
Atualizada às 16h39 |
Juan Karita/AP
Em discurso nesta quinta-feira, o presidente boliviano Evo Morales mantém a posição de não reagir com o uso da força aos protestos em cinco dos nove departamentos do País
|
Daniel Milazzo
Após 18 dias de bloqueios em estradas e manifestações contra o governo do presidente Evo Morales em cinco departamentos da Bolívia (Santa Cruz, Tarija, Beni, Pando e Chuquisaca), os protestos intensificaram-se nos últimos dias. Nesta quinta-feira, um incidente provocou novas explosões no gasoduto que leva o gás boliviano ao Brasil. De acordo com a agência de notícias espanholas EFE, a Bolívia está transportando apenas 45% dos 31 milhões de metros cúbicos de gás que envia diariamente ao Brasil.
Leia também
» Parlasul: EUA "tem dedo" em crise na Bolívia
» Cônsul: interesses privados financiam protestos
» EUA dizem que expulsão de embaixador é erro grave
» Entenda os protestos
Nas regiões foco dos protestos, há pelo menos três dias tem avançando a onda de violência, invasões de prédios públicos e saques a lojas e supermercados por parte dos manifestantes contrários a Evo. O foco de maior tensão até o momento é a cidade de Tarija - capital do departamento de mesmo nome, responsável por 60% do gás produzido no País e que compõe a chamada "meia-lua" junto a Santa Cruz, Beni e Pando).
Santa Cruz de la Sierra é a capital de Santa Cruz e sede do governo departamental. O prefeito departamental, Rubén Costas, é um dos maiores adversários políticos de Evo. Uma enfermeira, de 53 anos, que reside em Santa Cruz de la Sierra, mas que não quis se identificar, aceitou conversar com Terra Magazine e relatar o clima vivido na cidade.
Ela conta que ainda é possível sair às ruas, mas o clima de tensão tem aumentado nos últimos dias. Prédios públicos estão sendo invadidos por integrantes do comitê cívico regional, os quais também tomaram escritórios de empresas que o presidente Morales nacionalizou há alguns meses. Saques a lojas supermercados são realizados inclusive durante a noite.
A enfermeira denuncia que manifestantes do Comitê Cívico - que representa a elite político econômica do departamento - estão oferecendo dinheiro, entre 20 e 30 pesos, a adolescentes até de 13 anos por cada saque, invasão ou computador de órgãos públicos queimado.
Não atirar
La Paz tem manifestado que não irá responder à violência praticada pelos manifestantes com ainda mais violência. Assim, polícia e Forças Armadas da Bolívia estão impedidas de usar armas de fogo para conter os protestos. A ordem dada às Forças Armadas é de que protejam os gasodutos que transportam o gás boliviano aos países vizinhos (Brasil, Argentina e Paraguai).
- Por não ter ordem para disparar, os policiais não podem fazer nada. É uma humilhação para a polícia! - indigna-se a moradora de Santa Cruz.
Na sua opinião, os manifestantes dos Comitês Cívicos querem mortos, procuram o confronto para criar mártires. Por sua vez, Evo Morales justificou não reagir aos protestos mediante o uso da força justamente para não provocar mortes e enfraquecer-se politicamente.
Preocupada com a atual situação, a moradora de Santa Cruz de la Sierra compartilha que já viveu outros períodos de crise, onde também houve violência, mas confessa que este quadro é um dos piores que já assistiu.
- Está mais grave que antes. Porque no passado era o governo que nos massacrava, mas agora é um grupo pequeno que massacra.
Ela desabafa, diz que o povo já está cansado e quer um basta a toda esta desordem. A enfermeira, que pediu para não ter seu nome revelado com medo de retaliações, chama atenção para a resposta que pode ser orquestrada pelos partidários de Evo e de seu partido (o MAS - Movimento ao Socialismo); segundo ela, são membros da classe média, uma parcela dos estudantes e sobretudo os camponeses.
Questionada se acreditaria que essa "resposta" acarretasse em mais violência, não hesita em afirmar:
- Sim, pode haver confrontação. O povo quer um basta! (Os partidários de Evo em Santa Cruz) já estão começando a falar "Não importa, morremos por isso, mas vamos adiante".
Carta Constitucional
A escalada de violência dos últimos dias demonstra o tamanho da querela que divide a Bolívia. Os departamentos da meia-lua, região mais rica do país, a qual detêm os maiores recursos naturais da Bolívia (a extração de petróleo e, sobretudo, gás) protagonizam forte oposição ao governo central.
Luis Alberto Alpire, chefe de gabinete do perfeito departamental de Santa Cruz, Rubén Costas, acusa o Evo de pôr em prática um governo "centralizador demais" e "racista", pois beneficia a população indígena em detrimento da população mestiça, que na opinião de Alpire é maioria no País.
Os protestos visam pressionar La Paz contra a decisão de centralizar o tributo proveniente da exploração de petróleo e gás, o IDH (Importo Direto sobre Hidrocarbonetos). Evo deliberou a criação de um fundo destinado aos idosos pobres com a verba acumulada através do IDH.
Outro ponto de discórdia entre La Paz e os departamentos da meia-lua trata do referendo proposto por Morales a fim de aprovar em dezembro uma nova Carta Constitucional boliviana. Os departamentos oposicionistas não reconhecem esta Carta, pois foi aprovada numa conturbada sessão, na cidade de Oruro, em dezembro de 2007. A oposição alega que foi impedida de entrar na sessão. Além disso, os governistas não conseguiram alcançar os dois terços necessários e aprovaram a nova Carta por maioria simples.
Os departamentos de oposição não aceitam o texto da nova Carta. Acusam um centralismo exagerado de La Paz, criticam que a gestão dos tributos provenientes da exploração de recursos naturais ficaria a cargo o governo central, e não dos departamentos. Além disso, embora a nova Carta incorpore as autonomias departamentais, estas estariam subjugadas às autonomias indígenas, com o que a oposição não concorda.
Terra Magazine
» Reduzir CO2 não impede aquecimento, diz meteorologista
» Ex-ministro: Temos condição de cumprir metas postas por Lula