
Atualizada às 18h19 Amilcar Bettega
De Paris
Agora ela está lá. Ela se chama Sophie. Num café - Florida, talvez, ou Bertoni - da calle Suipacha, em Buenos Aires. Diante dela está Martín, absorto, quase hipnotizado pelo movimento dos seus lábios que despejam palavras sobre a pequena mesa de mármore encardido e pé central em ferro forjado.
(não, as palavras não são despejadas sobre a mesa; elas sobem como bolhas, sem peso, na atmosfera densa de vapores, barulho de louça e colheres e um zunzum de vozes que se elevam em direção ao teto do café, onde um ventilador quase adormecido mal move suas pás de madeira em meio à fumaça)
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Sophie está lá e enfim ela fala. Martín recebe suas palavras, persegue-as, tenta apreendê-las antes que se dissipem no ambiente confuso do café.
(as palavras de Sophie se dissipam no ambiente confuso do café)
Um dia, quem sabe, quando tudo estiver longe o bastante para que possa localizar no tempo e no espaço aquele episódio, já parte da sua história pessoal, ela dirá, confundida com o curso das estações no hemisfério sul: "no verão de 2006, em Buenos Aires...". E então algumas das palavras que agora ela diz a Martín,
(não é a Martín que ela diz; Sophie não fala para Martín; é possível até que, para ela, a presença de Martín seja inteiramente ignorada - quem é Martin?, ela poderia dizer nesse instante, tomada por sincera surpresa - ou, ao menos, invisível)
as palavras que agora ela diz a Martín poderão ganhar corpo no relato que ela fará deste período nebuloso: "no verão de 2006, em Buenos Aires...". E como se fosse uma revelação, como se algo se rompesse e destravasse, enfim, aquele momento de imprecisão no já distante "verão de 2006, em Buenos Aires...", todas as palavras que agora se dissipam no ambiente confuso do café serão recuperadas por uma espécie de iluminação posterior e se recomporão numa evidência quase constrangedora, tamanha a limpidez e simplicidade como as coisas se explicarão.
As palavras inaudíveis de Sophie, seu discurso ao qual Martín se agarra com todas as forças, que sabe serem insuficientes, as palavras perdidas de Sophie que o movimento dos seus lábios derramam no ambiente confuso do café, pequenas bolhas que envelopam o som da sua voz e que vão estourar contra as pás de madeira do ventilador de teto que mal se movem em meio ao ar espesso do café, tudo o que não é possível ouvir daqui onde estamos (eu, Martín, você mesmo), é tudo o que um dia vai se revelar, quem sabe, quando Sophie acender um cigarro, soltar a fumaça com barulho em direção ao alto após uma longa tragada, e começar: "No verão de 2006, em Buenos Aires..."
Terra Magazine