Atualizada às 10h48 Thais Bilenky
Especial para Terra Magazine
Traduzindo ao ocidente, o que se pode considerar ser o Ministro da Felicidade do Butão, Karma Dasho Ura, está no Brasil a título de fomentar no país, e no resto do mundo, a adoção de políticas governamentais que priorizem a felicidade.
A Felicidade Interna Bruta (FIB) é o índice, formado por 73 pontos, que permite ao Ministério do Planejamento butanenese, com patrocínio da ONU (organização das Nações Unidas), calcular o grau de felicidade em que se encontra a população.
Antes de proferir palestra no Sesc Pinheiros, em São Paulo, na quarta-feira, 29, Dasho Ura conversou com Terra Magazine.
"Dasho" é título de nobreza no país. Ura coordena as pesquisas sobre FIB e é ministro do Planejamento do Butão. Segundo ele, a aplicação do índice é necessária "simplesmente porque (a felicidade) é o que todo mundo quer".
Através de pesquisas, feitas a cada dois anos nas ruas do Butão, o governo avalia o grau de felicidade da população e conduz políticas públicas no sentido de alegrar a gente:
"Tudo o que fazemos deve ter como fim a felicidade", diz o ministro.
O Butão fica no alto do Himalaia e ao sul da China. Há vinte anos pesquisa oficialmente a felicidade de seus habitantes. Segundo Dasho Ura, o índice médio butanense atual de felicidade é de 6,5 (numa escala de zero a dez), o que considera uma nota "boa" para um país em desenvolvimento, como é o Butão.
O cálculo do Produto Interno Bruto (PIB), que mede a quantidade de riqueza produzida por uma economia, seria, segundo a lógica do FIB, insuficiente para se avaliar o desenvolvimento de um país. Mesurando valores éticos, atitudes e emoções, o governo soma inteligência à gestão, considera Dasho Ura.
Uma medida posta em prática em muitas escolas no Butão: ensino e exercício de meditação. Constatando o sentimento de frustação entre estudantes, a comissão do FIB decidiu investir no ensino de valores. O ministro justifica:
- É praticamente certo que o rendimento dos alunos aumentou. A meditação deixa as pessoas menos nervosas, mais concentradas e calmas.
Para centros urbanos Dasho Ura recomenda criação de comunidades, como foi feito no Butão. O FIB aponta entre habitantes de cidades alto índice de insegurança e baixa sociabilidade. Por isso encontros comunitários para "celebrações, festivais e trabalhos voluntários", diz o ministro, estimulam laços de amizade.
O custo
Pessoas ricas carecem tanto quanto ou mais de assistência em projetos de implementação do FIB que pobres. Dasho Ura diz que o sentimento de frustração entre abastados é constantemente alimentado pela competição comum ao grupo.
Segundo o raciocínio de Dasho Ura, a igualdade - econômica e social - é fundamental para a felicidade dos ricos. Sentindo que estão fazendo bem a outros e suavizando a rivalidade entre si, indivíduos do topo da pirâmide econômica podem desfrutar mais da vida.
O questionário feito no Sudão para medir o FIB inclui mais de mil perguntas. Nos demais países que estudam sua aplicação - como o Brasil e o Canadá - foi adaptado a cerca de 150 questões, segundo Susan Andrews, psicóloga e antropóloga formada em Harvard, que coordena o projeto brasileiro.
Dasho Ura prefere não avaliar como seria o FIB no Brasil, alegando desconhecimento. Andrews coordena experiência em Angatuba (SP), onde já se fez um levantamento do FIB. As pesquisas indicaram carência de atividades culturais. Em conseqüência, moradores pediram ao prefeito que reative o teatro da cidade, segundo a antropóloga.
Metodologia
Em parte, o cálculo da felicidade é direto. Aos entrevistados, solicita-se que dêem uma nota, de zero a dez, à felicidade que estão sentindo naquele momento. Como este aspecto é completamente oscilante, pregunta-se também a nota de satisfação da vida como um todo.
A outra parte é indireta. O questionário levanta tópicos sobre a situação financeira do entrevistado, seus relacionamentos com amigos e com a familia, saúde, trabalho, padrão de vida, roupas, confiança etc.
Eixos
A filosofia do FIB pressupõe que todos querem ser felizes. Dasho Ura considera que este é o ponto central da questão:
- Não podemos esquecer a expectativa de sermos felizes. Precisamos cuidar do bem-estar, não apenas de dinheiro.
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Thais Bilenky/Terra Magazine
Coordenador do FIB no Butão, Karma Dasho Ura trabalha em seu computador em São Paulo antes de palestra
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