
Amilcar Bettega
De Paris
Já não sabia há quantos anos viajava, mas me sentia próximo agora. Desejava alguém que me dissesse se eu estava no caminho certo, porém só via cachorros correndo em sentido contrário ao meu.
Finalmente o grande portão diante de mim. Estranhei que não guardassem a entrada. Fui ingressando devagar, quase não acreditava. As casas eram dispostas em rigoroso quadrado, junto ao muro que cercava toda a aldeia. No centro do imenso pátio interno, erguia-se um tablado a dois metros do chão. Enquanto caminhava, senti que por trás das venezianas das casas os meus gestos eram observados. Tive medo de subir ao tablado sem licença, mas era importante: dali poderia ter uma visão mais ampla das coisas e talvez até vislumbrasse alguma ajuda.
Já havia subido quando percebi o grupo se aproximando. À frente, o mais velho deles - a barba grisalha cobrindo boa parte do rosto e do pescoço, as sobrancelhas negras e altas, como duas manchas na testa. Fiz menção de descer, mas ele ergueu a mão num gesto firme. Tentando um sorriso, falei que estava surpreso com a facilidade para entrar na aldeia.
"Ela sempre esteve aberta a todos", disse o homem, com uma voz que retumbava dentro da minha cabeça.
Houve um silêncio tão grande que me senti obrigado a falar qualquer coisa. Viajara muito para chegar, disse por fim; fora uma viagem difícil; era natural o cansaço, desejava um banho.
Com uma ponta de sorriso atrás da barba, o homem falou:
"Justo agora, após tanto caminhar, tanto sacrifício, justo no momento em que está aí em cima você quer descer?"
Retribuindo o sorriso, eu disse que não, claro que não, e percebi as portas das casas abertas. As pessoas se aproximavam, numerosas.
"Mostre o que você sabe fazer de útil", disse o homem.
Automático, perguntei o que eles gostariam que eu fizesse. O homem olhou para as pessoas que o cercavam, sem dúvida ele tinha um sorriso superior. De volta para mim, ordenou:
"Imite um papagaio".
Achei que fosse brincadeira e comecei a rir. Mas todos estavam sérios. Dei um pigarro e, muito sem jeito, arrisquei um currupaco. A gargalhada foi geral. O homem esperou o silêncio e decretou:
"Sua incompetência como papagaio é digna de repulsa. Tente plantar bananeira".
Ai, meu Deus! Isto sempre fora o meu suplício. Quando menino passava vergonha porque não conseguia nem meio segundo com as pernas para o ar. Tentei, caí várias vezes. As risadas aumentaram. Alguém sugeriu que eu mexesse as orelhas sem tocá-las. E eu devo ter feito caretas horríveis, pois muitos choravam de rir. Pretendia rezar o pai-nosso de trás para frente, mas me perdi no meio. Arremedei o relincho de cavalo, um fiasco.
Quando alguns já rolavam no chão às gaitadas, o homem determinou:
"Abaixe-se e coloque-se sobre as mãos e os pés".
Fiquei de quatro. Ele foi imperioso:
"Dê um latido!"
Baixinho, experimentei. As gargalhadas cessaram de repente, e eu ganhei confiança. Prossegui. Agora me olhavam de um jeito diferente. Lati com gosto, tomado por um sentimento de que era admirado. Pus-me a rosnar e farejar todos os cantos do palco, e depois quedei-me arfante, a língua pendida para fora da boca. O máximo foi quando, sentado, comecei a roçar a orelha com a pata direita.
Tinha a cabeça inclinada e coçava sem parar, quando me jogaram uma pedra. Com um movimento rápido dos quartos, esquivei-me da pedrada, mas deixei escapar um ganido. As pessoas falavam ao mesmo tempo e eu já não entendia. Lati com mais força, tentando impor minha condição diante delas.
Então o homem, braços abertos, dirigiu-se à sua gente - nunca esquecerei a voz grossa e cheia de ecos:
"Cães! Cães! Nós não suportamos estes bichos. Não há nada a fazer além de escorraçá-los. Não há lugar para eles aqui. Não há lugar".
Nem bem ele terminara de falar, um pedaço de pau atingiu a minha pata. Com outro ganido, saltei para o chão e, instintivamente comecei a correr. Gritavam, me atiravam tamancos. Eu não sabia para onde ir. Só queria fugir das pessoas. Quando finalmente cruzei o portão ainda ouvia o zumbido das pedras acima da minha cabeça e o grito dos homens dizendo xô!, passa!, fora daqui!
Terra Magazine