
Atualizada às 09h03 Rafael Prada
De Montreal, Canadá
Nunca se vendeu tanto carro no Brasil, nunca as montadoras investiram tanto e apostaram tão alto no mercado automotivo nacional como agora. E nunca o brasileiro se endividou tanto para poder rodar com aquele carro 0km e com cheirinho de novo. Mas o que não dá para entender é por quê? Por que se compra tanto carro no Brasil?
Claro, dizem que todo brasileiro é apaixonado por carro. Balela...(Quase) todo o mundo gosta de carro. E essa paixão do brasileiro por automóvel nem se justifica dessa forma, já que nunca estivemos na mira das montadoras que desenham e fabricam os verdadeios sonhos de consumo, como Porsches, Ferraris ou Lamborghinis.
Obviamente que a posição do Brasil na economia mundial é um motivo mais do que plausível para que não sejamos alvos preferencias dos barões do mercado automobilístico. O negócio em terras tupiniquins é carro pé-de-boi, carro "meio-renovado" e caros, muito caros. Nunca um carro "popular" foi tão caro no Brasil, entretanto, nunca foi tão fácil adquirir um.
Em pesquisa rápida no site oficial da Fiat, montadora que oferece o Mille Economy, o segundo carro mais barato do mercado, a versão duas portas, sem opcionais e com ótimos equipamentos de série, como a cobertura da alavanca do freio de mão, sai por meros R$ 23.240, algo próximo de US$ 12 mil (baseado no fechamento da moeda estadunidense no dia 2 de outubro).
Para se ter uma idéia dos preços atuais no mercado brasileiro e dos exageros que temos que enfrentar, o IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário) divulgou estudo demonstrando que, no caso dos carros com motorização 1.0, a carga tributária incidente já é de 37,55% sobre o valor total do carro. Na sopa de letrinhas dos impostos cobrados (IPI, ICMS, PIS, Cofins e afins), quem engole torto é sempre o consumidor final.
Porque se já não bastasse o absurdo tributário, o brasileiro é obrigado a conviver com carros ultrapassados, plataformas que já beiram os 15 anos de idade e "renovações" ridículas, casos do "novo" Peugeot 207 e do modelo atual do WV Golf, que é vendido como modelo de entrada no Canadá, mas tratado (e comercializado) como carro médio de luxo no Brasil.
Mas a culpa maior da venda desenfreada de veículos, que faz a ANFAVEA (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) sorrir e motoristas na hora do rush chorarem, é do crédito absurdamente fácil e dos longos financiamentos criados por bancos e montadoras. Nem mesmo o aumento dos juros ou o aumento do IOF freou o ânimo dos ávidos brasileiros.
O último mês de setembro voltou a ser lucrativo para as montadoras com a venda de 254.182 unidades, incluindo carros e veículos comercais, como picapes e utilitários. No ano já são mais de dois milhões de unidades vendidas e tudo se encaminha para um recorde de vendas em 2008.
Preços abusivos, carga tributária elevada, carros ultrapassados... E, para "coroar", tudo se encaminha para o melhor ano da história automotiva brasileira. Mas há uma pegadinha por trás de tantas vendas. E ela pode não acabar bem. Com o aprofundamento da crise norte-americana, uma falta de liquidez no mercado não pode ser descartada.
Nos EUA, a crise se iniciou justamente com o fornecimento maciço de crédito à população com rendimentos mais baixos e situação mais instável, o agora famoso subprime. A conta não foi paga e o buraco, com certeza, é mais fundo que todos esperavam.
Claro que não esperamos algo dessa magnitude no Brasil na venda de carros, mas enquanto o mundo todo se resguarda em razão de uma das piores crises nos últimos 80 anos, a venda de automóveis continua acelarada no Brasil. Nunca o brasileiro esteve tão endividado. Por enquanto tem pagado a conta direitinho, mas o cenário colorido já vê tons de preto e branco.
O governo finge que não vê, afirma estar seguro, mas já se vira para ajudar os bancos de pequeno e médio porte. Somente nos últimos dez dias, algo em torno de R$ 37 bilhões foi injetados no mercado devido "às restrições de liquidez que têm sido verificadas no ambiente internacional", diz o Banco Central, em nota emitida no último dia 2 de outubro.
Em conversa com amigos que moram nos EUA, e até mesmo no Canadá, o grande problema da maioria, dizem eles, foi a demora em perceber o tamanho da crise e a força que ela ganhou. Que os consumidores brasileiros não cometam o mesmo erro, pois a crise que bate forte por aqui, não deve demorar para chegar por aí.
Fale com Rafael Prada: rafaelprada82@terra.com.br
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