Clarice Lispector
Custei a acreditar, afinal não sou - nunca fui e nunca serei - atriz. Sou jornalista e produtora, e agora também professora. Mas me deixei seduzir facilmente e adorei ser por alguns minutos a grande e inigualável Clarice Lispector.
Além do mais, tive tratamento de estrela, com direito a toda a atenção da Débora Mazloum, produtora de arte e figurino do filme, que fez um belo trabalho nos brechós da vida para encontrar figurino para mim. Lembro da minha cara quando recebi o e-mail dela pedindo minhas medidas... Telefonei para dizer que vestia ainda E, de enorme ou I de imenso, disse que havia perdido trinta quilos, graças a uma gastroplastia recente mas que ainda estava (estou!) muito longe de ser uma sílfide. Ela não desanimou e, quando cheguei, lá o figurino à minha espera. Roupas que adorei. Quis até confiscar o vestido de listras vermelhas.
Depois veio a parte da filmagem. Em primeiro lugar fomos filmar na casa de Tônia Carrero, a Tônia que tanto amo como vocês podem conferir numa coluna publicada aqui ano passado, e depois, na casa de Elke, por quem tenho profunda simpatia, eu e 99% dos brasileiros.
Estrear no cinema aos 48, quase 49 anos, sem jamais ter sido atriz na vida: sou um caso único ou pelo menos raro de produtora por opção e não por frustração, vivendo Clarice Lispector/jornalista e contracenando com Tônia Carrero é muita sorte.
Sorte que, Dieu merci como dizem meus amigos franceses, me acompanha. Querem ver? Quando aos 17 anos entrei para o teatro, entrei pela porta da frente, jamais havia feito teatro, sequer amador, e começo a trabalhar na companhia Maria Della Costa. Quando quis trabalhar na área da música o que aconteceu? Fui trabalhar com Clara Nunes. Quando quis trabalhar numa redação de jornal, não fui nem para a editoria de polícia e nem para a geral, mas para a coluna social, como assistente da Hildegard Angel. Quando quis ser professora universitária onde dei minha primeira aula? No Programa de Pós-Graduação do Departamento de Artes Cênicas a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Não posso ser modesta, posso?
Mas voltando ao De corpo inteiro, devo dizer que fomos a primeira equipe a filmar na casa nova de Tônia Carrero, recebidos com a delicadeza e elegâncias de sempre, primeiro por Nina, fiel escudeira de Tônia há 22 anos, depois pela própria Maria Antonieta Portocarrero, que não recebeu nome de rainha da França por acaso.
E como foi bom rever D. Tônia. Não nos encontrávamos desde outubro passado. Ela não havia me visto após a cirurgia bariátrica e preciso dizer que ao lado de Edla Van Steen e Ariane Mnouchkine, Tônia é muito responsável por essa minha decisão. Ela nunca gostou de me ver gorda, ela não entendia que nem todo mundo nasceu para ser Tônia Carrero.

Tônia Carrero e Deolinda Vilhena nas filmagens
Aos 86 anos, completados há duas semanas, ela continua linda, aliás, ela foi, é e sempre será a mais bela mulher que encontrei nessa vida. Não conheço uma que seja páreo para Tônia, porque além de bela, ela exala vida, coisa que falta na grande maioria. E, detalhe importantíssimo, Tônia tem excesso de neurônios, é uma beleza que pensa. Muitas podem ser belas, mas não pensam. Outras pensam e não são tão belas. Perfeita só Tônia Carrero.
A cada vez que a vejo penso no Paulo Mendes Campos dizendo que quando Tônia Carrero "irrompia na sala, na rua, na praia, ninguém podia olhar para outro lado, como acontece na penumbra quando se liga a televisão. Era de uma beleza formal, inconsútil, sem pespontos. E era, simultaneamente, em todos os seus gestos e instantes, uma graça. Uma graça nascente, a pular dos olhos, a recortar-se no sorriso, uma graça muito juvenil e quase um pouquinho estouvada. E daí, na duplicidade do encanto de Mariínha andava uma contradição, pois as mulheres esculturais são sempre hieráticas, e nossa estátua de Ipanema era descontraída, eufórica, esportiva. Ela, por excesso de espontaneidade, acabava de criar um estilo novo no comportamento das moças lindas."
Ao final da gravação, estávamos todos de quatro. A equipe de De corpo inteiro saiu da casa de Tônia de alma lavada. Ficamos lá pouco mais de duas horas, mas recebemos uma aula de vida, porque nesta arte D. Tônia é mestra.
Da casa da Tônia partimos rumo ao Leme ao encontro de uma nova aventura. Destino final: a casa de Elke Maravilha.
Meus caminhos profissionais pouco cruzaram os caminhos da Elke. Lembro-me de tê-la encontrado algumas poucas vezes. O primeiro encontro nos bastidores dos programas do Chacrinha, sim, freqüentei os bastidores do Cassino e da Buzina acompanhando Clara Nunes. Depois em 1979/1980 Elke substituiu Djenane Machado, minha grande amiga e companheira de tantos bons momentos nessa vida, na revista "Rio de cabo a rabo", cuja temporada no Teatro Rival marcou época na vida de toda uma tchurma, confiram meu artigo sobre. Mas Elke tem muita história para contar e um CV de fazer inveja.
A chegada na casa dela já é em si uma cena surreal. Quando a porta se abre, o tom arroxeado das paredes da sala, os altares, com direito a todos os santos e entidades de todas as religiões tradicionais e não-tradicionais desse mundão de meu Deus, são de impressionar. E saltitando entre uma imagem de "Cristo, Oxalá, Buda, Oxalufã, Maomé, Oxossi, São Francisco, Ossaim, Dalai Lama, Oxum, Nelson Mandela, Ogum, Alexandre o Grande, Xangô, Clementina de Jesus, Nanã, Tupã, Oba, Itamar Assumpção, Seu Zé Pilintra, Michelangelo, Logunedé", encontra-se um gato preto.

Elke Maravilha no filme De corpo inteiro
(Foto: Nicole Algranti, especial para Terra Magazine)
Quando ela entra, com a peruca de dread lock loura e suas roupas exuberantes, no cenário descrito anteriormente é uma imagem que nem Salvador Dali ousaria imaginar. Melhor só quando ela abre o sorriso e diz "entrem crianças".
Conversa vai, conversa vem, enquanto a equipe prepara o material, instala a luz, etc, Elke nos brinda com as histórias de alguém que nasceu na Rússia, mas precisamente em São Petersburgo, e que antes de se instalar aos seis anos de idade em Itabira do Mato Dentro fez escalas na Alemanha e na França. O pai agrônomo via no Brasil um país de infinitas possibilidades e como diz Elke um país "onde todas as raças e crenças convivem lado a lado e até judeu se dá com árabe e vão juntos ao centro de macumba!"
Depois lembrei-me de que ela falava diversos idiomas. Na verdade fala oito idiomas: alemão, italiano, espanhol, russo, francês, inglês, grego e latim e aí o show foi completo.
Elke nos presenteou com trechos do seu espetáculo "Elke - do Sagrado ao Profano" no qual ela interpreta canções e textos os mais diversos. Ouvimos Elke cantar em russo, depois uma canção de amor em grego e depois uma canção de Atahualpa Yupanqui, em espanhol. Verdadeiro espetáculo. Aliás Elke se apresentará a partir de hoje, às sextas e sábados, à meia-noite no Espaço dos Parlapatões em Sampa. Recomendo.
Elke já fez de tudo nessa vida: foi professora, tradutora e intérprete de línguas estrangeiras, foi bancária, secretária trilíngue, bibliotecária, modelo e manequim. Tendo começado a carreira de modelo aos 24 anos com Guilherme Guimarães, trabalhou para grandes estilistas - com Zuzu Angel inclusive - e era considerada uma inovadora nas passarelas como explicou numa entrevista:
"Perguntam-me como criei este estilo, este visual que me caracteriza. Digo que sempre busquei compor este jeito, claro que não era assim como agora, pois hoje a coisa é mais abrangente, com o tempo venho me descobrindo muito mais por dentro e colocando o que descubro para fora. Costumo dizer que sempre fui assim, só que com o tempo estou piorando! Na realidade, sempre fui um trem meio diferente, sabe? Ainda adolescente resolvi rasgar a roupa, desgrenhei o cabelo, exagerei na maquiagem e saí na rua... Levei até cuspida na cara. Mas foi bom porque entendi aquela situação como se estivessem colocando-me em teste. Talvez, se meu estilo não fosse verdadeiramente minha realidade interior, eu teria voltado atrás. Mas sabia que nunca iria recuar. Eu nunca quis agredir ninguém! O que eu quero é brincar, me mostrar, me comunicar".
E isso ela fez muito bem. Acabada a filmagem, segui com Nicole para a Fiorentina, não sem antes passar na porta do antigo prédio onde Clarice morava na Rua Gustavo Sampaio no Leme. Precisava sentar num porto seguro antes de voltar para casa, para pensar um pouco em tudo o que tinha vivido, ouvido e aprendido numa única tarde-noite.
Na Fiorentina, além do Djalma, encontramos a Fernanda Montenegro, o Fernando Torres, a Maria Inez Barros de Almeida, a Bárbara Heliodora, o Sérgio Britto, enfim o teatro brasileiro. E me senti em casa.
Conversamos um pouco com todo mundo e combinamos minha volta ao Rio para gravar a entrevista com a Bibi Ferreira, que como muitos de vocês sabem, é presença mais do que constante e importante na minha vida desde 1981. Bibi está em turnê com Às favas com os escrúpulos. É outra maluca: aos 86 anos, mambemba pelo Brasil como o fez com pouco mais de um ano acompanhando a mãe, Aída, numa turnê pela América Latina. Mas isso é outra história.
Assim que Bibi chegar ao Rio e conseguirmos conciliar as agendas de todos com a equipe e o cronograma do filme, seguirei ao encontro de Clarice mais uma vez, De corpo inteiro e a alma também...
Valeu Nicole...
PS - Esta coluna já estava escrita quando soube da partida de Fernando Torres. Grande ator, grande companheiro, tremendo bom caráter e um verdadeiro homem de teatro, ainda que tivesse flertado com a televisão e com o cinema, a partida de Fernando confirma a orfandade de uma geração que aprendeu a amar o teatro através de figuras como ele. À Fernandona, Fernandinha e Cláudio o meu abraço carinhoso e minha torcida infinita para que eles consigam se recuperar de tão dolorosa perda. Esta é uma coluna de teatro, a perda de um HOMEM de teatro da envergadura de Fernando Torres a deixa de luto.
SERVIÇO
Elke Maravilha em Do sagrado ao profano
Acompanhada por Dan Maccaferri (violões e guitarra), Leandro Ferro (percussão e bateria), Yuri Steinhoff (contrabaixo e bambolim) e direção de Rubens Curi, Elke interpreta, em cinco idiomas, canções que vão de compositores como Villa Lobos, Atahualpa Yupanqui a Falcão; e textos de Drummond, São João Evangelista e muito mais.
Espaço dos Parlapatões - Pça Franklin Roosevelt, 158 ¿ Tel.: (11) 3258-4449
De 05/09 a 11/11. Sextas e Sábados, à meia-noite.
Ingressos: R$ 30.
Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br
Terra Magazine
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