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Sábado, 4 de outubro de 2008, 07h57 Atualizada às 12h18

Antonio Olinto: "Caymmi era inteiramente do Axé"

Claudio Leal

Em conversa com Terra Magazine, o escritor Antonio Olinto, 89 anos, membro da Academia Brasileira de Letras, compartilha suas memórias dos terreiros da Bahia. Olinto é um dos principais estudiosos da cultura africana, no Brasil. Obá de Xangô do Ilê Axé Opô Afonjá, ele revela momentos do convívio com Jorge Amado, Dorival Caymmi, mãe Senhora e mãe Stella. Junto com a esposa, Zora Seljan, trilhou por mais de 50 anos os caminhos dos orixás. Confira a entrevista:

Terra Magazine - Como surgiu o ministério de Xangô?
Antonio Olinto - É uma tradição africana que quase nenhum candomblé daqui tinha. Mãe Aninha, antecessora de Mãe Senhora, resolveu então fazer o conselho completo, seis de um lado e seis de outro, doze obás. Os obás tinham estágios. Ele entrava, em geral, como obá da mão esquerda. Quando tinha uma vaga na direita, ele passava pra direita. Morrendo o titular, a gente passava pro obá inteiro, completo. Eu tenho 50 anos agora de obá. E tenho de obá inteiro mais de 35.

Tem direito a voz e voto.
Isso. Eu era o primeiro obá da direita da mãe-de-santo. Jorge Amado era o primeiro da esquerda. Eu brincava com ele: "Tá direitinho porque eu sei que você é de esquerda, mas acontece que eu não sou de direita" (risos) Bom, e tinha também o Carybé, o Caymmi. Caymmi chegou a ter uma casa (em Salvador). Ficou um ano, mas não aguentou, queria vir pra cá mesmo (Rio de Janeiro). Ou então pra Minas Gerais, terra da Stella.

Na Bahia, a casa dele virou atração turística.
(risos) Pois é, aí era muito complicado. Ele era excepcional como companheiro, como pessoa, alegre, e gostava muito de uma farrinha de vez em quando. Naquela idade, né? Gostávamos um pouquinho. Aí ele não só ia às sessões de Xangô - porque nós somos de Xangô -, nós íamos pra lá todo 29 de junho. Era o dia de São Pedro. Uma grande festa. Agora, havia todas as festas normais. A festa de Xangô, a festa de Oxalá, tudo dentro do ritual normal. Eu sou de oxalá. Minha mulher, Zora, era de Xangô. Jorge Amado era de Oxóssi, o caçador.

Que é o de Mãe Stella.
É. A anterior era de Oxum. Senhora era Oxum. Nós tínhamos sempre um compromisso. Eu vinha da África e de Londres, às vezes conseguia pegar um avião direto de Londres a Paris, e de Paris a Salvador (risos).

O senhor foi confirmado por mãe Senhora?
Ah, sim. Foi mãe Senhora que nos convidou. Ela começou a ver, a sentir, que o Candomblé era um ato cultural também. Principalmente. Então, ela começou a ter não só o pessoal normal da religião, mas alguns intelectuais. Estavámos lá: Jorge, eu, Carybé, Caymmi. Ele estava mais ligado, eu e Jorge estávamos dentro daquele princípio de mãe Senhora de que devia haver intelectuais que eram da religião. E com isso nós entramos. Frenqüentei lá o tempo todo. Fui ano passado, só não fui este ano porque morreu a minha Zora e eu fiquei aqui pra fazer uma exposição de nossas obras. Temos aqui 200 esculturas africanas de madeira no meu apartamento. Nós fizemos uma exposição no Sesc do Flamengo e no Sesc de Madureira. Com a morte da Zora, eu fiz um instituto cultural Antonio Olinto, que foi aprovado pelo governo, e eu pretendo doar tudo isso para o instituto. Tenho 16 mil livros, mais essas 200 esculturas, pintura... não tem mais lugar pra pintura. Caixas e caixas com pinturas guardadas. Seria o Instituto Antonio Olinto com o museu Zora Seljan de Arte Africana.

Agora, no Afonjá, Gil vai suceder Caymmi. Como é a participação dele?
Como ministro, ele foi também, mas foi pouco. Não deu pra ir tanto. Mas, voltando, a Mãe Senhora era uma sábia. Muito inteligente, naquela inteligência natural do povo. E também foi aprendendo. Ela fazia uns discursos bem bons. Sabia falar. E preparou a menina, né? A Stella, que foi filha dela em tudo. Ela morreu e não foi ainda Stella, foi Ondina. Depois dela, todos nós nos reunimos e o Agenor foi jogar os búzios. Ela foi preparada por Senhora para isso.

Na hora, o professor Agenor disse: "Quem souber ler os búzios, se aproxime"?
É, sim... Ele faz uma falta tremenda. Ô! Ele era um sábio e tinha conhecimento das coisas. Conhecimento perfeito. Os livros dele são ótimos. Sabe que ele era muito estranho? De repente, ele telefonou daqui e disse assim: "Vou aí conhecer Londres. Na sua casa eu não fico, não. Quero ficar perto pra ir lá almoçar. Vou atrapalhar sua casa porque o pessoal vai me consultar. Já tem brasileiro aí que me disse: 'Vem cá que nós vamos consultar o senhor!'" (risos). Passou lá um mês, a gente saía pra passear. Ele vivia lá em casa, mas ficou numa pensão.

Foi professor do colégio Pedro II...
Até se aposentar. Você sabe que ele nasceu em Angola, né? Era filho de um diplomata português com uma angolana, uma angolana pura. Quando ele tinha seis anos, o diplomata português veio pra cá. E trouxe o Agenor, que aí entrou no colégio em que ele seria professor mais tarde, o Pedro II. Fez o curso completo. Ele era diferente dentro desse setor. Porque o pai português o obrigou a estudar.

Ele ensinou Mãe Stella a jogar búzios?
Foi, foi. Ele teve um papel preponderante. Ele morreu e faz uma falta completa. Já estava com 92 anos. A gente esperava que ele chegasse aos 100, mas aí o corpo não aguenta tanto. Então, o nosso Caymmi era inteiramente do Axé. Inteiramente do Opô Afonjá. É claro que o convidavam e ele ia a todas. Ele ia ao Engenho Velho, mas era obá mesmo da mãe Senhora.

Mas ele teve uma relação intensa com Mãe Menininha.
Todos tínhamos (risos). Jorge Amado, que era inteiramente de Mãe Senhora, não deixava de ir a Mãe Menininha. E nos levava lá. Eu ia pras festas... E o Agenor jogou búzios também pra Mãe Menininha.

Quem lhe apresentou a Menininha foi Jorge Amado?
Foi. Porque o Jorge, apesar de ser do Opô Afonjá, estava em todas. Figura querida, todas faziam questão de que ele fosse lá. E ele ia.

Ele dizia ser uma ateu que via milagres.
É, e ele dizia o seguinte: "Eu sou ateu, mas não sou cego. Vejo a eternidade." (risos)

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Claudio Leal/Terra Magazine
Mãe Stella, matriarca do terreiro Axé Opô Afonjá, na Bahia

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