Atualizada às 18h25 Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
História em Quadrinhos: Predadores I (Rapaces Tome I), Jean Dufaux & Enrico Marini. São Paulo: Devir Livraria, junho de 2008, 64 páginas. Capa de Enrico Marini.
A Devir já anuncia o quarto álbum desta série européia de quadrinhos, que misturam a atmosfera policial noir (uma antiga preferência francesa) e horror.
Vicky Lenore, uma esguia e ruiva detetive de polícia, e seu parceiro, o detetive ítalo-americano Benito Spiaggi, investigam uma série de assassinatos numa cidade que, embora não identificada, é claramente Nova York. As vítimas aparecem exangues, com uma jóia em forma de alfinete, perfurando um quisto que todas elas têm atrás da orelha direita.
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Numa linha paralela, um misterioso casal que adora se vestir com capas, botas e corpetes de couro vermelho, se mostra videntemente o responsável pelas mortes. Esse casal ataca figuras das altas rodas da cidade, anunciando a eles que o seu reinado está no fim. Eles mesmos e suas vítimas possuem uma natureza sobrenatural, não bem explicitada, apenas sugerida: mesmo sofrendo ferimentos fatais, são capazes de voltar a vida, e aparentemente têm vidas muito longas (um momento da narrativa sugere que o mestre Mosmad Serguilev viveu em algum momento passado, no Oriente).
Embora curta e com diálogos esparsos, a história é intrincada e movimentada, expressando situações diferenciadas que, imagina-se, serão retomadas nos e desenvolvidas episódios futuros. Uma dessas sugestões implica que Lenore pode ou não ser uma das criaturas sobrenaturais em conflito umas com as outras.
Dufaux, o roteirista, sabe como fazer cortes cinematográficos e desdobrar o enredo por meio de cenas de admirável economia. Por sua vez, Marini, o artista, por meio da perspectiva, iluminação e colorido, dá uma qualidade muito tridimensional à sua arte. Seu olhar para a arquitetura, as roupas e os objetos é, embora também econômico, mais rico do que a da maioria dos artistas americanos, mesmo quando enfocam o seu próprio terreno, como é a cidade de Nova York (este álbum foi publicado originalmente em 1998, e as Torres Gêmeas aparecem no primeiro quadrinhos). A organização da narrativa em cenas é magistralmente sublinhada por Marini, por meio de atmosferas tonais que também sublinham as transições. De cores frias para quentes, de quentes para frias, às vezes em planos num mesmo quadrinho, conduzindo a leitura de uma situação a outra. Os personagens de Marini costumam ser elegantes, as mulheres com corpos e rostos de supermodels européias. Marini é o criador da série de ficção científica Gipsy, vista também nas páginas da revista Heavy Metal.
Os elementos sobrenaturais apontam para o tema do vampiro e da sociedade de vampiros, tão em voga atualmente, mas se isso se confirmar nos próximos álbuns, significa que Dufaux & Marini estão criando a sua própria mitologia. Este primeiro é apenas uma introdução, que pega o leitor de primeira, a um romance gráfico que promete ser altamente interessante. É como ler uma revista em quadrinhos de 64 páginas - uma que leva dois anos para ser produzida. São cinco álbuns que, pelo andar da carruagem, estarão disponíveis ao leitor brasileiro ainda em 2008. Altamente recomendado.