Atualizada às 15h18 Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Por Alfredo Luiz Suppia*
Ensaio sobre a Cegueira ( http://www.ensaiosobreacegueirafilme.com.br/), o último filme de Fernando Meirelles, dividiu a crítica e o público. Cannes rejeitou o filme, que estreou no Brasil com modificações.
A co-produção Brasil-Japão-Canadá traz um elenco multinacional para contar uma estória tida como "infilmável", o romance de mesmo nome escrito pelo Nobel português José Saramago. De fato, Meirelles encarou um desafio nada tranqüilo: adaptar para uma mídia audiovisual uma narrativa sobre a incapacidade de ver. Paradoxal? Talvez nem tanto. Apesar dos pesares, não se pode chamar de fracasso o filme de Meirelles, por mais controverso que possa ser.
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Julianne Moore parece ter bom faro para estrelar filmes de ficção científica. Atuou no interessante Filhos da Esperança (Children of Men, dir. Alfonso Cuarón, 2006), e em algumas produções menos inspiradas, porém válidas, como Os Esquecidos (The Forgotten, dir. Joseph Ruben, 2004). Em Ensaio, ela representa o papel da mulher de um oftalmologista que começa a receber pacientes queixosos de perda total e repentina da visão. Ao invés de ausência completa de luz, a cegueira é branca, misteriosa.
O filme abre com o primeiro caso de cegueira afetando um motorista. A partir daí, um a um vão ficando cegos os habitantes da cidade fictícia. A doença é contagiosa e avança em progressão geométrica. A população afetada é conduzida pelo exército a pontos de quarentena. Mas o isolamento não é suficiente para controlar o avanço da doença incurável. Até as próprias autoridades acabam sofrendo do mal. A civilização entra em colapso.
A personagem de Julianne é a única que não é afetada pela cegueira. Não há explicação para isso também, e ela decide fingir que está cega para poder acompanhar o marido médico na quarentena. Nesse microcosmo de caos que se tornou o isolamento, ela é portadora de uma dádiva fundamental. Por ser a única a enxergar, dedica-se a minorar a degradação vertiginosa que atinge todos os personagens. Mas nem sempre "em terra de cego quem tem um olho é rei".
Embora seja a única a enxergar perfeitamente, "uma andorinha só não faz verão". Em sua missão de manter alguma ordem e dignidade entre os seres humanos que a rodeiam, a personagem de Moore se transforma. Ela passa de uma frágil dona de casa à condição de justiceira. Com isso, sua própria humanidade também é profundamente transformada - senão em parte perdida.
Em sua parábola do colapso da civilização, Ensaio lembra um pouco uma das obras-primas de Luis Buñuel, O Anjo Exterminador (El Ángel exterminador, 1962). Neste filme, pessoas finas e "de bem" vêem-se impossibilitadas de deixar uma sala, sem nenhuma razão aparente. A situação insólita conduz ao isolamento do grupo que, por conseguinte, vai gradativamente despindo-se das boas maneiras. Não tarda para que se instale a barbárie.
Essa oposição entre civilização e barbárie também está no cerne da fábula de Ensaio, que em sua ausência de explicações sobre o fenômeno da cegueira lembra também filmes como Invasión (1969), de Hugo Santiago, Os Pássaros (The Birds, 1963), de Alfred Hitchcock, Filhos da Esperança (Children of Men, 2006), de Alfonso Cuarón, e Fim dos Tempos (The Happening, 2008), de M. Night Shyamalan. Podemos agrupar estes e outros títulos numa vertente narrativa da ficção científica pouco ou nada preocupada em explicar ou justificar suas fábulas, o que geralmente resulta em filmes no mínimo instigantes.
Ensaio foi rodado em três cidades diferentes: São Paulo, Montevidéu e Toronto. Talvez um dos aspectos mais interessantes do filme seja a manipulação do espaço, a criação de uma cidade fictícia por meio da montagem, a exemplo de Invasión (1969), de Hugo Santiago, La Sonâmbula (1998), de Fernando Spiner, ou ainda Alphaville (1965), de Jean-Luc Godard. Todos esses filmes criaram suas cidades futuristas, utópicas ou distópicas, por meio da retórica do deslocamento propiciada pelo dispositivo cinematográfico.
Nesse sentido, Ensaio é uma grata surpresa, confirmando uma suspeita que sempre alimentei: a de que São Paulo, bem como diversas outras metrópoles do terceiro mundo, podem render excelentes cenários para narrativas de ficção científica. É o que pode ser verificado em algumas cenas memoráveis, como aquelas em que o grupo principal de personagens vaga a esmo pela cidade abandonada, passando pela Ponte Otávio Frias de Oliveira (Ponte do Brooklyn) ou pelo Minhocão.
É possível que Fernando Meirelles pudesse ser mais ousado e inspirado em Ensaio. Por outro lado, bem que a fotografia de César Charlone, a câmera e o som tentam simular uma experiência audiovisual um tanto quanto diferenciada em relação ao trivial do cinema. Essa estética, porém, parece cativa da responsabilidade para com os investidores do filme e expectativas de bilheteria, conforme se pôde notar em depoimentos do diretor à imprensa, por ocasião da estréia do filme no Brasil.
De toda maneira, Ensaio sobre a Cegueira é capaz de clarear alguns aspectos concernentes ao debate sobre o cinema de ficção científica no Brasil. Em primeiro lugar, surpreende positivamente por se tratar de uma narrativa fantástica, dirigida por um diretor que se consagrou com filmes sobre temática social (Cidade de Deus ou mesmo O Jardineiro Fiel). Nesse sentido, Ensaio prova que a temática fantástica ou de ficção científica pode ser trabalhada em audiovisual por qualquer diretor brasileiro que conheça bem seu ofício.
Meirelles tem pelo menos três qualidades: conta bem estórias, escolhe bem seus colegas de trabalho e domina a linguagem cinematográfica. Nas mãos de um diretor como ele, São Paulo pode se tornar uma metrópole futurista sem o menor constrangimento, cenário de fenômenos insólitos ou sobrenaturais. Independente da qualidade de Ensaio (certamente não é inferior a uma enxurrada de filmes que estréiam toda semana), que essa última empreitada de Meirelles sirva de inspiração para outros diretores brasileiros, interessados em realizar um cinema fantástico ou de ficção científica. Nada de sobrenatural impede isso. Só não vê quem não quer.
*Alfredo Luiz Suppia é doutor pela Unicamp, com uma tese sobre cinema brasileiro de ficção científica. Atualmente leciona na Faculdade Anhembi-Morumbi, em São Paulo.
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Divulgação
A personagem de Julianne Moore (foto) é a única no filme a preservar a visão
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