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Sábado, 25 de outubro de 2008, 07h55

DVD: Objetos subaquáticos não-identificados

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo


O Segredo do Abismo: Versão Estendida (The Abyss)

Escrito e dirigido por James Cameron. 20th Century Fox, 1990. Distribuição da Fox do Brasil. EUA, 171 minutos. Produzido por Gale Anne Hurd. Com Ed Harris, Mary Elizabeth Mastrantonio, Michael Biehn, Todd Graff, Leo Burmester, John Bedford Lloyd e Kimberly Scott.

O Segredo do Abismo foi um filme caro e sem grande sucesso comercial - o que, não custa repetir, nem sempre significa que se trata de um fracasso artístico. Ao contrário, este pode ser o melhor filme de James Cameron, diretor que, com O Exterminador do Futuro (1984) impulsionou a mistura da FC e do filme de ação, no cinema americano. E consta que Cameron teria usado O Segredo do Abismo como balão de ensaio para as técnicas de filmagem que empregaria no seu mega-sucesso planetário, Titanic (1997).

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Abre com a tripulação de um submarino nuclear americano (armado com mísseis atômicos) fazendo contato de sonar com um objeto submarino desconhecido, que se move a uma velocidade impossível, e que, por alguma razão, interfere nos sistemas da embarcação, levando-a a se chocar com a parede da Fossa Abissal das Caimãs, no fundo do Mar do Caribe. Seus documentos e códigos precisam ser recuperados, e a Marinha Americana conta com uma tropa especializada nesse tipo de resgate, os SEALs (sigla de Sea, Air and Land). Mas um furacão está a caminho, e a solução mais rápida é colocar uma equipe SEAL numa plataforma petrolífera submarina experimental chamada Deepcore, atada por cabos ao navio Benthic Explorer (a palavra "benthic" se refere à camada mais profunda de um volume de água como um mar ou lago), que já se encontra nas proximidades da Fossa das Caimãs.

Deepcore foi concebida por Lindsey Brigman (Mary Elizabeth Mastrantonio), e é comandada por seu marido, Virgil "Bud" Brigman (Ed Harris). O casal, na verdade, está à beira de um divórcio e não se vêem mais. Ao ser avisada da solicitação da Marinha, ela desce até a plataforma juntamente com a equipe SEAL liderada pelo Tenente Hiram Coffey (Michael Biehn, que trabalhou com Cameron em O Exterminador do Futuro e que fez o papel de líder de equipe SEAL também nos filmes Navy SEALS e The Rock, no Brasil, Comando Imbatível e A Rocha, respectivamente).

Na descida, Coffey é vitimado pela Síndrome Nervosa de Alta Pressão, tornando-se virtualmente num assassino paranóico, armado e solto dentro das instalações da plataforma. Para complicar ainda mais a vida do pessoal da Deepcore, e do espectador que não entende que a ficção científica pode se apresentar em todo tipo de cenário e se harmonizar com todo tipo de contexto (como um de aventura e de romance, presentes neste filme), a brutalmente pragmática Lindsey tem um avistamento submarino - ela vê aquilo que o personagem "Hippy" Carnes (Todd Graff), um aficcionado por ufologia e teorias de conspiração, chama de OSNI: um objeto subaquático não-identificado.

Complicações incluem um tripulante da Deepcore entrando em coma depois de se deparar com um encontro com um dos alienígenas, um acidente com a plataforma submarina que mata vários outros tripulantes, a aproximação de submarinos soviéticos (a União Soviética ainda existia em 1990) - o que agrava a paranóia de Coffey e leva as grandes potências à beira de uma guerra nuclear. Os heróis especulam que os ETs estariam vivendo incógnitos no abismo marinho, que possuiria condições ambientais semelhantes às do seu mundo natal.

A ficção científica tem uma longa tradição de histórias que exploram o primeiro contato entre a humanidade e alguma espécie alienígena. A antologia Contact (1963), editada por Noel Hayes, traz sete histórias em que o ser humano é o descobridor - entre elas o clássico "Primeiro Contato", de Murray Leinster -, e cinco em que nós é que somos descobertos.

Um modo de enxergar certas histórias de FC ufológica seria vê-las como narrativas de primeiro contato "não-oficial", como ufólogos e adeptos das teorias de conspiração imaginam que teria ocorrido secretamente entre ETs e o governo americano, por exemplo. E se a população de uma cidade inteira têm contato com alienígenas, como no ótimo conto "A Nuvem" (1994), de Ricardo Teixeira, mas esse conhecimento não se torna amplo, aceito por todos, temos outro exemplo de contato não-oficial.

O curioso a respeito de O Segredo do Abismo é que a versão com cortes, exibida nos cinemas, estaria dentro dessa categoria. Já a "versão entendida", ou sem cortes, pertence ao subgênero do primeiro contato, pois o que foi cortado é justamente um subenredo em que ocorre uma escalada da tensão entre as potências nucleares. Essa versão termina com uma intervenção tão conspícua da parte dos alienígenas, tão global no seu alcance, que fica claro que nada mais será o mesmo e que a espécie humana foi apresentada a um novo interlocutor.

Na minha opinião, a última "era de ouro" no cinema americano de ficção científica aconteceu entre 1977 e 1990, e O Segredo do Abismo é um dos seus melhores exemplos. Filmado quase totalmente debaixo d¿água, com submersíveis, trajes de mergulho e robôs submarinos funcionais, ele nos leva a um lugar que a FC pouco explorou no cinema, nos dá a sensação de estarmos de fato perante uma tecnologia submarina funcional, traz uma mensagem pacifista e uma nova classe de alienígenas. Mais importante, porém, é a interação entre os personagens que nos dá um filme de FC acima da média, digno de figurar num rol que inclui Guerra nas Estrelas, Alien, Jornada nas Estrelas: O Filme, O Império Contra-Ataca, Scanners, Starman, Outland, Blade Runner, Inimigo Meu, O Enigma de Outro Mundo, e tantos outros. Harris, Mastrantonio e Biehn são atores de primeira linha, que dão consistência a quase tudo o que fazem. Harris, especialmente, dá credibilidade e um brilho particular não apenas ao seu personagem, mas à sua interação com todos os outros. Os coadjuvantes, porém, são aquela mixórdia de babacas e palhaços que costumavam funcionar bem para cativar um platéia adolescente, mas que dificilmente se poderia esperar como tripulantes de um protótipo revolucionário de plataforma submarina valendo centenas de milhões de dólares - ou, pior ainda, salvando a Terra do choque de um cometa, como em Armageddon (1996).

O Segredo do Abismo teve uma "novelização", escrita por Orson Scott Card e publicada no Brasil também em 1990, pela Editora Record. Ao contrário do que acontece com a maioria das novelizações (adaptação de um filme para a literatura, do inglês novelization, uma palavra que seria traduzida literalmente como "romantização", termo que realmente não pega bem em português), que são adaptações do roteiro e geralmente superficiais e com disparidades substanciais em relação ao que se vê na tela, Card teve acesso às filmagens e produziu um romance robusto e em tudo eficaz como literatura.

Esse tipo de colaboração só havia ocorrido antes na parceria Clarke/Kubrik, em 2001: Uma Odisséia no Espaço (1969). No livro, Card aprofunda ainda mais a caracterização dos personagens, tornando-os seus como autor, e ainda mais vívidos, para o leitor. Vale a pena procurar, assim como este DVD com a "versão estendida" de O Segredo do Abismo.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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