
Atualizada às 18h51 Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Hellboy 2: O Exército Dourado (Hellboy 2: The Golden Army). EUA/Alemanha, 120 minutos. Univesal. Dirigido por Gillermo del Toro. Escrito por Gillermo del Toro & Mike Mignola. Produzido por Lawrence Gordon, Lloyd Levin, Mike Richardson & Joe Roth. Com Ron Perlman, Selma Blair, Doug Jones, James Dodd, Jeffrey Tambor, John Alexander, Luke Goss, Anna Walton, John Hurt e Montse Ribé.
Ver Hellboy 2 foi uma experiência rica e frustrante. O segundo filme baseado na criação do artista Mike Mignola, para os quadrinhos, é uma experiência visual impressionante, e, mais uma vez, uma reflexão sobre a psicologia e as representações míticas dos contos de fadas. "Mais uma vez" porque o filme anterior do mexicano Del Toro, O Labirinto do Fauno (2006), teve essa mesma tônica e um estilo de desenhos de produção bastante semelhante, enfatizando o monstruoso, o híbrido e uma estética decadente.
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Hellboy 2 tem um preâmbulo com o personagem-título, um demônio invocado pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial e "liberado" pelos militares americanos, lendo um "conto de fadas" dado a ele por seu pai adotivo, o Prof. Trevor Bruttenholm (John Hurt), um pesquisador do paranormal. Hellboy é então um "menino" (interpretado pelo espanhol Montse Ribé) e Bruttenholm lhe diz que talvez ele venha a conhecer os personagens daquele conto de fadas, que trata do contrato entre homens e elfos no passado mítico da Terra, e de um exército de autômatos mágicos criados para o rei elfo, que mais tarde, chocado com a terrível destruição provocada por esses robôs élficos, os esconde num local secreto e divide a sua coroa (que comanda os robôs) em três partes. Se isso soa meio a lá O Senhor dos Anéis, certamente é proposital - tanto em termos comerciais, quanto em termos de uma homenagem a certos termos fundadores da fantasia no século 20, criados por J. R. R. Tolkien, o autor de O Senhor dos Anéis.
A narrativa é retomada no presente, com o Príncipe Elfo, Nuada, o "Lança de Prata" (interpretado pelo cantor inglês Luke Gloss), reivindicando o Exército Dourado para retomar o controle do mundo, já que a humanidade, ao devastar as florestas a que os elfos haviam se recolhido, não cumpriu a sua parte no acordo. Nuada, para realizar sua ambição, luta contra o próprio pai, Balor (Roy Dotrice), e sua irmã gêmea, Nuala (Anna Walton). Uma outra parte da coroa está sendo leiloada em Nova York, e, numa cena que faz lembrar algo do filme de 1994, O Sombra (The Shadow), Nuada a recupera e acaba atraindo a atenção de Hellboy e o Bureau for Paranormal Research and Defense, a equipe secreta do governo, da qual Hellboy faz parte. O BPRD está agora sob nova direção, comandado pelo Prof. Johann Krauss (interpretado por dois atores, James Dodd & John Alexander, e um dublador, Seth MacFarlane), uma entidade ectoplásmica preservada em um traje pressurizado. Hellboy, já estressado com o seu relacionamento turbulento com a bela e flamejante Liz Sherman (Selma Blair), logo antipatiza com Krauss e seu jeito mandão e germânico (Hellboy não gosta muito de alemães).
Muita pancadaria, caos urbano em Nova York e no seu Mercado Troll (subterrâneo e mágico), situações de humor - a mais divertida sendo aquela em que Hellboy tenta sair no braço com Krauss, o que é o mesmo que entrar no ringue com um poltergeist.
Não obstante, este é um filme mal-sucedido. A razão está na diferença entre os sentimentos que o mundo mágico passa, e aqueles que a equipe de Hellboy passa. Nuada é um vilão trágico, que busca realizar aquilo que acredita ser seu destino, mesmo que tenha que passar por cima do pai, da irmã e do mundo mágico que afirma defender. Ao mesmo tempo, esse mundo mágico ganha vida no filme por uma excepcional pré-produção e direção de arte. Por comparação, o que Hellboy e sua turma têm a oferecer é pobre e destituído de força dramática, presos à sua caracterização de personagens de história em quadrinhos - embora a história tente humanizá-los com sub-enredos que envolvem Liz ficando grávida de Hellboyt (ela foi por cima) e Abe Sapiens (Doug Jones) se apaixonando pela princesa elfa Nuala. Esses relacionamentos não parecem consistentes e servem apenas para gerar situações cômicas ou mover o enredo.
A tentativa de humanização desses personagens de aparência monstruosa ou habilidades bizarras também esbarra no fato de a humanidade ter pouca função no filme. São os "monstros", por assim dizer, que estão lá para nos defender das intenções de outros monstros, e o que a humanidade pensa do contrato rompido com os elfos nunca é trazido à baila. De modo similar, os assistentes humanos do BPRD morrem a torto e a direito, sem que Hellboy, Liz ou Abe se mexam para salvá-los - são puramente descartáveis.
O mundo mágico das fadas e elfos, porém, soa mais humano apesar da sua monstruosidade aparente, porque evoca de maneira tão forte os sonhos e os mitos da humanidade. A mensagem de que estamos destruindo nossa fonte mítica, nos afastando dos laços mais profundos com a imaginação e com a magia - em troca de shopping centers e estacionamentos - segundo Nuada, se perde em meio à correria e as situações superficiais da BPRD.
Enfim, a outra coisa que me incomoda no filme é que ele faz um uso excepcional, brilhante da arte de artistas de FC e fantasia como Wayne Douglas Barlowe (que aparece nos créditos) e Brom (especialmente nas figuras dos elfos), sem dar a eles o crédito que lhes seria devido. Porque essa concepção artística não apenas responde pelo melhor do filme, como têm vida própria e encanta profundamente o espectador. O seu aproveitamento é quase que direto, da arte já existente desses artistas - as imagens infernais do mundo das fadas parece ter saído quase que diretamente de livros como The Alien Life of Wayne Barlowe (1995) e de Barlowe's Guide do Fantasy (1996). Del Toro e o seu diretor de desenhos de produção, Stephen Scott, tiveram a sensibilidade de não mexer muito no que já é perfeito, dando liberdade aos artistas, e por isso mesmo deveriam ter destacado a atuação desses artistas visionários, nos créditos.
A página do artista Wayne Douglas Barlowe, na Internet:
http://www.waynebarlowe.com/
A página do artista Brom, na Internet:
http://www.bromart.com/index.html
Terra Magazine