Terra Magazine

 

Terça, 16 de setembro de 2008, 07h50 Atualizada às 21h29

Nosso Grito

Marina Silva
De Brasília (DF)

Quando, em 2007, fui à Noruega para participar da 5ª Conferência sobre Biodiversidade e tratar da doação daquele governo ao Fundo da Amazônia - que deve efetivar-se esta semana -, tive a oportunidade de visitar o Museu Nacional, onde conheci algumas obras do artista plástico Edvard Munch. Dentre elas, a que é considerada a mais importante do seu acervo: O Grito, de 1833, momento marcante do movimento expressionista, que acabou se transformando num ícone, até mesmo da cultura pop.

Minha visita, feita juntamente com o embaixador brasileiro, Sérgio Eduardo Moreira Lima, foi marcada pela comovente disposição do diretor do museu, um homem de mais de 80 anos, com extraordinária juventude intelectual e capacidade de reportar a criatividade genial presente nas telas.

Enquanto nos embevecíamos com a narrativa empolgante do nosso anfitrião, fui tomada por uma sensação de profunda gratidão pela existência de pessoas que, como aquele gentil e sábio senhor, dedicam toda uma vida a enxergar, ouvir,compreender e compartilhar aquilo que a maioria das pessoas não compreende e, às vezes, sequer percebe.

O diretor recitou parte das linhas que Munch escreveu no seu diário, onde registrou o estado de espírito em que se encontrava quando inscreveu seu próprio grito na tela, não em palavras, mas em formas e expressões pictóricas. Segundo os registros do próprio artista, ao pintar aquela tela sentiu o grito do infinito da natureza, o que fez aflorar em mim um turbilhão de pensamentos que se misturavam com emoções paradoxais, de elevação e medo.

A que natureza gritante se referia Munch? A que em mim gritava através de sua arte era uma superposição de todas as dualidades que nos ajudam a compor a difícil trajetória do sentido: a humana e a natural; a do desejo e a do real, em infinitas díades opositivas entre si.

E tal como na obra de Munch, essas imagens aleatórias não estavam congeladas numa tela, mas em lembranças vívidas de árvores caindo, crianças chorando e sorrindo, sementes brotando. E em meio a tudo isso, passou por mim a imagem das duas torres gêmeas de uma babel que, como a do texto bíblico, caiu pela ausência de compreensão mútua entre povos, pela falta de aceitação das diferenças e dos sentidos.

Há sete anos, o dia 11 de setembro passou a marcar o que em alguns momentos podemos imaginar como o limite da voracidade do horror. O ocorrido com as duas torres novaiorquinas, que em sua arquitetura lembravam os dois algarismos dessa data, não ficou restrito à estupefação dos Estados Unidos diante daquele ato. Na sua radicalidade, no seu ódio e na sua dor mostrou que a panela dos gritos desesperados e sem rumo do mundo cozinha, ininterruptamente, a poção que alimenta o que estudiosos já chamaram de "a banalidade do mal absoluto".

O episódio como que sinaliza para todos nós que a causa para o adoecimento político, econômico e moral a que estamos submetidos, continua sendo a ausência de sentido, de significados e significação, sem os quais somos subtraídos de nossa capacidade de também nos percebermos e sentirmo-nos na figura do outro.

Há outros "11 de setembros" menos visíveis, mas com capacidade igual ou maior de provocar a dor, a humilhação, a injusta imolação de inocentes pela perda do sentimento de unicidade indivisível da humanidade. Não se mata sem também morrer; não se destrói sem que se seja parte dos destroços.

Munch foi, definitivamente, um artista genial pela qualidade de sua pintura e por nos colocar, de forma tão definitiva, diante de nossos medos mais profundos. Como se nos alertasse para, frente a eles, não ficarmos paralisados, impedidos de ir à luta para que a boa energia que existe nos corações, mesmo nos momentos difíceis, nunca desista de construir uma humanidade mais justa e acolhedora.


Marina Silva é professora secundária de História, senadora pelo PT do Acre e ex-ministra do Meio Ambiente.

Fale com Marina Silva: marina.silva08@terra.com.br

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