Atualizada às 22h59 Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

A Pulp Fiction de Guimarães Rosa, Braulio Tavares. João Pessoa: Marca de Fantasia, Serie Veredas N.º 5, 2008, 79 páginas. Ilustrado.
Como aconteceu por duas vezes na FantastiCon, a participação de Braulio Tavares foi das mais interessantes também do Invisibilidades 2.
O contista e ensaísta está com novo livro em circulação, este curioso e revelador A Pulp Fiction de Guimarães Rosa, lançado pela pequena editora paraibana Marca de Fantasia (contato@marcadefantasia.com.br, http://marcadefantasia.com.br, e Av. Maria Elizabeth, 87/407, João Pessoa-PB, 58045-180).
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O livro é composto de três ensaios a respeito da presença de gêneros e de estratégias de literatura popular na obra de Guimarães Rosa: "A Pulp Fiction de João Guimarães Rosa" (primeiro publicado no "Caderno de Sábado" do Jornal da Tarde em 1998), "O Recado do Morro" e "Um Moço Muito Branco" (no Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2004). "Pulp fiction" aqui não é expressão de um olhar retrospectivo e recursivo da FC, como vem sendo empregado hoje, porque Rosa foi contemporâneo, especialmente na juventude, da literatura pulp (a das revistas pulp) que se produzia no exterior e que chegava ao Brasil nas páginas de revistas como O Cruzeiro (onde Rosa publicou suas primeiras histórias), A Novela, Contos Magazine, X-9, Meia-Noite, etc. Não obstante, Tavares sugere que a coincidência temática, especialmente a dos primeiros contos do autor, tenha sido uma recriação eventual, e não imitação, empréstimo ou apropriação: "Não afirmo que Rosa conhecia as obras (de certos autores pulp), mas sim que todos eles respiravam, na época, a mesma atmosfera."
As histórias "O Mistério de Highmore Hall", de 1929 (um conto grotesco e escabroso), "Makiné", de 1930 (fantasia heróica) e "Kronos kai Anagne", também de 1930 (de fantasia contemporânea) foram publicados por Rosa na revista O Cruzeiro, que na época fazia um concurso mensal de contos. Além do autor de Grande Sertão: Veredas, participaram desse concurso outros autores que escreveram FC, como Erico Verissimo e Jerônymo Monteiro. Mesmo analistas da vida e da obra de Rosa reconhecem, como Renard Perez, que ele, nessa fase de sua vida em que estudava medicina no Belo Horizonte, escrevia por dinheiro.
Reconhecer que Guimarães Rosa também já foi um hack, como dizem os americanos, e que escreveu horror e fantasia de cores pulp não alterar o status desse autor perante os nossos olhos. "O fantástico foi a primeira opção literária de Guimarães Rosa, fruto sem dúvida de suas leituras de juventude", Tavares escreve. O que aconteceu mais tarde é que "Guimarães Rosa decidiu esquecer a literatura de gênero, e criar um gênero literário próprio", alargando os limites do romance regionalista de 30, segundo Tavares.
O fantástico não deixou de comparecer, na ficção de Rosa, mesmo quando ele havia estabelecido o estilo e o enfoque que o tornaram famoso. Tavares localiza na novela "O Recado do Morro" (1956, incluído em Corpo de Baile e
O último ensaio trata de "Um Moço Muito Branco" (1962, em Primeiras Estórias), conto candidato a "talvez o único que possa ser descrito sem esforço como um conto de ficção científica".
Tavares aponta para o fato de que o conto pode ser lido como uma história de alienígena náufrago na Terra, justamente na localidade de Serro Frio, em Minas Gerais, em novembro de 1872. É narrada como uma crônica dos estranhos fatos em torno do aparecimento de um jovem muito pálido, depois de um cataclismo que atinge a região. As pessoas desse lugar e da época não têm elementos conceituais para dizer que uma nave alienígena sofreu um acidente e deixou um "ufonauta" com discretos poderes mentais para trás, vivendo entre os moradores do lugar, até que ele encontra meios de chamar ajuda e ser resgatado. A presença do alienígena é suave e positiva, transformadora do íntimo das pessoas, e nisso o conto se compara a "O Visitante" (1977), de Marien Calixte, e a "Especialmente, Quando Sopra Outubro" (1971), de Rubens Teixeira Scavone, embora o próprio Tavares ofereça como comparação o romance Sarah Canary (1991), de Karen Joy Fowler, uma autora da corrente humanista da FC americana dos anos 80, e o filme Teorema (1968), de Pier Paolo Pasolini. Para o leitor de FC, principal efeito do conto de Rosa está em se localizar e ordenar os elementos da narrativa do E.T. sinistrado, em meio ao emaranhado maneirista do estilo roseano, nesse conto talvez mais denso e opaco que o usual. Mas Tavares nos avisa para não nos fecharmos nessa única interpretação, para tentarmos entendê-lo como uma narrativa que se baseia num protocolo de leitura que valoriza não as respostas, mas o mistério em torno de uma pergunta: por exemplo, quem era o moço muito branco ou o que realmente aconteceu em novembro de 1872? Narrativas desse tipo buscariam não "responder as questões ou esclarecer os mistérios apresentados, mas a dar-lhes uma textura tão múltipla e diferenciada que a cada re-exame ou releitura as próprias perguntas formuladas pela obra parecem diferentes", Tavares escreve.
Minha leitura do conto é recente demais, eu imagino, para supor mais do que o sentido da "narrativa ufológica", por isso não encontro outras interpretações possíveis para o ele. Não obstante, o argumento final de Tavares é engenhoso e intrigante: no conto, assim como em Sarah Canary, por exemplo, a sensação do passado é reconfigurado e deixa de comunicar aquela impressão de estágio descartado, de um continuum conhecido da realidade, para ser visto como "um terreno ainda por desbravar, de que coisas fantásticas e inverossímeis podem ter de fato ocorrido no mundo sem que tenhamos tomado conhecimento". Rosa realiza aí o mesmo efeito de imaginar uma realidade fantástica, maravilhosa, por uma caracterização tanto do passado, quanto do lugar que marca a sua exploração do fantástico, conforme afirma o ensaio anterior.
Que Guimarães Rosa tenha escrito ficção científica não deve assustar seus leitores - assim como não deve assustar aos leitores de Machado de Assis ou de Monteiro Lobato, Erico Verissimo ou de Ignácio de Loyola Brandão e de Herberto Sales, todos autores que já se ocuparam do gênero. No caso dos primeiros textos de Rosa, o que se percebe é que ele, Machado e outros também tiveram o mesmo impulso de aparecerem, de ocuparem os nichos de publicação de sua época e de ganharem dinheiro com sua literatura ou de explorar possibilidades inquietantes que idéias vinculadas à ficção de gênero lhes facultavam, que move os jovens iniciantes de hoje. E não devemos desconfiar de que Rosa, em particular, conhecia algo da FC, como Fausto Cunha testemunha, neste trecho do seu ensaio "Ficção Científica no Brasil: Um Planeta Quase Desabitado" (1976): "Guimarães Rosa considerava 'A Terceira Margem do Rio' um conto na linha do fantástico e certa vez, em conversa comigo, estranhou que eu, um cultor da science fiction, não tivesse reagido com mais entusiasmo a essa história, que conheci de primeira mão (Rosa às vezes me telefonava para eu ir ouvir a leitura de seus contos no Itamarati, ali na Rua Larga). Chegou a insinuar que a escrevera pensando em mim como leitor, o que evidentemente não tomei ao pé da letra." E em 1969 Aguinaldo Silva escreveu: "Se Guimarães Rosa tivesse nascido em outro lugar que não fosse Cordisburgo, seria, provavelmente, um autor de Ficção-Científica. De qualquer modo, toda a sua obra está baseada num plano mágico-fantástico não muito distante de Lovecraft, por exemplo, e pelo menos três ou quatro de suas histórias são autêntica FC (vide 'Um Moço Muito Branco', em Primeiras Estórias)."
Em A Pulp Fiction de Guimarães Rosa, Braulio Tavares compara Rosa a Tolkien, o autor inglês da trilogia O Senhor dos Anéis, mas comenta que as origens literárias do brasileiro foram mais populares do que as do professor de Oxford. Os dois partilhariam de um impulso de criação e de recriação de mundo, de uma imaginação cartográfica e lingüística. Desse modo ele aponta ao leitor do mainstream um modo de enxergar a obra desse gigante da literatura brasileira por um outro ângulo, assim como, nos ensaios sobre "O Recado do Morro" e "Um Moço Muito Branco", nos dá meios de enxergarmos a fantasia e a ficção científica por outras lentes.
Todos os ensaios do livro são excelentes e confirmam Tavares como uma das personalidades mais capazes da atualidade, para refletir sobre a ficção científica e a fantasia no Brasil. E sobre a sua interface com o mainstream.