
Cláudio Martini
De Campinas (SP)
Não sou crítico de arte e não sou artista. Não fui curador ou expert. Escrevo sobre esta Bienal de Arte como visitante e entusiasta. Visitante que por mais de 30 anos percorreu todas as Bienais, Nacionais e Internacionais, que ocuparam o prédio do Ibirapuera. Entusiasta, pois as mostras anteriores revelaram muitas surpresas e obras de uma infinidade de artistas inovadores e de importância histórica.
A Bienal de São Paulo e a de Veneza são as duas mais antigas e mais importantes do mundo, e a de São Paulo é o único evento brasileiro que consta do calendário internacional de arte.
Pois este ano o visitante pode esquecer a exaustão prazerosa que sentíamos ao terminar de percorrer os andares, rampas, corredores e salas de uma Bienal. Pessoas vinham de todo o Brasil e de países da América Latina para conhecer e interagir com as milhares de obras expostas. Hoje, não se justifica nem mesmo uma viagem a São Paulo a partir de uma cidade do interior do estado para visitar a mostra.
A interatividade que está sendo alardeada também deixa a desejar. Obras medíocres, que talvez tenham sua importância se entremeadas a outras em uma exposição maior, gritam aqui sua pobreza pois estão isoladas e elevadas a atrações principais:
- Os escorregadores de Carsten Höller, iguais aos que se encontra em parques aquáticos.
- O trabalho de Armin Linke convida o visitante a escolher dentre uma seleção de fotos algumas que comporão um livreto que pode ser levado como souvenir.
- A barraca de Paul Ramírez Jonas onde você poder trocar a chave de sua casa por uma que abre a porta da Bienal.
Primeiro foram as salas especiais que sofreram o corte. Com a justificativa de que nos dias de hoje não há mais necessidade de se atrelar essas mostras a uma Bienal de Arte. Exposições importantíssimas que por si só já valiam uma visita ao edifício de Niemeyer fizeram parte da Bienal.
O trabalho primordial de Marcel Duchamp, chave para nossa arte atual, as retrospectivas da surrealista hispano-mexicana Remedios Varo e do belga Paul Delvaux, as esculturas da francesa Louise Bourgeois, a arte de números seqüenciais pintados com precisão e determinação pelo franco-polonês Opalka em grandes telas, a excelente mostra de Arte Incomum, a videoarte norte-americana, as centenas de instalações.
É inaceitável ver a Bienal reduzida à mostra deste ano. Divulga-se que um andar ficou vazio mas não é apenas isso:
- No térreo e primeiro andar: uma praça de eventos, onde ocorrerão performances e shows, e algumas baias para projeção de vídeos.
- Segundo andar: completamente vazio, com a justificativa de se deixar a arquitetura de Niemeyer despojada de interferências para ser apreciada pelo público. A obra magnífica do grande arquiteto merece nossa admiração mas não é necessário utilizar o momento da Bienal para se fazer isso. O edifício poderia ser aberto à visitação em qualquer outra ocasião.
- Terceiro andar: o meio andar que antes era ocupado por salas especiais e centenas de obras agora traz pouquíssimos trabalhos pulverizados pelo enorme espaço, muitos de importância duvidosa, além de uma biblioteca com catálogos da mostra de anos anteriores do evento (talvez para compararmos e vermos como eram boas) e um auditório.
Resumindo, a exposição que em edições anteriores ocupava dois andares e meio, se fosse condensada descontando-se os grandes espaços não ocupados, não preencheria a quarta parte de um andar do prédio.
Outra explicação oferecida pelos curadores é que o sistema de bienais está em crise. Argumento negado por Robert Storr, curador da última edição da Bienal de Veneza, em entrevista à Folha de S. Paulo. O que está em crise é a Bienal de São Paulo.
Seria melhor que fosse extinta ou pelo menos se pulasse este 2008 vergonhoso. Um desrespeito aos artistas, curadores e organizadores de edições anteriores e à história da Bienal de Arte de São Paulo, um insulto aos visitantes e à sua inteligência.
Seja qual for a explicação, crise, falta de verba, incompetência, descaso, a verdade é que quem sai perdendo é o público que perde a mais importante mostra brasileira de arte, são os artistas, é São Paulo e o Brasil. Não se pode aceitar que a Bienal seja reduzida a esta sombra pálida do que já foi.
Ficamos como crianças que têm seu doce roubado: perplexos e revoltados, insatisfeitos e decepcionados. E que seja uma lição para as próximas Bienais que espero continuar a visitar.
PS: Para completar, eu estava na Bienal quando houve a ação de um grupo de pichadores no domingo de abertura da exposição. Além da inexistência de um esquema de segurança, depois se viu uma situação absurda: após os pichadores debandarem do edifício sem serem incomodados por ninguém, resolveram fechar as portas e impedir todos os visitantes de saírem. Por cerca de meia hora, todos, incluindo pais com bebês de colo, crianças, deficientes físicos e idosos não puderam deixar a Bienal.
Não sei se foi uma manifestação legítima, mas ver um andar inteiro completamente vazio quando tantos lutam por um espaço para expor seu trabalho é mesmo revoltante. Mais um registro vergonhoso para esta "Bienal".
Terra Magazine
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Marcelo Pereira/Terra
Escorregador no pavilhão da Bienal 2008. A mostra não justifica nem uma viagem do interior de São Paulo à capital, ataca Martini
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