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Divulgação
A atriz Maria de Medeiros define: "o cinema não é feito pra distrair, é para abrir os olhos"
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Claudio Leal
A paixão pelo cancioneiro político dos anos 60 e 70 transformou a atriz portuguesa Maria de Medeiros numa embaixadora informal da música brasileira. Diretora de Capitães de Abril e Je t'aime... moi non plus, ela já gravou o disco A Little More Blue, com as canções centrais de sua formação afetiva, e segue em roteiro internacional para apresentá-las a públicos europeus e africanos.
Nascida em Portugal, criada na Áustria, mas cidadã errante, atualmente residindo em Paris, Maria de Medeiros encerrou ontem, com um espetáculo musical, a Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo. Nesta entrevista a Terra Magazine, comenta seu trabalho como intérprete.
Em seu repertório luso-brasileiro, José Afonso (Coro da Primavera, O Homem Voltou), Chico Buarque (Joana Francesa, Tanto Mar, O que será), Caetano Veloso (A Little More Blue), Ivan Lins (Começar de Novo) e Lenine (Eu Sei).
- Para o público francês, foi uma grande descoberta, porque eles conheciam as melodias, mas não faziam idéia da riqueza poética do conteúdo das canções. Foi uma bela experiência fazer esse espetáculo entre teatro e música - diz a artista portuguesa.
Maria atuou em mais de 50 filmes, entre os quais Henry e June, de Philip Kaufman, Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, A Divina Comédia, de Manoel de Oliveira, O Xangô de Baker Street, de Miguel Faria Jr. Integra o elenco do filme brasileiro O Contador de Histórias, de Luiz Villaça, ainda a ser lançado.
"O cinema não é feito pra distrair, é para abrir os olhos", defende. Em seu recente documentário "Je t'aime...", Maria de Medeiros fez um mosaico da relação entre críticos e artistas, com locações no Festival de Cannes, na França. A atriz estabelece sua experiência pessoal com os manipuladores de cadernos e canetas:
- Ah, eu penso que os atores não são educados pela crítica. Claro que às vezes é educado pela crítica, mas num nível muito superficial: está bem, está mal... Tá novo... (risos) É crítica mais como os franceses desenvolveram e sublimaram: um diálogo com o autor.
Leia a entrevista:
Terra Magazine - Como foi a gestação de seu interesse por música brasileira até fazer um disco?
Maria de Medeiros - Na verdade, descobri a música brasileira tarde, aos dez anos. Porque eu cresci na Áustria, meu pai é um músico clássico (o maestro Antonio Vitorino de Almeida) e então eu ouvi sempre muita música na minha vida. Mas, até os 10 anos, só música clássica. Foi quando voltamos pra Portugal, depois da Revolução dos Cravos, e comecei a ouvir vários tipos de música, entre os quais a brasileira. É engraçado porque, no meu espírito, a música brasileira sempre ficou ligada a essa época revolucionária. As canções que a gente ouvia eram as de resistência ao regime militar no Brasil. Portanto, tudo isso se confundiu bastante no meu espírito e, há um ano e meio, surgiu esta idéia de fazer uma homenagem a essa música brasileira tal como eu havia descoberto. Não é Bossa Nova, é realmente um tipo de música muito política, muito próprio de uma época, embora eu ache que ela continua a ser muito atenta à realidade, continua a ser uma música política. E é isso que eu aprecio também.
Nesse pequeno espetáculo, eu traduzi os textos de forma muito fiel, o mais fiel possível. Para o público francês, foi uma grande descoberta, porque eles conheciam as melodias, mas não faziam idéia da riqueza poética do conteúdo das canções. Foi uma bela experiência fazer esse espetáculo entre teatro e música. Porque eu dizia os textos em francês e cantava em português. A partir daí surgiu o disco, começaram a surgir convites pra viajar, acabamos fazendo o espetáculo também em Espanha - várias vezes em Madri, várias vezes em Barcelona, com tradução para o espanhol. Fizemos também em Roma, fomos pra Moçambique, agora vamos pra Angola...
Mas você não se ateve só ao cancioneiro político. Há Dolores Duran e músicas mais recentes de Chico Buarque.
(risos) Sim, o Chico Buarque mais recente foi ele que me sugeriu. Foi bom que sugerisse. Hoje em dia, o espetáculo ultrapassou o projeto inicial.
Você fez um filme sobre a Revolução dos Cravos, Capitães de Abril, e estudou esse período. Como a música brasileira chegava aos portugueses?
Penso, justamente, que nesses anos houve uma grande aproximação entre Portugal e Brasil, talvez até a maior. Nós tínhamos acabado de sair de uma ditadura, os brasileiros ainda estavam numa ditadura, e Portugal era realmente uma grande esperança. Foram, talvez, os anos em que nós estivemos mais próximos.
A música brasileira tem semelhanças com a canção francesa? Tem um lado mais de crônica que os franceses também possuem?
Ao trabalhar as músicas com nosso grupo - são todos parisienses -, a idéia não era imitar os brasileiros. "Vamos tratar essas músicas como patrimônio mundial". Que são, na verdade. Tratando elas com outras perspectivas, às vezes mais clássicas, jazz, a gente descobre uma porção de referências. É evidente que Tom Jobim estava influenciado pela música francesa, por Claude Débussy, Ravel... Aí é muito lindo como as coisas passam de um lado a outro do Atlântico e se influenciam. Também há muito da canção italiana na brasileira - canção napolitana, canção romana. O que é lindo é isso. Nós europeus nos encontramos na música brasileira, é também uma mistura de todas essas heranças.
Sua interpretação leva o toque do teatro?
Quando faço concertos, me considero muito mais como atriz do que como uma cantora. Não tenho técnica de cantora. Sim, tenho técnica de atriz. É isso que, no fundo, me move. A maior parte dessas músicas são como curta-metragens, não é? Cada uma delas conta uma história, de alguma forma, e daí está cheia de personagens. Pra uma atriz, é maravilhoso. Cada canção é um transporte a uma grande possibilidade dramática.
E muitas canções de Chico Buarque vieram do teatro.
Todas elas são muito cheias de dramatismo. Foram feitas a pensar no teatro e no cinema. Muitas.
No seu segundo filme, Je t´aime... moi non plus, você trouxe a relação entre artistas e crítica. Por que essa preocupação?
A idéia desse filme surgiu da experiência de estar em júris, em particular de Cannes. Foi isso que me deu vontade de fazer o filme. Muitas vezes nós nos encontrávamos na posição dos críticos. Eu via os filmes juntamente com os críticos, via várias discussões acesas dos críticos sobre os filmes e achei muito interessante a paixão. Essas pessoas, que já tinham visto centenas de filmes, continuavam a discutir com tanta paixão. Que legal, não é? Então, foi daí que nasceu a idéia de fazer um filme que abordasse um pouco essa paixão que existe de um lado e outro da câmera. Pra fazer um filme é preciso estar louco e muito apaixonado. A crítica envolve uma grande paixão. Às vezes positiva, às vezes negativa, mas sempre muito carregada de emoção. O filme, no fundo, pretende dar essa paixão que se cria em torno da obra de arte. É uma forma de tratar, de tentar descobrir muitas questões estéticas que cercam a obra de arte. Claro que não há uma resposta definitiva, há um mosaico de respostas. Mas, pessoalmente, me enriqueceu imenso falar com uns e com outros.
O documentário é polifônico.
Exatamente. E acho que só assim se pode abordar essa questão. Só uma variedade imensa de pontos de vista. Era muito interessante: conversava com uma pessoa, que me explicava seu ponto de vista, e eu achava que ela tinha completamente razão. Daí eu passava pra outra pessoa, que me dava o ponto de vista oposto, mas os argumentos eram completamente válidos. Tinham também uma verdade. É isso. Todos os argumentos, todas as idéias bem argumentadas são válidas.
Antes de fazer esses filmes, você teve experiência com a crítica. Essa experiência lhe influenciou?
Não. Eu considero... Fiz poucos filmes como realizadora.
Como atriz, mesmo.
Ah, eu penso que os atores não são educados pela crítica. Claro que às vezes é educado pela crítica, mas num nível muito superficial: está bem, está mal... Tá novo... (risos) É crítica mais como os franceses desenvolveram e sublimaram: um diálogo com o autor. Eles criaram um cinema de autor e criaram uma crítica que vai corresponder a esse cinema de autor. Então, é isso: como atriz, não considero ter sido educada pela crítica. Como realizadora, minha experiência é pouca. Em todo caso, não foi isso, não foi minha experiência que motivou a fazer o filme, de forma nenhuma. Foi a experiência como crítica, por ter que estar numa sala a julgar uma obra de arte.
Você sempre defende o cinema de autor, até na condição de atriz. Como é essa opção no cinema? Fecham-se, naturalmente, muitas portas do lado comercial. Há o caso clássico de Ingrid Bergman, que largou Hollywood e seguiu com Roberto Rossellini.
É verdade, é verdade. Creio que o cinema é realmente a sétima arte. É um domínio totalmente artístico. O cinema como indústria me deixa... Eu sou impermeável a isso. E a verdade é que eu passei em Hollywood através dos filmes de autor. Fiz filmes americanos...
Com Tarantino...
E, antes, com Philip Kaufman. Fora os autores de filmes muito independentes que, coitados, nem nunca foram vistos! (risos) Mas nunca tive um sonho americano, do cinema como grande indústria. Foi quase acidental na minha vida.
Foi uma visão trabalhada, teoricamente, pelos franceses.
Sim, e hoje em dia eu penso que é uma visão européia. E pra lá da Europa... Tem americano fazendo filmes interessantes. Penso que o cinema é uma janela sobre o mundo. É um experimento que vê a realidade. Verdade que o cinema das médias americanas nos afasta da realidade, é a idéia do entertainment, de a gente cortar a realidade pra partir pra outra. Enquanto estamos distraídos, não sabemos de muitas coisas nas nossas costas. Não posso aderir muito à idéia do entertainment, porque distrai as pessoas. O cinema não é feito pra distrair, é para abrir os olhos.
Quais diretores lhe formaram, tanto afetivamente quanto profissionalmente?
São variados. Tem, certamente, muito (Francis Ford) Coppola, (Martin) Scorsese, mas também (Andrei) Tarkovsky. Claro que Manoel de Oliveira, Abbas Kiarostami, todos esses diretores são muito formadores.
Pra produzir seus filmes, quais foram as dificuldades?
Isso é por toda parte. Devo dizer... é difícil. Fazer um filme é sempre difícil. Aliás, nos festivais você vai a um jantar e, rapidamente, começa o coro das lamentações (risos). Em todas as línguas! Um filme exige resistência e uma certa dose de loucura, mas a gente vai levando.
O mundo vive agora uma grave crise financeira. Você já fez uma crítica, noutra entrevista, à visão imediatista no campo da arte. Após essa crise, muitas dessas coisas podem ser revistas, tanto na economia como na cultura?
Não sei ainda pra onde a gente vai, mas me parece que se está a desenhar uma crise do valor que se atribuía às coisas. É uma coisa extremamente virtual e, no entanto, também na arte nós vivemos valores virtuais. Em tudo, não é? É um pouco assustador. Espero que tenha muita gente pensando nisso, mas eu ainda não cheguei a conclusões!
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