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Quinta, 11 de setembro de 2008, 08h01 Atualizada às 21h01

Pussey! Visão crítica da indústria dos quadrinhos

Claudio Martini
De Campinas (SP)


Dan Pussey, como seu criador, Daniel Clowes, é um desenhista de HQs. E durante as cinqüenta páginas de Pussey! (Fantagraphics, EUA) nós vamos acompanhar várias fases da vida do artista. Clowes transformou em pequenas histórias em quadrinhos essas etapas da vida de seu personagem: a infância de menino estranho e solitário, a adolescência, os primeiros trabalhos, o sucesso, a decadência e finalmente a morte de um criador de HQs de super-heróis.

E Clowes não poupa ninguém nesse retrato irônico e cruel da indústria norte-americana de quadrinhos. Os nerds que sabem de cor cada fala do filme de seu herói favorito, os aficionados que compram dezenas de exemplares do número 1 de uma revista esperando lucrar com uma possível valorização, os iniciantes inseguros e presa fácil para editores inescrupulosos, os próprios editores inescrupulosos, os desenhistas que se plagiam infinitamente. Infinito também está no nome do editor que acompanha Pussey durante toda sua carreira, Dr. Infinity, que reúne o bem e mal dessa fábrica de super-heróis que é a marca registrada do mercado norte-americano de quadrinhos.

Dr. Infinity sabe se aproveitar das fraquezas e das qualidades dos artistas que se aglomeram à sua volta. Sabe quando afrouxar ou apertar a coleira. Sabe ser amigão ou tirano. Faz questão de assinar os trabalhos de seus subordinados, mas tira o corpo fora durante a investigação do congresso sobre violência nos quadrinhos nos anos 1950, quando ele atribui toda responsabilidade aos artistas.

O mercado de arte também é retratado por Clowes como oportunista, hipócrita e amoral, quando o personagem principal descobre um artista plástico transpondo para telas (e ganhando muito dinheiro com isso) seus desenhos de super-heróis. O pintor esclarece a Pussey que "Tudo é arte! Se eu coloco em uma parede, é arte! E se vende, é arte excelente!".

Como roteirista, Clowes também mostrou sua visão crítica do mundo da arte no filme Art School Confidential (Uma Escola de Arte Muito Louca), dirigido por Terry Zwigoff, o mesmo que transportou para o cinema uma outra excelente obra do quadrinhista: Ghost World, aqui traduzida como Mundo Cão.

Clowes utiliza seu grande talento para nos dar uma visão crítica poucas vezes vista - amarga e pessimista - desse sistema de trabalho criado e mantido pelos grandes editores norte-americanos, mas ao mesmo tempo é uma obra que em si representa uma volta por cima e uma maneira inovadora de se lidar com um tema que raramente é abordado.

Fato interessante é que cada uma das mini-histórias que compõem o livro são desenhadas de uma maneira ligeiramente diferente. A proporção entre cabeça e corpo dos personagens, o estilo como é aplicada a tinta nanquim, alguns capítulos mais caricaturais e outros mais realistas, alguns com traços mais pesados e outros mais leves. O artista quis dar a impressão ao leitor de que as diferentes fases da vida de Pussey foram desenhadas também em diferentes épocas, acompanhando a evolução do personagem.

Finalmente, ao fim da vida, em um futuro hipotético em que as HQs não mais existem, enquanto Dr. Infinity é cultuado em um museu do Século XX como um gênio e visionário, Pussey definha em um gigantesco asilo e sua últimas palavras são: "Eles preservaram meu trabalho em sacos plásticos..."

Claudio Roberto Martini é designer gráfico e publisher da editora de HQs Zarabatana Books

Fale com Claudio Martini: claudio.martini@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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