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Segunda, 22 de setembro de 2008, 07h58 Atualizada às 01h37

Machado de Assis: um século depois

Milton Hatoum
De São Paulo

Uma obra literária que resiste ao tempo é um clássico. E é certamente o caso da prosa de Machado de Assis, sobretudo depois de 1880, quando ele publicou Memórias póstumas de Brás Cubas. Os outros quatro romances e dezenas de contos que publicou até 1908 são antológicos.

Poucos autores brasileiros foram tão estudados, analisados e lidos como o Bruxo do Cosme Velho. Um dos raros erros de Mário de Andrade foi criticar com aspereza a prosa machadiana, talvez por esta obra não se encaixar no projeto modernista da Semana de 22. De fato, há uma distância considerável - no tom, no estilo, nos temas, na maneira de representar e problematizar o Brasil - entre Macunaíma e Memórias póstumas de Brás Cubas.

Machado não se enquadrava no projeto estético de Mário, mas isso não apaga nem atenua a importância desses dois romances seminais da nossa literatura. A extraordinária produção analítica sobre os romances, contos, crônicas e teatro de Machado, além dos livros sobre a vida e a obra do autor, é uma prova de que a leitura crítica da obra machadiana está longe de ser esgotada. Mas há uma outra leitura, anônima e não menos poderosa que faz de Machado um clássico de todos os tempos. Refiro-me aos leitores que gostam de literatura e que preferem ler Machado sem a mediação de textos críticos. Digo isso porque a leitura crítica, sem a adesão ou amparo do leitor comum, pode ser auto-referente. Ou seja, pode circular apenas nos departamentos acadêmicos, sem encontrar eco e respaldo na comunidade de leitores apaixonadas pela literatura.

Hoje em dia, Machado é lido por jovens de todos os quadrantes e classes sociais, é uma espécie de autor nacional que conquistou leitores com grau variado de sofisticação e repertório cultural. Eu diria que conquistou bons leitores, pois quem lê com atenção e fervor um romance ou conto machadiano talvez não leia, por exemplo, um livro de auto-ajuda.

Como ocorre com todos os clássicos, a obra de Machado é um emplastro poderoso para desintoxicar o leitor viciado em palavras fáceis e fúteis, em receitas de bem viver, em fórmulas de sucesso, em relatos sobre um cachorro amado, ou essa ou aquela celebridade. Todas as efemérides em torno do centenário da morte de Machado são válidas. E se você, leitor, ainda não leu contos como O espelho, Teoria do medalão, A causa secreta, Missa do galo, Pai contra mãe, Um homem célebre, Singular ocorrência e tantos outros, é um homem ou mulher de sorte.

Bem-aventurados os que ainda não conhecem o Machado contista, pois nas narrativas breves do Bruxo vão encontrar os temas dos grandes romances: a loucura, o adultério, o jogo de sedução e poder, os carreiristas e alpinistas sociais, e a combinação de falta de escrúpulos e crueldade nas atitudes de determinada elite brasileira do século XIX. Um século depois da morte de Machado, alguns desses temas perduram, porque fazem parte constitutiva da natureza humana. Quanto à crueldade de uma elite que cultiva privilégios... Até nisso Machado acertou em cheio, e com um pessimismo e uma ironia que nos deixam sem fôlego.

Milton Hatoum é escritor, autor dos romances Órfãos do Eldorado, Dois Irmãos, Relato de um Certo Oriente e Cinzas do Norte.

Fale com Milton Hatoum: milton.hatoum@terra.com.br

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