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Sábado, 11 de outubro de 2008, 07h51 Atualizada às 19h00

Histórias que vou contar aos netos

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À beira do fogão.  A história da Branca de neve e os sete anões inspira o Dia das Crianças
À beira do fogão. A história da Branca de neve e os sete anões inspira o Dia das Crianças

Lecticia Cavalcanti
Do Recife (PE)

Cada um de nós guarda, na memória, histórias que ouviu de pais, avós ou velhas amas. Lendas antigas, quase todas, adaptadas pelos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm ou por Charles Perrault. Nelas estão sempre juntos, expressando a própria dualidade da natureza humana, o bem e o mal, o belo e o feio, trabalho e preguiça, sonho e realidade, tristezas do passado e promessas do futuro. Além de um cortejo, hoje fora de moda, reunindo bruxas, duendes, fadas, madrastas ruins, enteadas inocentes, princesas que sofrem e príncipes encantados em busca do verdadeiro amor. O povo não, que nesse tempo ainda não era reconhecido como protagonista social importante. Essas histórias retratam uma época - vícios, virtudes, costumes, trajes, sabores também. Com os alimentos, muitas vezes, influenciando a caracterização do próprio personagem.

Branca de Neve, por exemplo, cumpriu seu destino ao comer maçã envenenada, oferecida pela madrasta disfarçada de velhinha indefesa - inconformada por ser, aquela menina de olhos pretos e lábios vermelhos, a mais bonita do reino. E sabia disso porque perguntava, a um espelho mágico - "espelho meu, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?", todos lembram isso. Enquanto Cinderela cruzou com uma fada boa, que transformava trapos em vestidos de festa, ratos em cavalos e abóboras em carruagem. Foi a uma festa, perdeu o sapato e acabou casando. Por falar nisso, essas duas heroínas - uma branca como a neve, outra de pés bem pequenos, segundo se supõe, eram mesmo chinesas. Primeiros prenúncios de uma China que depois explodiria, em um mundo já globalizado.

Voltando aos contos, temos também a Bela Adormecida - que, dormindo, esperou quase cem anos por um beijo de amor; culpa de outra fada, agora vingativa, que não foi convidada para o banquete oferecido pelo pai no dia de seu nascimento. Chapeuzinho Vermelho atravessou a floresta para levar, a uma avó doente, cesta com broa, manteiga e geléia; sendo essa avó, e ela própria, devoradas por um lobo mau e faminto. Depois um lenhador matou esse lobo e tirou, de dentro de sua barriga, a velha e a neta. Vivinhas, bom lembrar. Nada a estranhar. Se Jonas viveu dias dentro de uma baleia, porque não poderiam as duas descansar dentro dos intestinos de um lobo? Já o Pequeno Polegar, apesar do tamanho, era um menino esperto que usava migalhas de pão para marcar o caminho de volta para casa. João e Maria foram seduzidos por uma casa feita de biscoitos, doces e chocolates. Enquanto outro João plantou grãos mágicos, à noite, que de manhãzinha se transformaram em um enorme pé de feijão; aproveitou, subiu nele até o céu, e recuperou a galinha dos ovos de ouro e o saco de moedas que o gigante havia roubado de seu pai.

Não só reis e princesas são personagens dessas histórias. Também os bichos, em fábulas imortais. Como a cigarra saltitante, que passa o tempo cantando pelo bosque, sem se preocupar com o futuro; enquanto a formiguinha armazenava comida para o inverno - depois salvando aquela cantora com uma "sopa quente e deliciosa". Ou a vaidosa raposa que, não reconhecendo suas próprias limitações, desistiu dos cachos de uvas pretas e maduras. Ou a Galinha Ruiva, que cansou de pedir ajuda aos amigos (o cão, o gato, o peru e o porco) para plantar um grão de milho, semear, debulhar, moer a farinha, preparar e assar esse bolo; só não faltando, esses amigos, quando se tratou de degustar o bolo. Personagens, todos eles, com características que identificamos em pessoas à nossa volta.

Walt Disney, já no séc. XX, seguiria essa trilha; e, em "A Dama e o Vagabundo", desenhou a cadelinha Lady se apaixonando por um vira-lata que a leva para jantar nos fundos da cantina italiana do amigo Tony - onde comem, no mesmo prato, uma deliciosa macarronada e dão o primeiro beijo. Inocente, é certo, próprio dos filmes "censura livre" - em nada lembrando aquele tórrido de Déborah Kerr e Burt Lancaster, em "A um Passo da Eternidade". Popeye era um marinheiro de braços fortes, apaixonado pela magrela Olívia Palito; que, para enfrentar o inimigo Brutus, consumia quilos de espinafre. Enquanto o coelho Pernalonga gostava não de espinafre, mas de cenouras; e, talvez, por isso, não tinha medo de nada nem de ninguém. Mais tarde, esse coelho cinzento foi escolhido, nos Estados Unidos como o melhor personagem de desenho animado de todos os tempos.

Entre essas histórias, vale por fim lembrar o mais moderno de todos os contos de fadas - "Alice no País das Maravilhas", de Lewis Carroll. Nele, a pobre Alice, ao cair em um poço, passou por vidro de geléia de laranja vazio; e, quando chegou ao chão, encontrou sobre a mesa uma garrafa com rótulo "Beba-me". Bebeu. O sabor do líquido, segundo ela, era "uma mistura de torta de cereja, creme de leite, suco de abacaxi, peru assado, doce puxa-puxa e torradas quentes com manteiga". Mas essa bebida, mesmo saborosa, a fez encolher "ficando com uns vinte e cinco centímetros". Na mesma mesa, junto à garrafa, um bolo com a indicação "Coma-me". Comeu. E aconteceu o contrário, com ela crescendo tanto "que quase perdeu os pés de vista". No conto, ainda se vê outras referências alimentares: como o chá que tomou com a Lebre de Março e o Chapeleiro, a sopa com pimenta, a falsa sopa de tartaruga, e a "grande travessa cheia de tortas" feitas pela rainha de Copas.

Agora estou juntando todas essas histórias, com cuidado. Sobretudo aquelas em que se fala de alimentos - que espero contar, à beira do fogão, para meus netos. Começando por Luiza. A ela, e a todas as crianças do mundo, nosso carinho por amanhã - 12 de outubro, dia das crianças.

P.S. Haverá algum dia, nesse mundo de Deus, que não deva ser "das crianças"?

RECEITA: SOUFLÊ DE CHOCOLATE

INGREDIENTES:

2 colheres de sopa de manteiga, 3 colheres de sopa de trigo, ¾ de xícara de leite, ½ xícara de chocolate meio amargo picado, 4 gemas (bem batidas), 4 claras, ¼ de xícara de açúcar, ½ colher de chá de baunilha, sorvete de creme e calda de chocolate

PREPARO:

* Em panela derreta a manteiga, junte a farinha e cozinhe por 5 minutos. Depois coloque o leite e mexa, até que engrosse. Retire do fogo e acrescente o chocolate e as gemas (bem batidas). Reserve.

* Bata as claras em neve, junte o açúcar. Junte à mistura anterior. Coloque baunilha e distribua a mistura em forminhas individuais (ramequins). Asse até que esteja dourado.

* Sirva assim que estiver pronto. Acompanhado com sorvete de creme e calda de chocolate.

Lecticia Cavalcanti coordena o caderno Sabores da Folha de Pernambuco, escreve na Revista Continente Multicultural e no site pe.360graus.

Fale com Lecticia Cavalcanti: lecticia.cavalcanti@terra.com.br

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