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Terça, 4 de novembro de 2008, 18h28 Atualizada às 20h16

Ricupero: racismo explica baixa vantagem de Obama

Reuters
Para o ex-embaixador do Brasil nos EUA Rubens Ricupero, Brasil não tem interesse específico na eleição de nenhum dos dois candidatos à Casa Branca
Para o ex-embaixador do Brasil nos EUA Rubens Ricupero, Brasil não tem interesse específico na eleição de nenhum dos dois candidatos à Casa Branca

Diego Salmen

A dianteira de Barack Obama sobre o republicano John McCain é de sete pontos percentuais (51,9% a 44,4%), segundo o site RealClearPolitics, que faz uma média de todas as pesquisas publicadas.

Em meio a um emaranhando de números que dá como certa a vitória de Barack Obama, o ex-embaixador brasileiro nos Estados Unidos, Rubens Ricupero, chama a atenção para a vantagem relativamente baixa do senador por Illinois. Explica:

- A prova de que (o racismo) tem um certo peso é o seguinte: em condições normais, um candidato democrata agora deveria ter uma vantagem imensa, quinze, vinte pontos percentuais à frente. Por que não está? Isso não se explica pela qualidade do candidato adversário. A explicação só pode estar por aí. O Obama ainda luta contra essa desvantagem.

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Em entrevista a Terra Magazine, Ricupero, que foi embaixador em Washington entre 1991 e 1993 e ministro da Fazenda no governo Itamar Franco (1994), comenta as eleições norte-americanas.

Para ele, o Brasil não tem nenhum "interesse específico" na eleição de quaisquer dos postulantes à Casa Branca.

- Eu não acho que o Brasil tenha um interesse diferente de outros países nas eleições dos EUA. O Brasil não precisa mais, como no passado, da ajuda econômica americana.

Leia a seguir a entrevista com Rubens Ricupero:

Há chances de surpresa nessa eleição, ou Obama deve mesmo sair vencedor?
Rubens Ricupero -
Pela lógica, Obama deve sair vencedor. Mas a eleição é atípica, não tem precedentes porque nunca antes houve um negro candidato - embora haja indicações de que este tema será menor desta vez. Mas não há ainda um precedente histórico. É preciso esperar. Houve aquele famoso caso de 1982 na Califórnia, em que o prefeito de Los Angeles, que era negro, parecia que iria ganhar pelas pesquisas. E ele perdeu. E você sabe que a Califórnia é o estado mais aberto e menos racista dos Estados Unidos. Se isso aconteceu lá... Eles chamam isso de efeito Bradley, que era o nome do prefeito de Los Angeles. Em todas as pesquisas ele aparecia como vitorioso, mas depois chegou-se à conclusão que as pessoas mentiam nas pesquisas; para não parecer que eram racistas, não diziam a verdade. Eu acho pouco provável isso (hoje), mas a primeira é vez é a primeira vez.

Esse fator racial ainda tem o mesmo peso de antes, a seu ver?
Eu acho que sim, em alguns lugares têm. Ainda é relativamente forte. Não é suficientemente forte para derrotar um candidato tão bem qualificado. Mas a prova de que (o racismo) tem um certo peso é o seguinte: em condições normais, um candidato democrata agora deveria ter uma vantagem imensa, porque as circunstâncias americanas são muito difíceis: crise econômica, guerra desastrosa no Iraque e um presidente que é considerado por unanimidade como um dos piores da história. Então, normalmente o candidato democrata deveria estar quinze, vinte pontos percentuais à frente. E não está; por que não está? Isso não se explica pela qualidade do candidato adversário. A explicação só pode estar por aí. O Obama ainda luta contra essa desvantagem.

Os democratas devem fazer maioria no Congresso também?
Tudo indica que sim. Eles já têm maioria, e tudo indica que dessa vez eles vão ampliar a maioria tanto na Câmara como no Senado. A grande duvida é se eles terão maioria suficiente para conseguir passar projetos sem a ajuda dos republicanos. Isso vai depender do voto em certos estados. Mas o pêndulo está muito a favor dos democratas nessa eleição. A situação econômica ajudou muito eles, não há dúvida de que a crise prejudicou muito os republicanos.

Qual candidato seria melhor para os interesses do Brasil?
Eu não acho que o Brasil tenha um interesse diferente de outros países nas eleições dos EUA. O Brasil não precisa mais, como no passado, da ajuda econômica americana - como aconteceu, por exemplo, quando os militares tomaram o poder em 1964 ou na crise da dívida nos anos 80. Hoje em dia nosso interesse é que haja nos EUA um presidente que seja capaz de enfrentar essa crise econômica, porque ela nos afeta nas suas conseqüências. Mas esse interesse não é só do Brasil; é da França, da Alemanha, da Inglaterra... Eu não vejo um interesse específico do Brasil; o único seria o caso do comércio, mas nesse caso a maioria dos produtos brasileiros com problemas (para entrar) nos Estados Unidos enfrenta dificuldades por conta de lobbies muito poderosos que não são fáceis de resolver.

O presidente em si não tem esse poder todo. Nos EUA, o comércio é uma prerrogativa do Congresso, diferente do Brasil. E esse congresso, cuja maioria deverá ser ainda mais democrata, vai ter muito pouca simpatia por concessões comerciais. Um exemplo: Bush conseguiu acertar um acordo de livre comércio com a Colômbia, mas ele não conseguiu até agora que o Congresso, mas o Congresso até agora não aprovou, e ele ficou na geladeira. Com o Brasil vai ser muito pior, porque eles têm muito receio da competição na agricultura.

Por outro lado, qualquer que seja o novo presidente americano, no começo a prioridade dele será toda voltada à crise econômica. Da prioridade número 1 à prioridade 150, vai ser a crise americana. E não vai perder tempo nem se preocupar muito com questões de outra ordem, sobretudo controvertidas. O fato do McCain se declarar favorável ao fim dos subsídios ao etanol não faz diferença nenhuma na prática, porque ele não teria cacife para transformar isso em realidade mesmo se fosse eleito.

Do ponto de vista da resolução da crise econômica, Obama atenderia melhor ao interesse do governo brasileiro, já que seu partido tem um histórico intervencionista na economia?
De maneira geral, é provável que o Obama, sendo presidente, tenha mais condições de enfrentar a crise, não só por esse aspecto (intervencionismo), mas também porque ele terá o apoio do partido dele no Congresso, e porque essa crise tem um componente importante, que é a confiança. E ele tem essa qualidade, é uma figura carismática, um grande líder. Pode ser que isso ajude muito.

Para o restante do mundo, a eleição de Obama significará de fato uma mudança na política externa dos EUA?
Eu acho que sim. A meu ver qualquer um dos dois iriam moderar essa política atual. A gente não pode assumir que o comportamento da campanha seja o mesmo de quando for presidente. Acho que o Obama tem mais condições, ele é inclusive de uma geração muito mais jovem, que não tem aquela mentalidade belicosa da Guerra Fria que o McCain tem.

 

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