
Atualizada às 07h56 Carlos Drummond
De São Paulo
A injeção maciça de dólares no sistema financeiro americano acalmou Wall Street, mas não trouxe a certeza da estabilidade, em que pese as altas das bolsas que se seguem aos aportes de recursos. A socialização crescente das perdas privadas em Wall Street a custa do bolso do contribuinte americano e a crescente incerteza sobre o futuro da economia americana e mundial ampliou a discussão da necessidade de uma nova autoridade central para supervisão e coerção das instituições financeiras dos Estados Unidos, em substituição ao FED.
"Estão oferecendo doces aos vilões e apenas sofrimento e prejuízos às vítimas", protestou o jornalista William Greider, autor do livro Os segredos do templo: como Federal Reserve arruinou o país. A ajuda do Tesouro aliviará os principais bancos e empresas de investimento dos seus gigantescos ativos ruinosos e o público será obrigado a engolir essas perdas. Até mesmo organizações conservadoras como o Institutional Risk Analytics acham que a recepção festiva dos congressistas democratas ao plano do Tesouro dos Estados Unidos "cheira a mais um destestável congraçamento entre Washington e os bancos de investimento".
O problema é que as quebras em cadeia socorridas pelo Tesouro são obra do próprio FED, que permitiu durante anos - em especial, sob o comando de Alan Greenspan - o afrouxamento dos controles já rotos do sistema financeiro e o aumento desenfreado do risco. Nada surpreendente, uma vez que o FED é uma instituição possuída e operada diretamente pelo setor bancário privado. Em seu favor pode ser dito que os bancos centrais geridos por governos são atrelados à banca privada, o que é verdadeiro. Mas esse argumento amplia, em vez de estreitar, o espectro da discussão sobre a necessidade de uma revisão profunda do controle das instituições financeiras no mundo.
De Henry Paulson, secretário do Tesouro do governo do candidato MacCain, ao candidato Barack Obama, clama-se pela extensão dos controles do FED ao território de faroeste dos bancos de investimento, fundos de hedge e derivativos. Esse desiderato é brandido a cada crise, mas nunca emplaca. O motivo é simples: essa esfera de operações financeiras sem limite de riscos e de prejuízos é a de maior interesse das instituições que controlam o poder normativo do FED, porque, quando elas não quebram, ganham quantias indecentes de dinheiro.
A ajuda governamental com dinheiro dos contribuintes, à qual os bancos privados recorrem sempre que se estrepam, é justificável para evitar uma crise de grandes proporções que estouraria, como sempre, nas costas dos segmentos mais frágeis da população. É preciso levar em conta, porém, que a continuar a atual frouxidão de controle sobre as instituições, terá razão quem critica o fato de o FED ter deixado de ser, na presente crise, um emprestador de última instância - seu papel tradicional - para se tornar um hedge fund de última instância.
Entre as propostas de substituição do FED, aparece com freqüência a de submeter o sistema financeiro ao controle do Tesouro, por meio do qual o Congresso monitoraria os bancos privados. Entretanto, nada além de lidar com as instituições financeiras parece estar no horizonte de quem detem o poder ou o tem na mira. A principal questão escamoteada, como bem lembrou Greider, é que os devedores, que não escaparão de humilhações e perdas, são merecedores de proteção igual àquela que o governo americano tem dispensado às instituições financeiras.
Algumas das propostas de substituição do FED apontam para a necessidade de uma agência financeira de atuação emergencial que daria crédito para os negócios, os bancos solventes e as operações de compra e venda no mercado de consumo. A inspiração do New Deal, parca ou inexistente nas falas e nas idéias dos atuais candidatos a presidência, bafeja algumas dessas propostas, escudada na reputação de Franklin Roosevelt, inferior apenas à de Lincoln, nos Estados Unidos.
Fale com Carlos Drummond: carlos_drummond@terra.com.br
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