
Atualizada às 09h46 |
Carlos Barria/Reuters
Colunista: "Sarah Palin é a prova viva da fala de Schiller, que disse que, contra a estupidez, até mesmo os deuses lutam em vão"
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Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo
Um dos meus filósofos prediletos se chama ou se chamava Democritus, era um bom materialista e acreditava que tudo é convenção, exceto os átomos e o espaço. Ou seja, beleza, feiúra, bondade, ruindade de beliscar criancinha, tudo, tudo apenas convenção. Na realidade, existem apenas átomos e espaço.
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Penso nisso enquanto assisto a essa tal de crise global da economia americana demolindo os meus fundos desonestamente adquiridos, minha aposentadoria em alguma praia da Sardenha virando apenas isso, alguns átomos de moeda local e muitos espaços vazios de significado ou liquidez entre eles.
Por convenção tínhamos crédito fácil para comprar imóveis supervalorizados. (Nós, não, eles. Eles tinham e usavam.) Por convenção as ações na Bolsa não paravam de subir, sem que se pudesse entender afinal por que a Petrobras subitamente valia uns trocentos por cento a mais, assim, sem mais. Por convenção os executivos do setor financeiro amealhavam milhões em bônus sobre lucros inexplicados, ou os mesmos bônus na ausência de quaisquer lucros minimamente comprováveis. Por convenção o mundo se movia, e nós, de um jeito ou outro, íamos junto.
A crise serve para nos lembrar de como somos frágeis, de como nossos sonhos são pouco mais do que isso mesmo, sonhos. Crises servem para lembrarmos de Marx e do que ele dizia sobre a modernidade essa época na qual tudo que é sólido se desmancha no ar.
Nada é sólido, a não ser os átomos, e se eles são sólidos, são também invisíveis. Solidez, onde? Estamos condenados a viver entre crenças e a demolição delas, a cada crise. Agora então, que o Brasil começa a deixar pra trás o passado e parece construir o tal futuro no qual todos seríamos felizes, ou conseguiríamos pagar a prestação da geladeira, pimba: crise mundial, das maldosas, das peçonhentas, mais uma contribuição do governo Bush para a felicidade de todos.
Estávamos crescendo numa boa, no ritmo gostoso dos cinco por cento ao ano, mais uma geração e lá estarímos nós, brazucamente primeiro-mundializados. Os ricos na mesma de sempre, mas a classe média crescendo, classe pobre encolhendo e o PFL se extinguindo. O futuro andava se apresentando como um ótimo lugar onde se viver. Justo nesse instante aparecem quem? Crise global e, ainda por cima, a Sarah Palin.
Sarah Palin é a prova viva da fala de Schiller, que disse que, contra a estupidez, até mesmo os deuses lutam em vão. Sarah Palin falando e sendo ouvida demonstra como os americanos podem ser assustadores, mesmo que em uma relativa decadência econômica. Sarah Palin é uma piada que não deu certo, porque a gente tenta rir e não consegue. E ela pode, num mundo longe da perfeição, como o nosso, virar presidente dos Estados Unidos, com a implosão da Terra sendo um dos privilégios do cargo.
Nessas horas, em que a coisa toda parece feia, surge a solução. Se a camada de gelo derrete, se os ursinhos polares se juntam aos pandas e os miquinhos; se a economia global resolve pedir asilo político na Suíça, nulo problemo! Basta a gente ir ali adiante e trocar de planeta! Tão simples, tão elegante. Rabo de foguete, espaçonaves feitas pela Alstom com a colaboração do governo de São Paulo e pronto, vamosimbora, que a coisa aqui tá pegando.
Mas claro que há um probleminha nisso tudo: trocar de planeta não é apenas difícil, mas impossível, dizem. Terra e vizinhos ficam muito mais distantes do que supõe a nossa vã astronomia de colégio. Nosso código genético seria fritado pelas radiações solares, nossa pele se ressecaria muito no frio interestelar, nossa paciência acabaria muito antes da programação de tevê à bordo, nunca poderíamos chegar a Marte, e mesmo que isso fosse possível, adivinhem: a vida lá seria ainda mais impossível e insuportável do que na Terra, além de sabermos que muito provavelmente a Sarah Palin seria a primeira a desembarcar, feliz com a viagem e cheia de curiosidade sobre a vida animal marciana, que ela iria exterminar na base do tiroteio ou da guerra bacteriológica.
Ao que parece, estamos condenados a ficar por aqui mesmo e termos que lidar com o aquecimento global, com a Sarah e com o funk carioca. Temos que criar soluções, de um jeito ou de outro.
Acho que dessa vez seria bom lembrarmos do Democritus e criarmos um sistema baseado na realidade mais básica e simples, dos átomos e espaço; em vez de acreditarmos de novo nas maluquices produzidas em Wall Street para a felicidade de todos com uma boa conta bancária e nenhuma idéia na cabeça. Precisamos de mais bom senso, é o que eu quero dizer. Precisamos resgatar o porquinho da poupança e redescobrirmos a economia real. Precisamos dar um jeito de mandar a Sarah de volta ao Alasca. Precisamos produzir mais e inventar menos. Precisamos de um século 21 com mais cara de século 5 antes de Cristo, quando Democritus era o cara. Precisamos das nossas avós no comando do Banco Central, de um forno de pão e uma horta doméstica em cada casa ou apartamento.
Precisamos de coisas concretas, tijolos, brita, e menos imaginação. Precisamos pagar as contas e, para isso, de um mundo criado à imagem de uma boa canja de galinha. Minha avó não via defeito algum nisso, e minha avó Jovita era a personificação do que pregava Democritos. Juntem-se todos a essa campanha e vamos salvar o mundo enquanto há tempo, enquanto ainda há espaço e, mais importante, enquanto ainda temos átomos. Daqui a pouco a Palin ganha a eleição, pisca o seu agora famoso piscar para a gente e, então, puff, acabou.
Terra Magazine