
Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

O encontro do melhor cavalheiro da Corte do Rei Artur com Lampião
Lampião & Lancelote, Fernando Vilela. São Paulo: CosacNaify, 2006, 42 páginas. Ilustrações de Fernando Vilela.
A Editora CosacNaify tem se especializado em edições em capa-dura, com ênfase no designe e na qualidade de produção. Este livro de Fernando Vilela (http://www.artebr.com/fernando/), porém, se destaca até mesmo dentro do catálogo da editora, e foi Menção Honrosa no Prêmio Bolonha Ragazzi 2007, uma feira de livro voltada ao público jovem.
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Lampião & Lancelote é um livro ilustrado, com gravuras do próprio Vilela, reproduzidas em papel brilhante de alta gramatura em preto e branco e nas cores especiais prata e bronze.
Lancelote, o melhor cavalheiro da Corte do Rei Artur, tem um encontro com Lampião, o Rei do Cangaço, depois de sofrer um feitiço de Morgana, que o atira para dentro de "um obscuro portal, que rasgava o tecido do tempo e do espaço rumo ao futuro". A premissa coloca a narrativa de Vilela solidamente dentro do campo da fantasia, mas o livro brinca com tradições e recursos bastante diversificados e evocativos das tradições culturais nordestinas, que incorporaram, ao longo dos anos, muitas das mesmas fontes da fantasia: o conto de fadas, o conto maravilhoso e a novela de cavalaria.
As primeiras formas da novela de cavalaria, aliás, foram escritas como romance - palavra que, no período medieval, significava um longo poema narrativo. É justamente isso - o longo poema narrativo - que forma a tradição do cordel brasileiro, e forma do cordel que Vilela deseja evocar, em Lampião & Lancelote. O primeiro personagem a ser apresentado é Lancelote, em setilhas - sete versos de sete sílabas. Lampião é apresentado em sextilhas - a métrica mais tradicional do cordel. Mas logo na página 7 a setilha é rompida pela diagramação, e na página 14 Vilela abre mão das estrofes para narrar como Lancelote é enviado ao futuro, em texto que lembra os "termos e estrutura de sentenças das novelas de cavalaria", segundo o próprio autor. Mais adiante, na página 21, o texto de prosa traz rimas internas. Desse modo, o texto vai se articulando com tradições diversas e com as ilustrações.
Em termos de enredo, o encontro dos dois heróis leva a um primeiro duelo, luta à qual se juntam os cangaceiros de Lampião e os cavaleiros da Távola Redonda, trazidos do passado agora por Merlim, para resgatar Lancelote. A narrativa reserva ainda uma última intervenção da Fada Morgana.
No texto da quarta-capa, Braulio Tavares escreve: "As aventuras de cavaleiros medievais estão no repertório dos livros infantis e juvenis do mundo inteiro. Já as histórias de cangaceiros são um dos ciclos mais populares da literatura de cordel nordestina. Para o ilustrador e autor Fernando Vilela, o encontro entre o cavaleiro Lancelote e o cangaceiro Lampião foi uma idéia irresistível, que lhe permitiu mostrar as semelhanças entre dois universos que parecem muito distantes."
Essa semelhança já havia sido registrada por outros escritores, como Roberto de Mello e Souza (1921-2007), autor de duas novelas de fantasia arturiana altamente originais, A Tisana (1989) e O Pão de Cará (1995), que transportaram as histórias de Tristão e Isolda e de Persival para o sertão de Minas Gerais e da Bahia, o mesmo território de Grande Sertão: Veredas (1956) de João Guimarães Rosa.
Roberto de Mello e Souza emulou o estilo regional denso e inventivo de Rosa nessas novelas, fundido as versões daquelas narrativas arturianas, de autoria de Chrétien de Troyes (século 13), com a paisagem épica nordestina e a sua evocação de narrativas medievais sobreviventes, vistas na tradição do cordel. Já Daniel Fresnot, autor do romance pós-apocalíptico A Terceira Expedição (1987), transforma um desafio de repentistas num duelo de magos (uma das situações básicas do gênero fantasia), no conto "O Lugar do Mundo" (1984).
De resto, o cordel tem cada vez mais chamado a atenção da academia e do mercado editorial. O próprio Braulio Tavares republicou seu cordel A Pedra do Meio-Dia ou Artur e Isadora em 1998, na linha infanto-juvenil da Editora 34, editora que também publicou, em 2007, seu livro de não-ficção Contando Histórias em Versos: Poesia e Romanceiro Popular no Brasil. Em 2005, a Fundação Oswaldo Cruz publicou Cordel e Ciência: A Ciência em Versos Populares, organizado por Ildeu de Castro Moreira, Luisa Massarani & Carla Almeida. Também publicado em 2005, Feira de Versos: Poesia de Cordel, organizado por Carlos Henrique Salles Andrade & Nilson Joaquim da Silva com poemas de João Melquíades F. da Silva, Leandro Gomes de Barros e Patativa do Assaré foi, segundo o então editor da área de infanto-juvenis da Editora Ática, Fábio Weintraub, me disse, o livro mais vendido dos lançamentos recentes da tradicional coleção Para Gostar de Ler, dirigida aos escolares do ensino fundamental e médio.
Dentro desse contexto de redescoberta e revalorização do cordel, o livro de Fernando Vilela se destaca pela beleza das suas ilustrações, expressivas e engenhosas, na evocação do rico universo cultural brasileiro no qual o livro se inspira.
Terra Magazine