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Quarta, 15 de outubro de 2008, 08h04

A foice, o martelo e o metrô

Reuters
Em movimento.  Durante as Olimpíadas, as televisões do metrô exibiam cenas dos jogos. Hoje se voltam à publicidade
Em movimento. Durante as Olimpíadas, as televisões do metrô exibiam cenas dos jogos. Hoje se voltam à publicidade

Felipe Corazza Barreto
De Pequim

O metrô de Pequim foi quase todo renovado para os Jogos Olímpicos. Os trens mais novos vêm equipados com telas de televisão que ajudam a completar o cenário "1984" já habitual. Antes dos Jogos, tais máquinas transmitiam aos locais regras dos esportes e cenas de Olimpíadas passadas. Durante o período "mágico", imagens reprisadas dos atletas chineses recebendo medalhas e mais medalhas faziam a alegria de quem se apertava nos vagões rumo ao trabalho ou voltando dele.

Terminados os Jogos Olímpicos - aleluia! -, as telas do metrô começam a sua função quase óbvia: propaganda. Em um trajeto de 20 minutos, uma senhorita muito bonita, em uma casa quase tão branca que até dói nos olhos, mostra como é fácil retirar a sujeira do vaso sanitário com um certo produto. Como propaganda pouca é bobagem, ela prova que o troço limpa mesmo passando o dedo pela parte de dentro da privada. Publicitários na China têm idéias estranhas.

Em seguida, outra senhorita exalta as maravilhas de um complexo vitamínico - sinais dos tempos - que, pelas imagens, torna viagens aéreas extremamente agradáveis e tranqüilas. Ao fim do anúncio, ela dá um tchauzinho para um super-herói verde que acena do lado de fora do avião. Publicitários na China têm idéias realmente estranhas, mas começam a chegar perto dos ocidentais.

A proximidade com as geniais idéias publicitárias ocidentais termina quando, após mais uma senhorita mostrar um produto qualquer na tela, uma foice surge, dourada, brilhante, seguida por um martelo. Quando os dois se juntam, surge mais uma moça, com um vestido de fazer inveja a qualquer debutante de classe média, cantando as glórias da pátria.

Na cena seguinte, a foice, o martelo e a moça são transportados para um campo florido e ali permanecem, a moça cantando, a foice e o martelo reluzindo. Logo, aparecem os companheiros de coro da senhorita cantante. O grupo tem pessoas vestidas com trajes típicos de cada etnia minoritária da China. Sob a foice e o martelo, todos estão unidos harmoniosamente, ainda que as etnias minoritárias tenham sido reduzidas a pouco mais de 5% da população do país.

Saindo do ambiente campestre, a música continua, mas as cenas, agora, são dos modernos prédios das cidades mais pujantes da China. A arquitetura dos edifícios é hedionda, como em quase todos os centros financeiros do mundo. Saindo dos prédios de vidro, algumas cenas olímpicas e voltamos ao campo florido, onde a moça, os grupos étnicos, a foice e o martelo ainda estão por ali, cantando e reluzindo.

O espetáculo todo dura coisa de 5 minutos - tempo que, em televisão e no metrô, parece uma eternidade. O único consolo durante a sessão de doutrinação "on the road" é quando você olha em volta e repara que, em um vagão lotado, nem sequer um mísero chinês está dando atenção à tela maldita.


Felipe Corazza Barreto é jornalista, mora em Beijing e ainda está tentando entender aquilo ali.

Fale com Felipe Corazza Barreto: felipecbs08@terra.com.br

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