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Segunda, 22 de setembro de 2008, 13h50 Atualizada às 15h21

Meligeni lança livro "verdadeiro" sobre a carreira

Marcelo Ruschel/Reprodução
Livro traz histórias dos 14 anos de carreira do tenista Fernando Meligeni, o popular Fininho
Livro traz histórias dos 14 anos de carreira do tenista Fernando Meligeni, o popular "Fininho"

Thais Bilenky

À certa altura, sentindo a firmeza que instantes depois se confirmaria, Meligeni berra na quadra: "Aqui tem, caralho!". Salvou seu match point, venceu a partida e ganhou medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo, em outubro de 2003. Assim ele se despediu das quadras, com 14 anos de carreira e 32 de vida.

O berro, devidamente editado, rendeu o nome do livro Aqui tem!, que Meligeni lança nesta terça-feira, 23, na Saraiva MegaStore Pátio Paulista, em São Paulo. Escrito com o jornalista André Kfouri, que censurou a toque de amigo a versão integral do título, o livro é um relato das histórias da carreira de Fernando Meligeni.

As regras do tênis são claras. É expressamente proibido o uso de linguajar vulgar em quadra. Meligeni, que foi punido diversas vezes, não o foi em Santo Domingo. O juiz entendeu que não havia intenção de ofensa em seus dizeres.

Não foi assim em Portugal. Em 1999, quartas de final do ATP (Associação dos Tenistas Profissionais) Tour de Estoril, o atleta, em um momento de fúria, isolou uma bolinha fora da quadra. A mesma bolinha acertou um espectador e o tenista foi obrigado a deixar a quadra - a única vez em sua carreira -, mesmo não tendo tido intenção de agressão. Segundo Meligeni:

- Machucou nada! O portuga tomou uma bolada no queixo! (Risos) Voou óculos e tudo, mas o cara era hiper meu fã, tinha ido me ver jogar, não machucou. Na hora, ele falou "não, relaxa", mas a regra me fez sair. Tomei uma p... de uma multa.

Casos assim são comuns. "A gente é filho de Deus (risos). Isso que eu acho legal do livro. Em um dos capítulos, 'Eu nunca fui santo', eu conto vários episódios, discussões, bate-bocas na quadra. Tento mostrar ao público que eu sou também explosivo, que perco a cabeça, que falo besteira, que me arrependo...", conta.

Amigos há anos, Meligeni e Kfouri regularmente almoçam juntos e os episódios vêm à tona. Chamado com freqüência para palestrar, o tenista vinha escrevendo sobre sua carreira e com Kfouri organizou o material para transformá-lo em livro. "O legal é que, hoje, eu tenho história para contar", satisfaz-se.


Foto: Marcelo Ruschel

- O nome tem a ver também com o conteúdo do livro: aqui tem histórias, aqui tem vitórias, aqui tem derrotas, aqui tem bastidores - meio fazendo alusão ao que tem no livro. E o ponto alto é o "aqui tem!" - no momento em que a pessoa entrar nas histórias, vai entender ainda mais.

André Kfouri é jornalista esportivo e desde que se iniciou na profissão, em 1993, cobriu todas as Olimpíadas: Atlanta, Sidney, Atenas e Pequim. Ainda que goste muito de tênis, ele também cobre outras modalidades.

Kfouri estava lá e viu quando Meligeni perdeu a disputa do bronze nas Olimpíadas de Atlanta-1996. Episódio que o atleta contextualiza:

- Não houve vontade política para que eu fosse (às Olimpíadas de Atlanta). Mas eu não posso contar, você vai ver no livro, são tópicos fortíssimos, legais. Não fizeram nenhuma força para eu ir. Se você pensar um pouquinho, vai entender muito bem quem.

Garoto-propaganda de três marcas, empresário de si mesmo e blogueiro, Fininho (como também é conhecido) segue jogando, em campeonatos "sêniors, veteranos". A esta altura, o jogador sente-se mais apto a criticar a política esportiva e a cultura brasileira em relação aos esportes:

- O atleta no Brasil é considerado bom se for campeão. Os patrocinadores, a grande maioria, patrocina se o cara é medalha de ouro. Isso acaba acarretando uma pressão excessiva nos ombros. O que não quer dizer que o cara amarelou, muito pelo contrário.

Os jogos olímpicos de Pequim, segundo o tenista, refletem claramente a falta de estrutura que deveria sustentar a carreira dos atletas. "Que algum atleta deve ter tido este problema, não conseguiu lidar com a pressão, provavelmente. Agora, você generalizar porque a gente não ganhou o número de medalhas que a gente imaginava que ia ganhar... A culpa, se o atleta não ganhar, é da (falta de) estrutura", critica.

Fininho conquistou três títulos em torneios da ATP - Bastad-1995, Pinehurst-96 e Praga-98 - e sete títulos em duplas. Em 1998, foi semifinalista de Roland Garros, classificando-se entre os 30 melhores tenistas do mundo. Mas nunca contou com apoio do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) ou da CBT (Confederação Brasileira de Tênis).

"A minha sorte é que eu tive uma família que me deu estrutura. Mas também o tênis é um esporte totalmente atípico. A gente é profissional, uma das poucas modalidades em que atletas ganham para participar de campeonato. Outras modalidades não ganham nada de prêmio. O COB tem que ajudar muito menos o tênis que outro esporte", entende.

A família dele é argentina. Meligeni nasceu em Buenos Aires e se mudou para o Brasil aos 4 anos de idade. Por muito tempo ele era o tenista argentino que se naturalizou brasileiro. O que nunca gostou.

- Hoje dou risada, porque alguém que fale uma coisa dessas (sobre sua nacionalidade) ou quer cutucar ou não me conhece. Porque um cara que teve todas as oportunidades do mundo para ser argentino, mas representou o país durante dez anos na Copa Davis, jogou Olimpíada, ganhou Pan-Americano pelo Brasil e continua dentro do Brasil depois de ter jogado, casou com uma brasileira, vai ter filhos brasileiros... Hoje em dia eu dou risada.

O livro, ele insiste, "não é crítico. É verdadeiro". E não sem razão é o jeito que encontrou para continuar no esporte.

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