Terra Magazine

 

Sexta, 10 de outubro de 2008, 09h02 Atualizada às 09h58

Pinheiro quer Copa-2014 para revitalizar Salvador

Claudio Leal

Candidato à prefeitura de Salvador, o deputado federal Walter Pinheiro (PT), especialista em telecomunicações, iniciou a campanha gramando 5% em pesquisas eleitorais. Impulsionada pelo início do horário eleitoral e o engajamento do governador petista Jaques Wagner, a candidatura de Pinheiro chegou, com suor, ao segundo turno. Pequena margem de votos o separa do adversário João Henrique Carneiro (PMDB). Ambos atingiram a marca dos 30%.

Não houve, exatamente, surpresa. Mas a chegada de Walter Pinheiro à segunda etapa deu novo fôlego aos pulmões petistas. Apesar da ausência física, para evitar rasgões na aliança PMDB-PT, a imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ocupará uma posição central. Em entrevista a Terra Magazine, Walter Pinheiro expõe suas propostas para a cidade e defende que Lula e Wagner já estão presentes em seu programa, ainda que haja a hipótese de não subirem em seu palanque.

- Tanto o Lula quanto o Wagner estão na minha campanha na medida que discuto projetos, propostas. Tenho, inclusive, dialogado com eles o apoio pra elaboração e realização dos projetos - diz Pinheiro.

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Nesta entrevista, o candidato faz críticas ao prefeito João Henrique. "Salvador precisa ter uma gestão mais firme", avalia. Para o petista, houve falhas na aprovação do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU), aprovado às pressas pela Câmara de Salvador; a cidade não teria sido compreendida do ponto de vista da Região Metropolitana. Observa que o prefeito esqueceu de discutir o crescimento dos bairros mais pobres.

O PDDU elevou o gabarito da Orla soteropolitana. O plano enfrenta críticas de arquitetos e intelectuais sobre a lisura da aprovação; vêem favorecimento a empreiteiras e imobiliárias. No debate eleitoral, apenas João Henrique e ACM Neto (DEM) defenderam a íntegra do projeto aprovado pela Câmara.

- O PDDU não trata do nosso Centro Histórico (gerido pelo governo do Estado). Não admito que o centro histórico seja um Vaticano dentro da cidade do Salvador. Não vou tratar isso como o Vaticano. Quero me envolver com os projetos de revitalização, de recuperação - critica Pinheiro.

Entre as idéias para superar a "arrecadação pobre" da capital baiana, ele pretende colar a gestão municipal ao PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e ao projeto da Copa-2014, no Brasil. Salvador pretende ser uma das 10 ou 12 cidades que receberão o Mundial.

- Temos que saber trabalhar direitinho, ter um prefeito que saiba se articular pra aproveitar a Copa e atrair recursos pra cidade. Salvador não tem capacidade de investimento.

O petista propõe ainda a interligação dos parques ambientais e a integração do sistema de transportes de Salvador.

A assessoria de imprensa do candidato João Henrique ainda não atendeu ao pedido de entrevista de Terra Magazine, mas garantiu que irá agendá-la. Assim que o faça, o peemedebista também será ouvido sobre suas propostas de governo.

Leia a conversa com o deputado Walter Pinheiro:

Terra Magazine - O governador Jaques Wagner fez uma proposta de participação dos chefes do Executivo nas campanhas eleitorais. Ou todos participam, ou todos saem da campanha. Qual é o entendimento do senhor?
Walter Pinheiro
- Não é a questão central da campanha. Tanto o Lula quanto o Wagner estão na minha campanha na medida que discuto projetos, propostas. Tenho, inclusive, dialogado com eles o apoio pra elaboração e realização dos projetos. E estamos podendo fazer esse debate pra sociedade, aquilo que nós estamos apresentando como proposta guarda sintonia com o que a gente pode fazer em Salvador, uma cidade muito pobre em arrecadação. É o que a gente pode fazer com a ajuda desses dois governos. Então, os dois governantes estão em nossa campanha, isso é mais importante. Melhor do que a presença física, é a presença programática.

Quais serão as linhas principais do seu governo, caso seja eleito?
Estamos trabalhando com duas frentes. Uma plataforma do que é possível fazer em quatro anos e, segundo, estamos preparando uma gestão pra que você possa planejar, governar, preparar essa cidade para os próximos 40 anos. É o que Salvador não fez. Isso é uma espécie de eixo que nós vamos trabalhar. Agora, do ponto de vista da proposta, estamos trabalhando com duas frentes. Primeiro, a questão da gestão administrativa, uma questão fundamental. Salvador precisa ter uma gestão mais firme, uma gestão com capacidade de se articular, uma questão com capacidade de aproveitar esse bom momento de investimento que o Brasil vive, atrair isso pra Salvador, aproveitar a chegada desses recursos. E aplicar isso na cidade.

Uma gestão que seja transparente e envolva o corpo de servidores, para aproveitar essa capacidade acumulada que nós temos. A cidade precisa ter uma gestão arrumada, para que a população sinta a presença do poder público. Queremos resgatar a confiança. O segundo aspecto tem a ver com o que nós chamamos de caráter social. Envolve a questão da saúde, firmar parceria com o Estado, construir hospital em Salvador, botar essa rede pra funcionar. Quero que isso seja conduzido pelo prefeito. Na área de educação, a idéia nossa é trabalhar com a educação integral e social. Outra questão fundamental, que a gente está discutindo, é a do território. Democratizar o território, o que envolve transporte, moradia...

Dentro desse item, há a questão do PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano)?
É isso. Quando eu falo da gestão democrática do território, precisamos de uma legislação que olhe para todos os lugares da cidade que não foram, no bom baianês, "espiados".

Onde o PDDU falha?
As áreas mais pobres da cidade não foram analisadas do ponto de vista da melhoria da infra-estrutura, da sua revitalização, da sua reurbanização. Pensar uma cidade que tem um déficit habitacional de 100 mil unidades. Pensar do ponto de vista ambiental, pra resolver graves problemas na cidade. Do transporte, esse caos, um metrô que nunca termina e nós vamos terminar. É importante pensar isso - e aí está uma falha do Plano de Desenvolvimento Urbano -, pensar isso não só no nível da cidade, mas numa relação com a Região Metropolitana. Salvador não lidera absolutamente nada na Região Metropolitana. É impossível você resolver problemas de moradia, de transporte, de saneamento, se você não tem intervenção metropolitana. Isso é uma das falhas do projeto.

Estrevistamos o urbanista e ex-governador do Paraná Jaime Lerner sobre cidades. E ele critica essa idéia de que o metrô vai resolver tudo, defende uma integração do sistema de transporte. Como o senhor vê isso?
Isso está no meu programa. O que eu estou dizendo é que, do ponto de vista do território, vou ter que acabar o metrô que eles levam 15 anos e não conseguem, mas ele não vai resolver o problema da cidade de Salvador. Estou propondo um outro sistema, a integração do sistema de transporte, e o que eu chamo de bonde moderno, para que o transporte possa chegar aos lugares de maior concentração. Salvador tem uma região com cerca de 600 mil pessoas.

Há gargalos também no trânsito...
Pois é. Você tem que pensar o transporte como mobilidade urbana. Por isso que todo o planejamento urbano tem que pensar o seguinte: serviços, comércio e transporte, de forma descentralizada. Senão eu boto todo mundo pra morar em um lugar e trabalhar em outro. A gente tem que providenciar transporte pra tirar todo mundo desse lugar e levar pra um único lugar, que é o centro de serviços da cidade. Isso é errado.

Qual o erro do prefeito João Henrique na condução desse debate?
Faltou fazer exatamente esse debate. No afã de aprovar, aprovar, aprovar, terminou se combinando com essa lacuna. Terminou isso não sendo tratado como planejamento urbano. Um centro econômico, um centro de serviços, dialoga imediatamente com a mobilidade urbana. Tem que pensar nisso. Descentralizar até para tirar esse congestionamento que tem na cidade. Não é congestionamento de trânsito, é de serviços. Todo mundo se desloca para um lugar só.

O senhor propõe uma redistribuição espacial da cidade?
Espacial, do transporte, de mobilidade, de serviços. Então é importante que a gente trabalhe nisso, até pra você levar vida para os outros bairros.

Houve conflitos na atual gestão, e também na do ex-prefeito Antonio Imbassahy, em relação aos choques do crescimento da cidade com o patrimônio histórico.
Quero fazer essa discussão: o PDDU não trata do nosso Centro Histórico. Não admito que o centro histórico seja um Vaticano dentro da cidade do Salvador. "Não tenho nada a ver com isso, é com o Estado..." De jeito nenhum. Não vou tratar isso como o Vaticano. Quero me envolver com os projetos de revitalização, de recuperação. Quero participar, opinar, interferir. Por exemplo, eu não concebo revitalizar o centro sem mexer com gente. Como é que você revitaliza o Centro Histórico? Na minha opinião, o remédio utilizado no passado foi um remédio errado. Revitalizou, mas não mexeu com gente.

O modelo do Pelourinho fracassou?
Acho que um dos pontos centrais foi esse: você não tem vida. De noite, se acaba. O Comércio (bairro da Cidade Baixa) é isso. Precisamos combinar moradia, lazer, serviços. E até serviços públicos. Quero levar diversos órgãos de serviços públicos municipais para dentro do Centro Histórico.

E a ocupação da Orla? Há casos como a liberação de um flat no mar, na avenida do Contorno, num trapiche em cima da Baía de Todos os Santos, além de outras liberações desordenadas...
Tem esse problema e o do abandono da nossa Orla, não só a do Atlântico, mas da baía de Todos os Santos, no subúrbio, uma orla que deveria ser melhor qualificada, pra servir como espaço de lazer e de turismo. São coisas importantes pra cidade do Salvador.

Um região com resquícios de Mata Atlântica, como a Avenida Paralela, está sendo devastada por empreendimentos imobiliários. Qual sua proposta para o meio ambiente?
Isso também dialoga com o PDDU. Estou chamando nosso projeto de "Cidade Verde". Tem algumas áreas da cidade que precisamos transformar em parque, como Ipitanga, interligar os parques da cidade através de ciclovias. Salvador tem muitos parques, é importante que eles sejam reativados. A preservação do verde é uma coisa fundamental. E aproveitar o investimento de mais de R$ 300 milhões que o governo federal vai fazer na cidade, na área de saneamento. Não se pode dizer que é obrigação do (governo do) Estado. Tem que participar.

Há um estrangulamento financeiro em Salvador, que pode inviabilizar esses projetos. Quais são as alternativas fiscais do senhor?
Salvador é uma cidade que arrecada mal, vive com mais de 50% do seu orçamento que vem da União. Se isso é verdade, tem que fazer projetos com aquilo que eu lhe disse antes, aproveitando as oportunidades. O PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), a Copa de 2014... Temos que saber trabalhar direitinho, ter um prefeito que saiba se articular pra aproveitar a Copa e atrair recursos pra cidade. Salvador não tem capacidade de investimento. Esses tem que ser eventos que o prefeito deve trabalhar pra trazer essa leva de recursos pra superar essa incapacidade de investir. Não pode perder essa oportunidade.

O que o diferencia, essencialmente, de João Henrique?
Essa diferenciação tem a ver com a experiência que a gente acumulou no parlamento, nessa área do orçamento. A experiência pra poder combinar com o que a gente tem feito no governo federal, a experiência de algumas ações do PT, como em Belo Horizonte e Vitória da Conquista, na Bahia. Esse diferencial de você ter capacidade de articular essas diversas experiências, de se articular com o governo federal e o do Estado, a priorização de projetos... De liderar esse momento, não perder essa oportunidade. São atributos importantes para a gestão.

No horário eleitoral, o senhor disse que 70% da cidade reprovou a atual administração, no primeiro turno. Pode explicar melhor essa interpretação?
Se você pegar o resultado do processo da eleição, 70% do eleitorado, na realidade, disse: "Quero uma opção diferente". Você pode tomar pelo lado positivo, não quero dizer "rejeitou" o outro. Mas é uma coisa diferente. Esses 70% são os meus votos, de ACM Neto, de Imbassahy, de Hilton. Esses 70% colocaram um posicionamento de que querem uma diferença, o novo. Vamos dialogar com esses 70% e os outros 30%, pra enxergarem que o nosso projeto tem confiabilidade, vai trazer segurança, articulação, pra aproveitar muito bem essa oportunidade que os governos federal e do Estado podem disponibilizar pra Salvador.

 
João Alvarez/Divulgação
Walter Pinheiro (PT) critica a aprovação apressada do Plano Diretor Urbano de Salvador e a falta de "articulação política" do adversário João Henrique (PMDB)

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