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Quarta, 17 de setembro de 2008, 15h55 Atualizada às 17h38

Jobim pediu afastamento de cúpula da Abin

Wilson Dias/Agência Brasil
Para o ministro da Defesa, Nelson Jobim, o afastamento da cúpula da Abin era uma questão de responsabilidade política
Para o ministro da Defesa, Nelson Jobim, o afastamento da cúpula da Abin era uma questão de "responsabilidade política"

Claudio Leal

No depoimento da tarde desta quarta-feira, 17, na CPI dos Grampos, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, admitiu que apresentou ao presidente da República a solução de afastar a diretoria da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Para Jobim, "o que estava em jogo era a responsabilidade política e não criminal" do grampo contra o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes. "A solução era afastar a diretoria da Abin", disse o ministro, alegando pressões do STF por providências imediatas.

Segundo seu relato à CPI, na Câmara dos Deputados, Jobim pediu a cabeça de Paulo Lacerda - diretor-geral afastado da Abin - antes mesmo de ter certeza de que os três equipamentos aquiridos via Comissão de Compras do Exército realizavam escutas telefônicas e não somente varreduras.

Momentos antes, o ministro confessara, nas linhas e entrelinhas, uma trombada hierárquica: "Minha posição de que deveríamos afastar a cúpula da Abin não decorreu desse fato, mas de que agentes teriam participado" da Operação Satiagraha, da Polícia Federal. Mas a Abin está submetida ao ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Jorge Félix. Na interpretação de Jobim, "não compete" à agência fazer investigação de crime comum.

Após questionamento do deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), ele não defendeu, porém, a subordinação da Abin ao ministério da Defesa: deve ficar restrito "a matéria militar".

Há conflitos entre as versões de Jobim. Depois de ter garantido que o aparelho comprado pela Abin realizava grampos, deu dois passos atrás na Câmara: "Se o equipamento tiver sido comprado exatamente como ele é vendido no site da empresa, ele é capaz de fazer escutas".

Uma caixa de charutos

Além de análises jurídicas, houve atmosfera para charutos.

O ministro da Defesa confirmou um encontro recente com o ex-deputado cassado José Dirceu. Jobim garante que a Operação Satiagraha não esteve em pauta. "(Dirceu) foi levar uma caixa de charuto".

Ares de enfado na tentativa de pergunta do deputado Carlos William (PTC-MG). Num momento de tensão, o político mineiro ameaçou "fazer uma pergunta que não sei se vai ser confortável para Vossa Excelência realizá-la". Do que foi possível entender do vazado pelo deputado, Jobim deveria, por meio do microfone do parlamentar, fazer uma pergunta para si mesmo.

Engano. Tratava-se de um leve tropeço. William queria saber a opinião de Jobim sobre a "orgia de escutas e o excesso de prisões (sic) no Brasil". Não ficou claro quem, da população carcerária, é "um excesso". Para responder, o peemedebista gaúcho, hoje no ministério da Defesa, mudou até a posição corporal mantida desde o início da oitiva. Desgrudou-se da cadeira, tirou a mão do queixo e, com algum espanto, puxou para si o microfone.

 

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