Atualizada às 10h01 |
Richard Drew/AP
Pra baixo. Mercados internacionais em queda e cidadãos comuns preocupados, quando não em depressão; crise financeira pode interferir em questões de saúde pública, alerta diretora da OMS
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Javier Dario Restrepo
De Bogotá
Para autoridades da Organização Mundial de Saúde (OMS), a crise financeira global trouxe uma nova preocupação: o aumento da ocorrência de suicídios, como se junto da desvalorização da bolsa, se intensificasse a depreciação do valor da vida.
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A mulher de Ohio, nos Estados Unidos, que aos 90 anos decidiu se matar quando foi notificada de que havia perdido sua casa, onde havia vivido por 38 anos, foi um caso relativamente benigno se comparado com o do consultor financeiro, nascido na Índia, Karthik Rajaram, que foi encontrado morto junto com sua esposa, seus três filhos e sua sogra, depois de ter perdido tudo o que tinha, até o emprego, conseqüência do colapso financeiro.
Numa carta na qual prenunciava o próprio suicídio e os cinco assassinatos, Karthik sinalizava como causa a incapacidade de superar com vida os efeitos do fracasso de seus negócios, para ele e para sua família.
"São conseqüências da crise, que multiplicarão os suicídios e os transtornos mentais", anuncia alarmada Margaret Chan, diretora da OMS.
Para esta entidade, o suicídio é um indicador de um problema de saúde pública e traz à tona riscos psico-sociais tão graves como os que põem em perigo a integridade física das pessoas, portanto, deve-se deixar de considerar o suicídio como tabu ou como exclusivamente efeito de uma crise.
Pesquisas realizadas na Colômbia confrontam-se entre as que dão conta de que os colombianos são os mais felizes da América Latina e as que apontam para altos índices de suicídio associado a uma surpreendente cifra de transtornos mentais atribuídos à violência. A pesquisa do ministério de Saúde sobre a saúde mental na Colômbia revela que 26 milhões de colombianos tiveram relação com alguma ameaça, seqüestro, homicídio, morte natural ou acidental, ou algum suicídio, e que este fato proporcionou um sentimento de raiva em 24,5% das pessoas, de desolação em 37,7% e amargura em 8,6%.
Tem a ver essa situação com esses 1771 suicídios registrados em 2007? Segundo explicam as autoridades, os grupos mais propensos ao suicídio na Colômbia são os maiores de 60 anos e as crianças a partir de 10 anos. Nestre grupo infantil, o suicídio é a terceira causa de morte. Desde 1918, quando o país registrou com surpresa o suicídio de um garoto de 10 anos, a situação mudou para pior.
Os especialistas discutem, repassam estatísticas e histórias e propõem explicações: o suicídio de crianças tem a ver com a Internet? A surpreendente hipótese encontra apoio em dois feitos: a Internet isola, torna frágeis e quebradiços os vínculos com os demais. O contato virtual que causa é uma débil relação que não substitui o vínculo do encontro real com os outros; mas é mais contundente o outro fato que qualquer um que digita a palavra suicídio em mecanismos de busca pode comprovar. Entre as opções que se abrem aparece "técnicas de suicídio" ou modos de deixar a vida. Se põem ao alcance de qualquer solitário explorador.
Outros especialistas atribuem o aumento dos suicídios de crianças à violência familiar e esse fatos coincide com os que explicam suicídios de idosos por sua situação de abandono da vida social e familiar, e a violência que se exerce contra eles. As cifras são assombrosas: nos últimos dois anos quadruplicou o número de idosos vítimas desta enfermidade social. Este é o termo que os especialistas usam para denominar essa atitude autodestrutiva que fica mais aguda nos tempos de crise na sociedade.
Ao lado dos especialistas que tratam de conjurar os demônios soltos da recessão e das quebras em cadeia, as autoridades da saúde pública têm acendido a luz vermelha pelo que pode acontecer com todas essas pessoas que desfrutavam dos outros em paraísos de consumo em que foram convertidos os países desenvolvidos e de altas classes.
Acostumados com as delícias que os créditos generosos colocavam ao alcance de suas mãos, as fáceis hipotecas e o dinheiro, hoje elas não conseguem resolver o conflito emocional que traz a venda do iate e a impossibilidade de reavê-lo; ou a substituição do carro de luxo por um mais modesto, ou a necessidade de abandonar o faustoso apartamento. Instalados em um modo de vida confortável que eles presumiam imutável e seguro, nunca elaboraram um plano B que lhes serviria de alternativa.
Em 1929, pela falta desse plano, algumas das vítimas da quebra geral optaram por saltar das janelas, como os indígenas que partiam em massa para os abismos ou se enforcavam diante da quebra que significava para eles o domínio do invasor espanhol; ou como os romanos que expunham no senado suas razões para deixar a vida, como o argumento para obter licença de suicídio.
Diante desta quebra do valor da vida - que não tem ações em Bolsa, mas que explica o que ali se joga - a OMS e todos os que velam pela saúde humana enfrentam a necessidade de um plano B, que seja uma alternativa ao desespero dos novos pobres: pôr ao seu alcance motivações para viver que não sejam o dinheiro; valores de sobrevivência em meio à crise, ou simplesmente, um pouco de esperança.
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