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Sexta, 7 de novembro de 2008, 15h35 Atualizada às 21h04

No meio do caminho, tem uma pedra

Marcello Casal Jr. / Wilson Dias/Agência Brasil
O diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), Paulo Lacerda, que teve seu afastamento da agência prorrogado, e o diretor-geral da Polícia ...
O diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), Paulo Lacerda, que teve seu afastamento da agência prorrogado, e o diretor-geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa

Bob Fernandes

Os intestinos do Brasil.

É grave a crise.

Sede da Agência Brasileira de Inteligência, Abin, no Setor Policial Sul, em Brasília. O apartamento do delegado Protógenes Queiroz já foi vasculhado por agentes da PF, horas antes, na quarta-feira 5. Na Abin, constrangimento e estranheza diante da ostensiva viatura da Polícia Federal, de onde descem agentes. Constrangimento porque ali estão reunidos, e são testemunhas da ação, diretores, chefes e oficiais de órgãos de Inteligência de Portugal, Angola, Moçambique..., de 9 países de língua portuguesa.

Um dos convidados da Abin, e do governo brasileiro, chega a indagar:

- Mas o que é isso, o que está acontecendo?

Próximo à Rodoviária Novo Rio, Rio de Janeiro, a mesma cena. Agentes da PF apreendem computadores e documentos, e o mesmo fazem na sede da Abin em São Paulo.

O alvo da Polícia Federal de Luiz Fernando Corrêa parece ser o delegado Protógenes, mas não é. Melhor, Queiroz é alvo secundário. O alvo prioritário é o diretor afastado da Abin, Paulo Lacerda.

A propósito: foi prorrogado ontem, quinta-feira 6, o afastamento de Paulo Lacerda.

Veja também:
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Não é obra do acaso o ímpeto contra Lacerda do hoje deputado do PMDB Marcelo Itagiba (RJ).

Delegado da PF, ex-Chefe de Inteligência quando Vicente Chelloti mandava na corporação, contraparente do psdbista Andrea Matarazzo e ex-funcionário de José Serra no ministério da Saúde - cuidando de "Inteligência" -, Itagiba está à caça de Paulo Lacerda. Em entrevista à revista Veja, Itagiba já adiantou que pretende "indiciar" Paulo Lacerda na CPI dos Grampos.

A conclusão é elementar, como diria Sherlock a Watson: Paulo Lacerda é o homem a ser tirado do caminho. A qualquer custo.

(É possível supor que o Brasil viverá um grande e eletrizante momento no dia em que ficar claro o porquê de Paulo Lacerda ser alvo prioritário; mas não o maior, ainda há outro, acima dele.)

Quem acompanhou Terra Magazine nos idos de julho conhece alguns do detalhes da batalha fratricida vivida pela PF antes e durante a operação Satiagraha. Quem não acompanhou, basta clicar aqui e aqui. A batalha segue em curso, Daniel Dantas lá ao fundo, como mais cedo ou tarde se provará.

Não foram outros os motivos - as seguidas ameaças de implosão da operação - que levaram o delegado Protógenes a buscar ajuda na Abin de Lacerda.

Ajuda, até prova em contrário, legal e constitucional como cansou de demonstrar o ministro-chefe do Gabinete Institucional, general Jorge Félix, nos depoimentos à CPI dos Grampos.

O general, registre-se, seguirá a pregar no deserto, uma vez que nesse caso, mais do que nunca, a mídia tem lado. Para ser mais exato, tem lados. Assim como Terra Magazine tem, e o exibe com fatos, fatos e mais fatos, nomes, endereços, documentos e provas, desde o início da manhã de 8 de julho.

Quanto a Paulo Lacerda, ainda um outro registro. Seu afastamento da direção da Abin foi prorrogado nesta quinta-feira, 6. O delegado e ex-diretor da PF foi afastado, vale lembrar, para que se apurasse o suposto grampo contra Gilmar Mendes. O grampo, como se sabe, até hoje ninguém sabe, ninguém ouviu.

Mendes, o sempre tão loquaz presidente do Supremo, seguramente terá algo a dizer nessa sexta-feira 7 sobre a quebra de sigilo telefônico sem autorização judicial feita pela PF de Corrêa contra jornalistas - tema de manchete e reportagem assinada por Rubens Valente na edição dessa sexta da Folha de S.Paulo: "Sem ordem judicial, PF quebra sigilo telefônico".

Nessa tarde de registros, ainda outro também muito importante: o inquérito da Polícia Federal sobre vazamentos foi instaurado para investigar não o delegado Protógenes, mas a cúpula da própria PF que, segundo o delegado, teria vazado a informação sobre a Satiagraha para a Folha de S.Paulo quase dois meses antes; matéria publicada num sábado, 26 de abril. Aliás, a própria Folha de S.Paulo lembra em outra reportagem dessa sexta, assinada por Felipe Seligman:

- No dia da operação, já tramitava no STF habeas corpus preventivo protocolado pela defesa do banqueiro por conseqüência de reportagem publicada na Folha, em abril, revelando que havia uma investigação em curso na PF contra os executivos do Opportunity.

É grave a crise. Muito mais do que aparenta ser. Menos pelo que está exposto, muito mais pelo que ainda está por vir.

 

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