
Atualizada às 11h07 Claudio Leal
Não há adornos no palco. Um canhão de luz realça o chansonnier e o microfone. Trajado de preto, dos sapatos aos suspensórios, Charles Aznavour sinaliza para os músicos. Gestos mínimos, duros, vibrantes. Ombros desalinhados, entrou no tablado sem salamaleques à platéia, como quem retoma um diálogo recente, anterior ao silêncio.
Na noite de 11 de setembro, os espectadores do Via Funchal, em São Paulo, ouvem "Le Temps" e não acreditam em uma despedida. Aos 84 anos, Aznavour apresenta a última turnê mundial. Imune a senilidades, sua voz atenua o receio da morte; o fole intacto faz com que ela oscile de melancólica a rascante, de morna a raivosa.
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Os franceses sabem dizer "adeus". Na década de 70, Charles Trenet arrastou semelhante despedida por quatro anos. O mestre da canção avisava: "Isso não passa de um até logo, meus camaradas!". Da raça dos nostálgicos precoces, Trenet seguiu a arrancar lágrimas com "Que reste-t-il de nos amours?". E ficara amor a granel: o cantor morreu somente em 2001, ainda assim contrariando a França.
Ninguém também deseja despedir-se de Charles Aznavour.
O "poeta-compositor" imprimiu um estilo a suas canções que não guarda paralelo com Georges Brassens, Jacques Brel e Léo Ferré, outros craques contemporâneos. Porque Aznavour acrescenta aos dotes de letrista e de melodista uma marca inimitável de cantor. Manipula saborosamente o tempo e as palavras, o operístico e o declamatório. Cerebral, sabe recriar as interpretações de velhas músicas. No show, depois de entoar as primeiras estrofes, devolve a "La Bohème" a dicção de poema, quase aos sussurros, enquanto agita um lenço branco.
O cineasta François Truffaut identificava "um potencial de violência contida" no olhar desse francês de origem armênia, síntese do emigrado e do artista. Nas canções de Aznavour, o amor não possui a tirania de Piaf, embora esteja impregnado das elegias ao passado de Trenet, com certa obsessão por seus 20 anos. Vê o amor de diversos ângulos - sempre reflexivo, com vocabulário à margem do cancioneiro tradicional, desconectado de impulsos românticos desordenados.
Diante do público, ressalta as influências do teatro popular, tão central em sua família, nos trejeitos de intérprete. Sustenta uma canção com a mão no bolso, risca palavras imaginárias no ar ("Ni les murs, ni les rues"), põe a mão timidamente no ombro, a simular uma dança agarrada. Abandona o paletó para cantar "Et pourtant".
Concentra sobretudo nas mãos o desenvolvimento dramático. E quando chega a "Il faut savoir", solidifica a dignidade que dedica a uma arte. Faz questão de ser acompanhado por um piano clássico. "Il faut savoir, coûte que coûte/ Garder toute sa dignité/ Et malgré ce qu'il nous en coûte/ S'en aller sans se retourner". Nos versos finais, explode a voz. Dá ao espetáculo a carga de experiência de cada um dos seus mais de 70 anos de carreira.
Com os olhos enquadrados por sobrancelhas angulosas e negras, Aznavour controla a tensão dos ouvintes. Na hora de "Sa jeunesse", lembra que esta foi sua primeira composição em que letra e música vieram juntas. Sempre repete: suas canções nascem primeiro sob a forma de um poema - porque se considera, antes de tudo, um escritor. Mas não minimizem a força do chansonnier.
Ao encerrar cada música, ele simula uma saída do palco, num ensaio involuntário para a ausência definitiva. Fechadas as cortinas, Charles Aznavour ressurge agarrado ao veludo, banhado de luz, cobrindo os pés. Num esboço de sorriso, apenas nos pede maturidade para honrar o último "até logo".
Terra Magazine
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Claudio Leal/Terra Magazine
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