
Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

Moderno mas folclórico
Devoradores de Mortos (Eaters of the Dead), Michael Crichton. Rio de Janeiro/Porto Alegre: Rocco/L&PM Pocket, 2008, 184 páginas. Tradução de Gilson B. Soares.
Filmado em 1999 por John McTiernan como O 13º Guerreiro (The 13th Warrior), Devoradores de Mortos reaparece no Brasil como parte da primeira safra de livros da parceria Rocco (que publicou a edição original brasileira do romance) e a L&PM Pockets, e pode ser encontrado em livrarias, bancas de revistas, farmácias, supermercados, etc., num preço mais popular, como livro de bolso.
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É um romance de fantasia, gênero "recursivo" por excelência; isto é, um gênero moderno que, por natureza, está muito mais próximo de suas fontes originais - mitos, lendas, folclores, e formas narrativas antigas como poemas épicos e contos maravilhosos - do que outros gêneros.
Curiosamente, este pouco conhecido romance de Michael Crichton, originalmente publicado em 1976, coloca na superfície do texto o modo como a fantasia busca fontes medievais e as transforma em novo produto literário. Devoradores de Mortos faz a "glosa" de um manuscrito original de 922 A.D. do escriba árabe Ibn Fadlan, contando suas peripécias e o seu choque cultural enquanto conviveu com um grupo de aventureiros vikings que operava na região do Rio Volga.
A primeira parte do livro de Crichton é uma paráfrase quase exata do manuscrito de Ibn Fadlan. Há momentos curiosos e engraçados. Na vida real, Ibn Fadlan escreveu sobre os heróicos vikings: "Eles são as mais sujas entre todas as criaturas de Deus. Não se limpam depois de fazerem suas necessidades naturais, e nem lavam suas mãos depois das refeições. São como burros vadios." Isso acrescenta um aspecto bastante interessante, com o nórdico Crichton, de dois metros de altura, resenhando o comportamento de seus antepassados pela ótica irônica de um aristocrata árabe do século 10, e publicando seu livro num momento onde a cultura e a sociedade árabes são vistos como secundários pela cultura ocidental dominante.
Por volta da página 60 o romance abandona a referência factual e mergulha na aventura, com o Ibn Fadlan de Crichton embarcando para a terra natal dos vikings, na Europa do Norte, para resolver uma demanda com uma tribo dos monstros conhecidos como "devoradores de mortos". Não há apenas batalhas ferozes mas também encontros com anões-ferreiros que se escondem em bosques profundos para fabricar as armas especiais usadas pelos heróis - uma lenda nórdica que os leitores de Tolkien deverão reconhecer - e a escalada de penhascos pendurados sobre águas geladas, até a caverna onde se esconde a matriarca dos devoradores de mortos.
Essa segunda parte também olha para as fontes da fantasia moderna, pois é glosa do primeiro episódio heróico de Beowulf (circa 1000 A.D.), o poema épico nórdico que chega à literatura inglesa em inglês antigo, e que chamou a atenção de J. R. R. Tolkien, entre outros intelectuais e lingüistas ingleses. Há, porém, uma discrepância cronológica entre o relato de Ibn Fadlam e os eventos narrados em Beowulf, que remontam, na verdade, ao século 6, e que Crichton deixa passar.
Assim como em seu importante e inovador romance de ficção científica O Enigma de Andrômeda (1969), Crichton trabalha muito bem estabelecendo uma relação entre gêneros de ficção popular com outras áreas não-literárias de conhecimento: a linguagem científica, naquele, e a linguagem acadêmica neste, já que o manuscrito de Ibn Fadlan é uma obra de conhecimento de pesquisadores e estudiosos, mais vinculada à história do que à literatura. Reforçando esse aspecto metalingüístico, Devoradores de Mortos é apresentado como uma edição crítica, como se novos documentos do viajante árabe tivessem sido descobertos e agora são apresentados por um acadêmico, que faz uso de todas as interrupções e notas de rodapé que lhe são de direito. Ao final da narrativa, segue um posfácio que nos oferece uma racionalização científica para os devoradores de mortos.
A edição original continha maravilhosas ilustrações feitas por Ian Miller, compondo um clima sombrio, onírico mas sólido e apavorante, para acompanhar o texto e aliviar um pouco o peso de toda a construção pseudo-acadêmica que Crichton produziu. Pena que a edição brasileira veio despida dessas ilustrações.
Um livro peculiar dentro da produção de Crichton, que, apesar de ser uma leitura um tanto árida, nos oferece janelas para entender como a literatura de fantasia opera como diálogo com tradições anteriores, na busca por um contato com experiências míticas ou sobrenaturais.
Terra Magazine