André Setaro
De Salvador (BA)
Elaborei uma lista dos meus dez melhores filmes do cinema brasileiro, e constatei, surpreso, que oito foram produzidos na década de 60, excetuando dois, um dos anos 50, Absolutamente certo, de Anselmo Duarte, e outro dos 30: Limite, o mitológico filme de Mário Peixoto. A conclusão que cheguei beira o óbvio: os anos 60 foram, realmente, o período mais criativo para o cinema nacional.
E não somente para o cinema nacional, diga-se assim de passagem, mas para o cinema mundial, pois foi na década de 60 que conjuntos de realizadores inventivos que se iniciaram no crepúsculo dos 50 tomaram forma, amadureceram seus estilos, contribuindo, com isso, para a evolução da linguagem cinematográfica, a exemplo dos que fizeram parte do Cinema Novo, da Nouvelle Vague (França), do Free Cinema (Inglaterra), do Underground de Nova York (John Cassavetes, Shirley Clarke, Jonas Mekas...), entre outros.
Por outro lado, é verdade que o cinema dos grandes inventores clássicos, que François Truffaut chamava de "o grande segredo", já tinha chegado ao fim. Orson Welles teria dito a Peter Bogdanovich que o cinema morreu em 1962 e o seu velório foi dado por O homem que matou o facínora (The man who shot Liberty Valance), de John Ford, com John Wayne, James Stewart, Vera Miles. Para um Bogdanovich estupefato, diante da assertiva wellesiana, Orson disse: a Idade de Ouro da arte do filme é maior do que a da Renascença, considerando que ela vai de 1912 até 1962, enquanto a época da grande arte renascentista durou menos de 50 anos.
Mas é na década de 60 que surgiram os grandes autores do cinema moderno, a exemplo de Jean-Luc Godard com seus filmes-ensaios, que desconstruíram a linguagem cinematográfica: Acossado, de 1959, é o ponto de partida, mas a cristalização de seu estilo se dá em Uma mulher é uma mulher, Alphaville, Tempo de guerra/Les carabiniers, Pierrot, le fou, Week-end à francesa, Viver a vida, O desprezo/Le mépris, entre outros.
E se Alain Resnais, um dos maiores autores de cinema de todos os tempos, já em seus curtas dos anos 50 (Van Gogh, Nuit et Brouillard, Toute la memoire du monde) demonstrava os sinais de sua exuberante modernidade, modelada em Hiroshima, mon amour, em 1958, a sua revolução põe-se em marcha a partir de 1961 com o desconcertante O ano passado em Marienbad/L'année derrière a Marienbad, onde o elo semântico é absorvido totalmente pelo elo sintático, a estabelecer o espetáculo puro.
Ingmar Bergman sai de suas fábulas extraordinárias para pensar, também, o cinema e seu processo de criação, como em Persona (cujo título em português é completamente descartável: Quando duas mulheres pecam, a sugerir o que não há) ou, mesmo, na trilogia formada por Através do espelho/Luz de inverno/O silencio.
É a época na qual os cineastas aderem à "transparência" de seus procedimentos em detrimento da "opacidade" que se constatava até então. E Federico Fellini, já dando sinais de fumaça em La dolce vita (1960), realiza um filme-confissão sobre o processo da criação fílmica em Oito e meio, filme fundador e divisor de águas.
E foi na década de 60 que o cinema americano se libertou das amarras do Código Hayes, que se constituía numa espécie de "index proibitório" de assuntos que não poderiam ser tratados em filmes, além da restrição ao sexo e à violência (basta dizer que um beijo era cronometrado em segundos e completamente proibido um ósculo mais "absorvente". Na época da proibição, quando aparecia um homem a beijar uma mulher o público chamava de "colada").
Mas tomei um atalho e me desviei da estrada, pois estava a comentar sobre o favoritismo dos filmes brasileiros dos anos 60 na minha lista dos 10 melhores. É uma percentagem considerável. Nesta década, apareceu o Cinema Novo, que despertou o entusiasmo internacional. Se, é verdade que, tirante alguns mais expressivos, o Cinema Novo afastou o público da cinematografia nacional, e muitos de seus filmes são pretensiosos, chatos e aporrinhantes, há algumas obras de indiscutível fascínio que nunca se tinha visto na expressão cinematográfica nacional, a exemplo de Deus e o diabo na terra do sol e Terra em transe, ambos de Glauber Rocha, Os fuzis, de Ruy Guerra, Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos, A hora e a vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, São Paulo S/A, de Luis Sérgio Person, e fora do cinemanovismo, Todas as mulheres do mundo, de Domingos Oliveira, O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla, e Noite vazia, de Walter Hugo Khoury, todas estas películas de grande expressividade que não foram superadas pela produção posterior de filmes.
Se, com a introdução das leis de incentivo (Audiovisual, Rouanet...), o cinema brasileiro se profissionalizou (atualmente do ponto de vista técnico pode ser comparado ao melhor estrangeiro), por outro, as exigências burocráticas para a famigerada captação de recursos passou a exigir do realizador um certo conhecimento também de economia de mercado. Como conseqüência a perda da "espontaneidade vital", a retirada dos cineastas intuitivos e menos afeitos aos labirintos protocolares da burocracia.
Haveria espaço, hoje, para um Ozualdo Candeias, por exemplo? Artista das imagens em movimento, poeta delas, que tem um filme maior em toda a história do cinema nacional: A margem (1967). Ou mesmo para as experiências de um José Mojica Marins? Sobre ser belo, A encarnação do demônio, que é filme de captação, não possui a "espontaneidade vital" (repita-se) de seus dois primeiros com o personagem de Zé do Caixão: À meia-noite levarei a sua alma (1964) e À meia-noite encarnarei em seu cadáver (1967).
O cinema brasileiro atual é para "profissionais". Qual a inventiva que pode ter Linha de passe, Tropa de elite, entre outros contemporâneos, se comparados a São Paulo S/A, aos de Glauber, entre os outros citados dos anos 60?
Rogério Sganzerla, por exemplo, filmou O bandido da luz vermelha (que é uma obra-prima) com restos de negativos de outra produção. A captação de recursos não deixa de ser, portanto, uma camisa-de-força para a plena ebulição criadora dos cineastas-poetas, dos cineastas adeptos daquilo que o crítico Jairo Ferreira um dia chamou de "Cinema de Invenção".
Fale com André Setaro: andre.setaro@terra.com.br
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Divulgação
Limite, de Mário Peixoto, é um dos melhores filmes do cinema brasileiro, para Setaro. E não é da dácada de 1960
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