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Quarta, 17 de setembro de 2008, 07h58 Atualizada às 15h23

Pobres guerreiros

Felipe Corazza Barreto
De Pequim, China

Desde que os guerreiros de Xi'an foram descobertos por um grupo de agricultores tentando cavar um poço por ali, um dos mais incríveis sítios arqueológicos do mundo foi aberto. Em 1972, os camponeses que moravam nas cercanias da capital da província de Shaanxi não sabiam o que faziam. Perdoai-os, oh, Mao, pois cavaram aquele poço.

Hoje, a área é uma espécie de Disneylândia oriental. Vendedores de badulaques, "guias turísticos" de ocasião que, por 15 yuans, repetirão para você - em inglês - tudo o que está escrito nas placas indicativas - em inglês - e por aí vai. Os camponeses que descobriram a jóia histórica estão em algum lugar. Do passado.

Caixotes de concreto foram construídos sobre as descobertas e a visitação custa 90 yuanes - coisa de R$ 20 e uns quebrados. Dentro dos túmulos de cimento, passarelas, muita gente e - de novo - os falsos guias.

Na entrada de cada setor, uma placa pede encarecidamente aos turistas: "Não usem flash". Inútil. Chineses, alemães, norte-americanos e outros visitantes lascam a lâmpada sobre as estátuas. Como resultado, irritação para quem não usa o flash e a perda total das cores que cobriam as armaduras de alguns integrantes do exército de terracota.

Caminhando sobre as passarelas que cercam os fossos do exército do imperador Qin, a sensação que se tem é a de que, se o homem imaginasse esse circo todo, imediatamente suspenderia a fabricação do exército e pediria somente uma piscina de ácido sulfúrico para proteger sua tumba.

Do lado de fora, um outro exército de Xi'an segue tentando empurrar souvenires em uma língua que até parece inglês. A coleção de réplicas dos guerreiros começa em 80 yuanes. Cai para 50. Cai para 30. Cai para 25. "Assim eu não pago o preço do fornecedor". Cai para 15. Cai para 10. Sei lá quanto esse fornecedor cobra, mas levo a caixinha por 10.

A relíquia é maravilhosa. O que se fez com ela, uma lástima.


Felipe Corazza Barreto é jornalista, mora em Beijing e ainda está tentando entender aquilo ali.

Fale com Felipe Corazza Barreto: felipecbs08@terra.com.br

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