
Amilcar Bettega
De Paris
A beleza das cores do outono me deprime.
Não tenho outra maneira para dizer da minha incapacidade para apreendê-la. A luz, os tons absolutamente inusitados que resultam da passagem dos raios do sol por entre as folhas já amareladas das árvores, ou da incidência destes mesmos raios na parede de tijolos vermelhos, ou ainda a luminosidade ampliada pelo reflexo do sol nas lajes de pedra da calçada ou sobre a ampla superfície de terra da praça, tudo isso que uma manhã ensolarada de outono proporciona aos olhos durante uma simples caminhada pela Place des Vosges em Paris, por exemplo (mas pode ser Porto Alegre, Lisboa ou o quintal da minha ou da sua casa), tudo isso está muito, mas muito longe do que as palavras podem abarcar.
Não falo nem no talento (no meu caso, na falta dele) que permitiria expressar através de palavras algumas das sensações provocadas pela visão de uma imagem dessas. Mas da impossibilidade absoluta, ou seja, do fracasso certo a que está destinado aquele que se dedicar a essa tarefa.
Gostaria de ser pintor.
Talvez até pudesse ter sido um, se tivesse (outra vez) talento e sido banhado desde cedo no universo da pintura, que fui descobrir já bem tarde. Gostaria de ser um pintor para poder chegar, quem sabe, um pouco mais perto da expressão do sentimento que a imagem visual é capaz de provocar.
(porque a perseguição estética só acontece porque por trás há o sentimento, a emoção que precisa ser expressa)
Escolhi a palavra, não sei se por temperamento ou falta de opção. Sempre soube da sua - e da minha - limitação. Sabia que seria preciso conviver com o fracasso e a impossibilidade de atingir na prática aquilo que idealmente pode ser tocado.
Compor com as cores, as sombras, os volumes, seria isto possível fazendo-se uso apenas das palavras? Escrever como quem pinta. Ou melhor: escrever como se estivesse pintando. Não é a descrição de uma cena, de uma imagem vista, o que interessa. A pintura também pode ser descritiva e lida com os mesmos limites. A questão é trabalhar com os elementos que compõem a cena (ou a imagem, se preferirem) e provocaram a emoção. E trabalhá-los com as ferramentas que dispomos.
Sempre fui muito tocado pelas manifestações da luz, sua relação com os objetos, que pode alterar radicalmente a percepção que temos deles. Muito do pouco que escrevi nasceu dessa, digamos, sensibilidade aos efeitos da luz. Imagens, flagrantes de uma visada, como uma fotografia que dura alguns segundos à frente da vista e depois se dissipa, deixando-nos apenas com a possibilidade (e o desejo) de nos aproximarmos um pouco daquilo que já não existe mais, que escapou mas que pode ser recriado sob uma outra forma, que será outra coisa, necessariamente será outra coisa.
Só assim, creio, algo da emoção provocada pela imagem que os olhos registram poderá ser recuperado. Mas nunca a sua totalidade. Para tanto, só mesmo saindo para dar uma volta numa manhã de sol de outono na Place des Vosges, por exemplo (mas pode ser na rua de trás de casa, no meu ou no seu bairro). Se bem que aí já será uma outra manhã, de um outro outono, com outro sol.
Terra Magazine