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Segunda, 20 de outubro de 2008, 08h03 Atualizada às 13h05

Europa é referência para sair da crise

Carlos Drummond
De São Paulo

Agora todos os olhos se voltam para a Europa, quando o assunto é buscar uma saída para a crise financeira e econômica mundial. A imprevisível iniciativa do primeiro-ministro britânico Gordon Brown, de tomar participações acionárias e capitalizar os bancos ingleses destroçados pelo terremoto de epicentro americano, abalou paradigmas do monetarismo e do neoliberalismo. Foi além disso, tornando-se referência para ação inclusive nos Estados Unidos. Até então, o máximo a que se havia chegado na terra de Tio Sam era a recompra, pelo Tesouro comandado por um ex-corretor de Wall Street, dos títulos podres anabolizados por Wall Street.

Ridicularizado pelos tycoons de Wall Street e por sua claque mundial pela lentidão em inovar, resistência em desmontar o que sobrou do estado de bem estar social e persistência do desemprego, o velho continente se vê, de repente, no centro das atenções. Os defeitos tornaram-se virtude. A prudência e, principalmente, a insistência em manter redes de proteção social superiores às da América, passaram a ser louvadas. A sonolência, desconfia-se agora, talvez fosse, na verdade, matreirice.

A impressão de que mais luzes deverão vir da ribalta européia é reforçada por propostas como a formulada pelo presidente francês Nicolas Sarkozy, de que os principais países emergentes, Brasil incluído, tomem assento à mesa das decisões mundiais no enfrentamento da crise. A idéia de Sarkozy e de Brown, de reeditar Bretton Woods, vai na mesma direção. O nome adveio da cidade americana de New Hampshire onde, em 1944, os 44 países aliados definiram um sistema de coordenação econômica e financeira para sair da crise provocada pela Segunda Guerra Mundial.

Eventuais aplausos americanos a essas proposições não seriam de surpreender, se considerarmos que há 35 milhões de cidadãos sem qualquer proteção social nos Estados Unidos, país em que, nos últimos dois anos, 3,8 milhões de pessoas perderam a suas casas por causa da crise das hipotecas subprime. Nesse aspecto, é preciso reconhecer, o Brasil está melhor do que os Estados Unidos. Do jeito que o mundo anda, não seria de estranhar se, por aqui, o SUS, sistema com deficiências mas verdadeiramente universal, passasse a receber elogios até daqueles que nunca precisaram dele mas sempre o combateram. Tampouco causaria espanto se a não privatização do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal e do BNDES começasse a ser louvada, principalmente na hora do socorro, por essas instituições, do sistema privado.

O fato de a ideologia neoliberal-monetarista não ter penetrado tão fundamente na Europa quanto na América explica parte da sua capacidade de reação na crise. A formatação do poder europeu, com decisões necessariamente compartilhadas, desde o início, no que se refere a política, a economia e a gestão monetária, possivelmente contribuiu para consolidar uma postura menos monolítica do que a americana, em que FED, Casa Branca e Wall Street compõem, na prática, um mesmo organismo político econômico.

No mínimo, pode-se dizer que o desconfiômetro europeu é bem mais desenvolvido do que o norte-americano. Exemplo 1: aflora na imprensa britânica a impressão de que as dimensões da crise exigiriam medidas ainda mais radicais do que as já tomadas por Brown. Uma delas seria a estatização completa de grandes bancos. Exemplo 2: intelectuais ingleses têm recomendado a releitura não só do redescoberto economista americano Hyman Minsky (Stabilizing an unstable economy), mas também do antropólogo austríaco Karl Polanyi (A grande transformação) e do jornalista americano Thomas Frank (Deus no céu e o mercado na terra). Os três autores, em momentos diferentes, criticaram com grande acuidade o sistema econômico vigente.

Manter o desconfiômetro ativo é recomendável no momento em que, de acordo com alguns cálculos, o rombo do sistema financeiro mundial estaria em torno de 57 trilhões de dólares, dez vezes mais do que toda a ajuda concedida até agora pelos governos ao sistema privado.

Carlos Drummond é jornalista. Coordena o Curso de Jornalismo da Facamp.

Fale com Carlos Drummond: carlos_drummond@terra.com.br

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