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Terça, 23 de setembro de 2008, 07h07 Atualizada às 14h57

Delegar não é abrir mão

Marina Silva
De Brasília (DF)

Em tempo de eleições, sempre se reacendem, com justificados motivos, as críticas da população às deficiências do processo ou a suas aberrações, como tentativas de compra de votos, constrangimentos ao eleitor, violência e outras deformações que atentam contra a natureza intrinsecamente democrática do voto. Ele é o passo inicial do modelo de representatividade que, apesar de suas deficiências, ainda é o que produz as sociedades mais abertas e capazes de lidar com as diferenças.

O ato de votar é sempre uma boa oportunidade de agir como sujeito e se colocar como parte dos esforços para negar, ressignificar ou até mesmo criar novos caminhos na busca de soluções que possam melhorar a qualidade de vida de todos. Onde o sentido do cuidar de uma coletividade traduza a disposição - do votante e do votado - de fazer com que as soluções sejam sempre fruto do compromisso, por parte de cada um, de não abrir mão da defesa de seus próprios direitos e interesses, bem como de dar sustentação à defesa dos direitos e interesses dos demais.

Tenho participado deste período eleitoral em municípios de vários estados, expondo e debatendo questões políticas e ambientais. Isso tem me dado a oportunidade de observar muito e refletir sobre as mudanças de que nossa política institucional precisa para que o voto alcance a plenitude de seu papel na efetivação da cidadania, como alicerce do Estado e via de constituição e legitimação de poder político.

Quero comentar dois aspectos que surgiram dessas minhas andanças pelo Brasil e que, apesar de distintos, se complementam.

O primeiro diz respeito ao claro aumento da preocupação com temas ambientais, tanto por parte dos candidatos quanto dos eleitores. Diferentemente de eleições anteriores, quando os ambientalistas se desdobravam para tentar colocar esses assuntos em pauta - e nem sempre com sucesso - hoje vejo que eles surgem de forma mais espontânea, embora certamente esteja em sua raiz a persistência de militantes que jamais desistiram de bater na mesma tecla, mesmo quando eram ridicularizados ou até ameaçados, como, aliás, continuam sendo em muitas localidades.

Antes era uma verdadeira batalha para conseguir espaço nas disputas estaduais e federais. Agora, as plataformas ambientais, algumas muito consistentes, se alastram pelos municípios, o que é bastante promissor, visto que este é um âmbito decisivo, tanto para a implantação de programas corretos, do ponto de vista ambiental, quanto para a mobilização da sociedade, por meio do engajamento nas questões locais.

E o mais interessante é que essas plataformas estão tratando de meio ambiente não como algo isolado, cosmético, mas no nível de ações integradas no planejamento urbano e nos planos diretores, unindo saneamento, tratamento de resíduos, proteção e recuperação de áreas especiais e até mesmo estética urbana, de modo a não deixar as cidades crescerem desordenadamente, descaracterizando-se ou destruindo seus patrimônios culturais e a qualidade de vida da população.

A transformação do meio ambiente num item importante dos programas e das cobranças por parte dos eleitores atesta que as preocupações sobre o nível de degradação planetária que vivemos está chegando ao cotidiano e mobilizando as pessoas a buscar soluções para seu entorno, seu município.

Se essa postura ainda está dispersa e não configura um padrão nacional, não diminui a relevância de constatar que ela existe em nível significativo, em todas as regiões, o que pode desencadear um efeito-demonstração positivo. Décadas depois, parece estar se materializando, em alguma medida, a palavra de ordem dos ambientalistas nos anos 1970 e 80: "pensar globalmente e agir localmente".

O outro aspecto está ligado ao comprometimento dos cidadãos com o processo eleitoral. Aí talvez resida um ponto crucial de quaisquer mudanças políticas democráticas no País. Nos acostumamos a pensar essas mudanças como necessidade do sistema político-partidário e institucional, para corrigir suas deformações. Esquecemos o outro lado da moeda, o da responsabilidade do eleitor sobre o voto que dá.

O voto e a eleição criam obrigações para quem foi eleito e para quem elegeu. As coisas só funcionam se os dois lados atuarem ao longo de todo o mandato. Várias pesquisas mostram que poucos meses após as eleições, boa parte dos eleitores sequer lembra o nome dos candidatos em quem votou, a não ser no caso dos cargos majoritários de maior visibilidade.

Pode-se até, pelo esquecimento, se desvincular do projeto político no qual se votou, mas jamais alguém se desvinculará, do ponto de vista das conseqüências, do resultado de sua escolha. Não há terceirização de cidadania. O ato de ir às urnas deve incluir um pouco mais de comprometimento e de consciência de que, durante quatro anos, seremos co-autores e fiscais do exercício do mandato para cuja escolha colaboramos. Se nosso candidato for perdedor, ainda assim, ao votar nele nos aliamos a um conjunto de idéias e propostas que deverão se colocar como interlocutoras do projeto do vencedor, levando-se em conta que jamais alguém será o dono da verdade ou governará apenas para os seus próprios eleitores. É preciso lembrar, portanto, que a crítica aos "políticos" não pode ser desvinculada da crítica à meia-cidadania, ou seja, aquela que assume só metade de suas responsabilidades.

Essa reflexão veio-me a propósito do crescimento do tema ambiental, que sempre se nutriu de uma intensa necessidade de participação e presença no espaço público, para defender suas propostas. Espera-se que seu crescimento no campo da política institucional sinalize também uma expansão da postura de co-responsabilização, essencial para avançarmos em mudanças que nos levem, de fato, à consolidação da democracia no plano concreto da vida de todos os brasileiros.


Marina Silva é professora secundária de História, senadora pelo PT do Acre e ex-ministra do Meio Ambiente.

Fale com Marina Silva: marina.silva08@terra.com.br

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