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Sábado, 4 de outubro de 2008, 07h52 Atualizada às 12h49

Gil sucede Caymmi no ministério de Xangô

Leticia Monte/Site Oficial Gilberto Gil/Reprodução
Gil fazendo música para Mãe Stella de Oxóssi, no Ilê Axé Opô Afonjá: Salvador, 1999
Gil fazendo música para Mãe Stella de Oxóssi, no Ilê Axé Opô Afonjá: Salvador, 1999

Claudio Leal

O adeus às gravatas do governo federal, em julho de 2008, não retirou de Gilberto Gil o status de ministro. Orixás baianos lhe garantem um assento no Candomblé. Em verdade, a pasta da Cultura não passou de uma das incontáveis missões políticas do inquieto obá do Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador.

Uma das doze cadeiras do ministério de Xangô, o mais alto posto civil do terreiro, está reservada a Gil. Criado em 1937 por mãe Aninha, fundadora da casa, o corpo de obás (mestres) já foi integrado pelo romancista Jorge Amado, o pintor Carybé, o tapeceiro Genaro de Carvalho e Camafeu de Oxóssi, mítico proprietário da Barraca São Jorge. Sábia união entre mãe-de-santo e intelectuais, no tempo em que os cultos afro-brasileiros pediam autorização à polícia.

Até agosto, o ex-ministro da Cultura era um suplente bem acompanhado. Estimava como confrades o compositor Dorival Caymmi, o antropólogo Vivaldo Costa Lima, o escritor Antonio Olinto e o professor Muniz Sodré, entre outros. Cambalhota do destino: com a morte de Caymmi, Gil ascende na hierarquia do Afonjá. Herda a cadeira do "Buda Nagô".

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No clássico Candomblés da Bahia, o etnólogo e historiador Edison Carneiro esclarece a inspiração religiosa e hierárquica: "Esses ministros eram antigos reis, príncipes ou governantes dos territórios conquistados por Xangô no país de Yôrubá." Caymmi era Obá Ónikôyi - portanto, na roça de mãe Stella de Oxóssi, Gil vai para a direita, ao lado dos que têm direito a voz e voto: Abiòdún, Ónikôyi, Arèssá, Ônanxòkún, Tèlá e Ôlugbã. À esquerda, somente com voz, ficam Aré, Ôtún Ônikôyi, Ôtún Ônanxòkún, Ékô, Kabá Nfô e Ôssi Ónikôyi.

"Foi mãe Senhora que nos convidou. Ela começou a ver, a sentir, que o Candomblé era um ato cultural", avalia o escritor Antonio Olinto, 89 anos, membro da Academia Brasileira de Letras. Nascido em 1919, Olinto é o mais velho dos obás. Preserva a lembrança da mãe-de-santo saudada no "Samba da Bênção", de Vinicius de Moraes. "Eu e Jorge (Amado) estávamos dentro daquele princípio de mãe Senhora de que devia haver intelectuais que eram da religião."

Back in Bahia

Na estrada com a turnê "Banda Larga Cordel", Gil ainda não pôde conversar com mãe Stella, para acertar a ascensão. "Quando tiver a primeira folga, ele quer exatamente conversar com ela, em Salvador", diz Flora Gil, mulher do músico e filha de Euá. "Gostaria de ter com o Candomblé da Bahia uma relação maior. Porque eu moro no Rio. Mas tenho um respeito grande por mãe Stella e uma admiração absolutamente enorme por mãe Carmem, do Gantois", conta Flora.

Gil se iniciou nos anos 70. Depois do exílio em Londres, travou o primeiro contato no terreiro do Barro Branco, na Ilha de Itaparica. Levado por Mestre Didi, sacerdote e artista plástico, descobriu-se filho de Xangô, o orixá da justiça, do vermelho e do branco; intempestivo, domina os raios e os trovões. Apesar da amizade terna com mãe Menininha do Gantois, o músico cimentou os vínculos com o Afonjá, de Stella.

Foto: Edson Ruiz/Agência A Tarde/Futura Press


Caymmi, ex-Obá Ónikôyi

Outro caminho percorreu o Buda Nagô. Como faz supor a sua própria obra, Dorival Caymmi ouviu, na infância, os ecos dos terreiros, dos cultos africanos clandestinos. Relataria à neta e biógrafa, Stella, uma cena da década de 1910: um negro pulou o muro de sua casa, ao fugir da delegacia, na rua do Bângala. Dona Sinhá, mãe de Caymmi, acolheu o filho-de-santo. Os olhos do pequeno Dorival cristalizaram o gesto.

A relação afetiva virou laço religioso. Caymmi enfeixou em si uma Bahia utópica - devoto de Senhor do Bonfim e de Xangô, compunha a "Oração da Mãe Menininha" ao mesmo tempo em que podia cantar as 365 igrejas soteropolitanas.

A canção "Mãe Stella", em parceria com o filho Danilo Caymmi, registra a dívida espiritual com o Afonjá. "Ele fez a letra e eu fiz a música, por conta do aniversário dela de 70 anos. Uma letra linda", afirma Danilo.

Os filhos do Axé Opô Afonjá guardam a memória do velho trovador em seu último retiro, nos anos 80. Levou o violão para roça de São Gonçalo. Nas horas lentas, folheava o caderno de provérbios, na Casa de Xangô. Publicado em 2007 por Stella de Oxóssi, o livrinho traz um ensinamento yorubá: "Mesmo quando o velho se curva, ainda está de pé". Quem o lê, até imagina Dorival a piscar o olho para Gilberto, na transmissão do cargo.

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