
Milton Hatoum
De São Paulo
Lembro de uma breve conversa com o escritor norte-americano Don Delillo, autor de um romance de que gosto muito: Ruído branco. Delillo participava de um evento literário no Brasil, país que ele não conhecia, e provavelmente conheceu muito pouco, pois ninguém conhece um país numa visita de cinco dias ou uma semana.
Antes um escritor apenas escrevia livros, disse Delillo. Agora, quando você publica um romance, você tem que viajar quase tanto quanto uma aeromoça. Isso também acontece no Brasil?
Cada vez mais, eu respondi.
Então estamos todos exaustos, ele observou, com um ar de derrota. Para mim, cada viagem é um martírio. E se eu aceitasse todos os convites, teria que viajar trezentos dias por ano.
Isso não é um exagero para um escritor norte-americano. Nos Estados Unidos há mais de mil universidades e milhares de faculdades, a maioria com cursos de literatura de língua inglesa. E centenas de boas livrarias que promovem leituras e debates com poetas, ensaístas, romancistas e dramaturgos. Já nem falo das bibliotecas públicas, que também convidam escritores para falar de suas obras.
No começo você se empolga com qualquer viagem. Isso acontece com o primeiro livro, que é uma espécie de prova de fogo e você alimenta a ilusão de que a presença física do autor em várias cidades pode ser importante para a divulgação da obra. Aos poucos, você percebe o óbvio: por que um autor deve viajar tanto, se os livros viajam desde sempre? O encanto do lugar desconhecido, o encontro com leitores, escritores e professores, a discussão (infelizmente cada vez mais rara) sobre literatura, tudo isso é importante, sem contar as novas amizades que podem surgir durante uma viagem. Mas o diabo é que no Brasil e nos Estados Unidos, países imensos, um vôo direto a uma cidade distante pode durar mais de três horas. Se houver escalas, a coisa complica e você pode passar um bom tempo num aeroporto, à espera de uma conexão. Entre a terra e o ar, o dia se foi. E como eu detesto barrinha de cereal, sanduíche requentado e pizza emborrachada, a viagem torna-se um exercício de faquir, mas sem o poder de meditação de um faquir. Para mim, é um exercício não deliberado de masoquismo, em que o regime alimentar forçado rivaliza com o cansaço.
Voar com fome e com medo não é uma aventura agradável. Por isso, cada vez mais, peço aos meus livros que viajem por mim. Eles devem - ou deveriam ser - mais verdadeiros e convincentes do que o autor. Eu me contento com as viagens imaginárias. Sentado à mesa de uma saleta, olho a romãzeira e a pitangueira do jardinzinho e viajo por todo o Brasil. E ainda me sobra alento para passear por Madras, Istambul, La Paz. Ontem fui a Buenos Aires e anteontem visitei as ruínas romanas de Balbec, no Líbano. Em algum momento da semana passada, andei por Cingapura e senti, com um sufoco nostálgico, o mesmo calor úmido da Amazônia. De vez em quando escuto o ronco de turbinas e imagino centenas de faquires espremidos num tubo que os conduzirá a outro país, talvez a outro continente. Enquanto isso, eu, aqui, de frente para as romãs e pitangas com suas flores, dou a volta ao mundo nesta manhã iluminada pelo sol desse inverno que mais parece verão.
Terra Magazine