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Quarta, 17 de setembro de 2008, 07h56

O circo

Amilcar Bettega
De Paris

Por que o circo é triste? Teoricamente seria um lugar de alegria, de descontração, de espetáculo festivo. Mas na realidade o circo é sempre muito triste. Há uma pátina de melancolia que parece recobrir tudo o que faz parte do circo. A partir do momento em que cruzamos a cerca metálica que delimita o seu espaço físico, já sentimos a presença taciturna desse sentimento de tristeza. Ele está por tudo, toma conta de tudo, desde as arquibancadas de madeira ou cadeiras de plástico ou ferro até a lona quase sempre colorida, mas cujas cores nunca brilham; da serragem à volta do picadeiro às cordas, trapézios e demais acessórios que pendem do alto como lágrimas compridas que prometem números arriscados ao final dos quais o acrobata virá até nós com seu sorriso chapado para recolher os aplausos coniventes com a sua tristeza. Domadores de feras, equilibristas, trapezistas, todos parecem tocados por certa morbidez e à beira de tragédias pessoais. Os palhaços são ainda os mais tristes, é sempre possível perceber por trás da maquiagem que desenha um enorme sorriso em suas caras pontuadas pelo indefectível nariz redondo e vermelho, uma expressão cansada, derrotada por um sentimento que contrasta vivamente com as peripécias falsamente engraçadas com as quais eles se esforçam para despertar o riso da platéia. Por que, diferentemente do teatro, por exemplo, a proximidade e a presença física dos que fazem o espetáculo transmitem essa tristeza?

Não sei de onde vem isso. E não falo aqui apenas dos circos pobres, desses que percorrem buracos perdidos no mapa, com suas lonas esfarrapadas e seus artistas que, já maquiados, dão conta da bilheteria e da recepção ao público e em seguida correm ao camarim improvisado atrás de uma lona estendida, para trocar de roupa e subir ao picadeiro enquanto as pessoas se acomodam nas arquibancadas. Também os grandes circos, luxuosos, desses que vez ou outra vemos na televisão com suas inúmeras atrações internacionais, verdadeiras fábricas de sonhos, mesmo nesses o sentimento de uma profunda tristeza está presente.

Não sei se isso é percebido por todo mundo ou, se no meu caso, está ligado a alguma recordação dos circos que passavam pela minha cidade quando eu era criança, lá no interior do Rio Grande do Sul.

Não sei tampouco se todas as crianças sentem assim, pois muitas delas parecem se divertir de verdade durante um espetáculo circense. Eu também me divertia naquela época. E a perspectiva de uma ida ao circo, quando assistia ao desfile das atrações em comboio durante a sua chegada à cidade, era vivida sob uma enorme excitação. E a noite do espetáculo, então, os números que se sucediam, os artistas, aqueles rostos vistos de tão perto, tudo aquilo trazia uma grande ebulição à minha vida rotineira e bastante previsível entre a escola, jogos de futebol e bolita e corridas de bicicleta. Havia também uma certa atração pelo estrangeiro, que aqueles artistas saltimbancos encarnavam tão bem. Em seus traços, em suas falas e maneiras eles traziam a experiência da vida em outros, em muitos outros lugares distantes - o que para uma criança com sede de mundo significava muita coisa.

Portanto, é óbvio que a passagem do circo pela cidade me trazia alegria. Mas ao mesmo tempo eu nunca deixei de perceber com bastante nitidez que por trás do brilho da purpurina, do sorriso, dos braços abertos ao fim da apresentação existia, de maneira quase palpável, esse sentimento meio difuso de algo que cortava a alegria, de qualquer coisa que escapava por baixo, uma coisa pungente e dolorida.

Lembrei dessas sensações quando, há algum tempo, fui levar a minha filha a um pequeno circo instalado num parque do 20° arrondissement de Paris, perto de Nation. Pequeno mesmo, uma empresa familiar, eu diria, pois o chefe da família faz quase todos os números do espetáculo, desde o acrobata até o palhaço, sua esposa recolhe os ingressos à entrada e apresenta os números, o filho de nove anos, vestido de cowboy, faz algumas evoluções com um laço e demonstra habilidade como malabarista, e uma menina de uns doze, com uma malha de ballet a vestir um corpo indeciso entre a infância e a adolescência, equilibra-se sofrivelmente sobre uma corda de aço com uma sombrinha minúscula na mão direita. São todos os artistas do circo, além de uns poucos animais amestrados para fazer alguma pirueta que divirta as crianças.

O público, aliás, era formado quase que só por crianças acompanhadas pelos pais ou avós, e eles se divertiam claramente, não havia nenhuma dúvida. Mas me pergunto se eles não percebiam também, no fundo, a melancolia daquela gente se esforçando para arrancar um sorriso e o aplauso de cada um deles.

Ao final do espetáculo conversei com o casal - os gerentes, os donos, enfim, o circo em pessoa. Disse-lhes mais ou menos tudo isso que estou dizendo agora. E disse-lhes ainda outras coisas, algo que me ocorreu enquanto assistia ao espetáculo. Eles foram muito receptivos. Hoje faz já dois meses que estou no circo. Deram-me o número do palhaço Batata, dizendo que seria mais simples no início, já que ainda não aprendi a fazer nenhum malabarismo ou acrobacia.

Tenho me esforçado, normalmente as crianças gostam. Ontem minha filha veio assistir ao espetáculo com sua mãe. Em determinado momento ela me olhou fixamente, muito séria, e não sei se reconheceu meu rosto por trás da maquiagem. Mas ao final do número, quando a menina equilibrista puxa a cadeira e eu caio de bunda no chão, ela deu uma grande gargalhada.

Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005). Vive em Paris.

Fale com Amilcar Bettega: amilcar.bettega@terra.com.br

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