Terra Magazine

 

Terça, 9 de setembro de 2008, 07h28 Atualizada às 15h20

Deborah Colker: "O desejo é cruel"

Thais Bilenky

O nono espetáculo da Companhia de Dança de Deborah Colker, Cruel, estréia em São Paulo sexta-feira, dia 12. Pela primeira vez apenas na direção, sem dançar, a coreógrafa carioca diz que, para o espetáculo, tê-la do "lado de fora foi muito bom".

Com patrocínio exclusivo da Petrobras há quinze anos, a companhia dançou Cruel em março de 2008 no Festival de Curitiba, depois passou por diversas cidades do Brasil e, no Rio de Janeiro, apresentou-se durante uma temporada no Teatro Municipal.

Atacada em outros momentos por críticos que consideravam ser "ginástica" o que ela fazia no palco, Deborah Colker desfruta agora de reconhecimento. No começo do ano que vem, ela estréia na direção de novo espetáculo do Cirque du Soleil - a primeira brasileira e a primeira mulher a assumir esta função na companhia canadense de circo.

A respeito, a coreógrafa diz ser "um desafio bacana, importante para a companhia, não só para minha carreira pessoal".

Reconhecimento que, a bem da verdade, já vem de antes. Por exemplo, em 2006, quando Colker foi convidada a representar em forma de arte o futebol na Copa do Mundo da Alemanha. A companhia apresentou Maracanã, montagem que simulava com corpos os movimentos dos jogadores e, em dado momento, simulava a própria bola.

O nome Cruel pode dar a entender certa agressividade, mas a coreógrafa amacia o tema, investindo-lhe caráter humano. "O desejo é cruel. Trabalhei a condição humana do desejo, desejo que a gente não escolhe, que muitas vezes é proibido, mas que existe", relata.

Ela fala da vida cotidiana, mas deixa a arte falar mais alto. Quando diz que seu trabalho não é "jornalístico", nem trata das "brutalidades que o mundo vive", quer dizer que o ser humano fascina por sua complexidade.

"Como na vida", as histórias de Cruel se configuram no palco e também as relações entre os bailarinos se transformam com os atos, diz. Colker se entusiasma ao descrever a cadência da dança:

- Pela primeira vez, eu identifico bailarinos intérpretes. Eles vão construindo aquelas histórias, dançando! E vão construindo aquelas histórias de amor entre eles e aí as coisas começam a dar errado. Como na vida, a gente não sabe exatamente quando ocorreu.

Nesta entrevista, Deborah Colker fala ainda de seu voto em Fernando Gabeira (PV-RJ) para a prefeitura do Rio de Janeiro e das leis de incentivo à cultura no Brasil.

Terra Magazine - Por que pela primeira vez a senhora não dança em um espetáculo seu?
Deborah Colker -
Totalmente de fora você tem um olhar, uma concentração, uma capacidade de perceber e organizar toda a composição do espetáculo. Para Cruel, o espetáculo me ter do lado de fora foi muito bom.

Como é o espetáculo? Por que tratar de temas como amor a partir de um olhar cruel?
São temas que... é a condição humana, a gente não escolhe. Fazem parte do ser humano. A gente não escolhe amar, se apaixonar, a família. Me interessa muito poder perceber movimentos e buscar um corpo que dança falando deste assunto. Que é um assunto que está na respiração da gente, que está na vida. Faz parte do cotidiano.

O espetáculo foi concebido neste momento de sua carreira por algum motivo? Marca algum momento?
Não, Cruel é um espetáculo cuja grande inspiração foi o , espetáculo anterior que eu fiz para a companhia em que o tema era o desejo. O desejo é cruel. Trabalhei a condição humana do desejo, desejo que a gente não escolhe, que muitas vezes é proibido, mas que existe. Desejos que jorram dentro e a gente tem que aprender a administrar. Então, neste processo de , eu pensava como tem tantas coisas na vida da gente que são cruéis. A velhice, a juventude, a paixão, o amor, a traição, a rejeição, a beleza. Tanto as situações fascinantes da vida como as difíceis são cruéis.

Como está sendo dirigir o Cirque du Soleil ao mesmo tempo?
É difícil. Antes eu tinha a Companhia (de dança Deborah Colker), a Escola de Movimento Deborah Colker, o Centro de Movimento Deborah Colker. Agora tenho isso tudo, que já é muita coisa, para administrar e pensar e dirigir, e além do que o Cirque de Soleil, que também é um grande espetáculo. São 53 pessoas em cena e é um espetáculo de circo, um outro assunto!

Em outro país...
Em outro lugar do mundo, no Canadá. Vai estrear em Montreal, é uma ponte aérea complicada. Há um ano e meio, eu vou para Montreal todo mês. Pelo menos, uma vez por mês. Tem vez que eu passo cinco dias, tem vez que passo dez, quinze. A partir de outubro, passo a ficar quinze dias lá, quinze aqui. Em janeiro, fevereiro, março e abril, que é quando estréia, vou ficar direto lá.

Filhos, família reclamam?
Eles reclamam, todo mundo sente falta, também sinto falta de todo mundo. Mas é um desafio bacana, muito grande. E é importante para a companhia, não só para minha carreira pessoal. Estou aprendendo muito a dirigir e a conceber a coreografia, direção, figurino, luz. Estou lidando com uma equipe de 200 pessoas, em outra língua. Escolhendo acrobatas do mundo inteiro para eles desenvolverem os números que eu quero fazer.

O que significa tipos físicos diferentes. No Leste Europeu são maiores, na Ásia menores...
É, tem chinês, tem russo, canandense, tem inglês, belga... E eu estou trabalhando com acrobatas, não bailarinos. É uma linguagem corporal maravilhosa, que eu adoro, é fascinante. Mas é outra categoria, outra história. Na verdade, não iniciei ainda os ensaios, que começam no final de setembro. Por enquanto estou só no trabalho de mesa: roteiro, nos ateliês, fazendo cenário e luz. E Cruel estreou no final de março e está viajando muito também. Foi para o sul, interior de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Goiânia, oito cidades do nordeste.

Sua saúde e disposição?
Faço aulo e dou aula na companhia. Quando não estou com a companhia, tento me cuidar. Não da mesma maneira, mas eu tento manter. Dancei durante 15 anos, a companhia ensaia 7h45 por dia, então o corpo está acostumado. Hoje, estou me exercitando 2h por dia, 1h30 por dia. Eu sinto diferença, mas estou um trabalho intelectual, mental, racional, criativo muito intenso.

Que compensa...
Está sendo muito bacana, estou muito feliz com Cruel. É um espetáculo que não é jornalístico, documental. Não é sobre a violência, a brutalidade que o mundo vive, não. É um olhar cruel sobre o que há de mais fascinante na vida. O primeiro amor, a grande mudança da vida, a paixão, a família, os espelhos. Você se olhar e perceber sua história, seu passado, seu presente, seu futuro que ainda te resta. Os espelhos trazem imagens surrealistas. São quatro espelhos que giram, são carros-espelhos, 2 metros por 2 metros, são espelhos gigantes, com uma escotilha no meio. Os bailarinos furam as imagens e os corpos dos outros bailarinos.

Os espelhos refletem também a platéia?
Não! A luz do Jorginho de Carvalho é maravilhosa! A gente descobriu uma luz... No segundo ato, fica tudo preto, as cochias, o backstage - não pode ter um prego, um extintor de incêndio, uma luzinha - tem que ser tudo preto, nada é refletido, só é refletido o que a gente quer. E faz com que, em vez de 17 bailarinos, você tenha 100 bailarinos! É muito bonito.

E o primeiro ato?
Também é muito bonito. O primeiro ato é mais erudito, o segundo ato é mais eletrônico. O primeiro ato é mais delicado, o segundo é mais frenético. As histórias vão sendo construídas. Pela primeira vez, eu identifico bailarinos intérpretes. Eles vão construindo aquelas histórias, dançando! E vão construindo aquelas histórias de amor entre eles e aí as coisas começam a dar errado. Como na vida, a gente não sabe exatamente quando ocorreu. Às vezes, a gente está namorando alguém, começa a ter um problema e você pensa "Meu Deus, quando é que começou a dar errado? O que eu fiz?". Você tenta consertar, mas não tem mais jeito. É muito perto de como é a vida.

Por que o voto para Fernando Gabeira (PV-RJ)?
O voto? Porque o Gabeira é uma pessoa que eu respeito há muitos anos. Eu sempre votei no Gabeira. Acho ele um cara ético. Ele, inclusive, quando a companhia precisou de coisas, ele sempre... Ele, como deputado, sempre trouxe verba para o Rio de Janeiro. Tem uma ética e um compromisso político com este país desde sempre. Acho que ele seria muito bacana para o Rio de Janeiro.

A gestão de Giberto Gil no Ministério da Cultura foi boa para o Brasil, para as artes?
O Gil trouxe uma certa visibilidade para o ministério, que ninguém nunca quis nem pegar. É difícil querer pegar o Ministério da Cultura, o ministério que talvez tenha menos dinheiro. Teve alguns momentos em que eu ficava brava...

Por exemplo?
Ficava braba, eu falava: "Ah, a gente precisava de alguém com punho mais forte!". Ele tinha a carreira de músico e essa divisão...

Que momentos?
Alguns momentos. Mas, para mim, a Petrobras é meu ministério da Cultura, meu e do país. Uma indústria que investe muito em cultura - no cinema, na dança, no teatro. É patrocinadora da companhia há 15 anos.

Antes da Petrobras, havia patrocínio da prefeitura do Rio de Janeiro?
Quando a prefeitura deu o patrocínio, durante dois anos, a Petrobras já estava. Depois é que a Petrobras ficou exclusiva.

As leis de incentivo à cultura surtem efeito na dança propriamente?
Surtem. A Lei Rouanet é uma lei importantíssima. O país não pode perdê-la de maneira nenhuma. Claro que precisa de mudanças, mas mudanças não significa acabar uma lei para fazer outra. Com isso, a gente perde muito tempo. Um país tem que ter responsabilidade e compromisso, não ficar mudando toda hora. Então, entra um governo, muda uma lei. Aí a lei precisa ser aprovada, adapatada.

Quais mudanças seriam interessantes?
A gente sabe de alguns problemas que a Lei Rouanet tem às vezes. Como a gente teve com a árvore de Natal (Nota de Redação: Em dezembro de 2007, o governo federal, via Lei Rouanet, patrocinou a festa de instalação de nova versão da árvore de Natal gigante na Lagoa Rodrigo de Freitas, que cresce a cada ano). Então, que tipo de regras devem ser feitas ou não?

Durante as apresentações fora do Brasil, a senhora percebe muita diferença no espaço para os espetáculos de dança, em relação às instalações, público, imprensa?
A companhia lá fora é muito bem recepcionada. Alguns países têm mais jornais e mais críticos que o nosso. Têm um mercado um pouco mais aquecido de arte e de cultura. Então, às vezes têm situações diferentes. Por exemplo, na temporada em Tóquio este ano, seis meses antes, a gente já sabia que o teatro estava lotado. A imprensa... às vezes um ano antes (do espetáculo), eu vou para dar entrevista.

Como foi enfrentar a crítica no começo da sua carreira? Pesaram muito os comentários de que seu trabalho não era dança, era ginástica?
Não pesou muito, não. A crítica é mais uma coisa. É o olhar de uma pessoa, que às vezes é especializada em dança, às vezes não. Um olhar muito particular. O importante mesmo é o público e várias pessoas próximas ao trabalho, de outras áreas: de teatro, de cinema, arquitetos, artistas plásticos. Gosto muito de ouvir opiniões. Mas (o crítico) não atrapalha, não, pelo contrário. Ele não pode ter a mesma opinião que a platéia, que ama, venera, aplaude. Teve um momento em que ele disse que era acobrático, momento que disse que era circo, momento em que faltava o circo, faltava... Eles às vezes ficam confusos. Minha trajetória vai supreendendo, porque eu faço espetáculos muito diferentes. Sou uma pessoa que tem inquietação.

Para os bailarinos, como é a rotina pesada? Eles se sentem estimulados? Como trabalho, é gratificante?
Um bailarino da Cia. de Dança Deborah Colker é um bailarino que faz aula de balé clássico e dança contemporânea todo dia. Um ano de estréia é um ano atípico, um ano em que normamelmente a gente faz só dois espetáculos. Mas em ano que não tem estréia, a gente faz três espetáculos! Ano que vem, a gente dança Cruel, Casa e 4 por 4. Este ano, a gente está dançando Cruel e Rota. Cruel demorou dois anos a ser concebido e o processo é muito rico, de muitas inspirações. A gente estuda junto, lê junto, discute junto. Os bailarinos se colocam. A relação dos movimentos com o espaço, que eu trago porque é muito fascinante para mim, de vencer cada espaço novo que eu apresento em cada espetáculo, a gente discute.

Dá para remunerar todo mundo bem?
Dá, a companhia é profissional. Petrobras comparece, o patrocínio é exclusivo. Os bailarinos são bem pagos, têm seguro saúde, têm seguro de vida, têm boas aulas, bons fisioterapeutas, bons professores, bons assistentes. Os bailarinos participam de uma porcentagem da bilheteria: quanto mais a gente dança, mais eles ganham. Acho que têm uma ambição, têm uma possibiliadde de crescimento muito grande.

 

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