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Sábado, 8 de novembro de 2008, 10h14

Fogo (e cinema) na Chapada Diamantina

Vitor Hugo Soares
De Salvador (BA)

Mais de 15 mil hectares do majestoso Parque Nacional da Chapada Diamantina já viraram cinzas no interior da Bahia. Há quase um mês, chamas de incêndios criminosos se propagam sob barbas complacentes e informações desencontradas dos órgãos dos governos federal e estadual, a começar pelo Ministério do Meio Ambiente. Nos noticiários, aqui e ali, cenas fugazes da devastação de um dos mais belos e emblemáticos monumentos nacionais. Uma dessas imagens causou reação indignada do âncora do Jornal da Band, Ricardo Boechat. Do ministro Carlos Minc, em geral pirotécnico nas suas ações e manifestações, nem um pio.

Contra a consumação da tragédia ambiental anunciada, rezas e espera da chuva, que poderia ajudar heróicas brigadas do grupamento de Bombeiros de Lençóis e voluntários (com reforço mandado de Salvador), que tentam apagar o incêndio. A situação empresta especial importância e atualidade ao filme "Cascalho", de Tuna Espinheira (adaptação livre do clássico romance de Herberto Salles sobre a saga dos garimpeiros de pedras preciosas na Chapada), lançado esta semana em Salvador.

"Cascalho" teve suas filmagens concluídas há mais de cinco anos em Andaraí, uma das cidades cercadas pelo fogo e asfixiada pela fumaça. Levou um tempão travado nas prateleiras da burocracia. Ainda assim, como se vê e se lê nas notícias que chegam da região onde a trama se dá, o filme não poderia ter sido lançado em momento mais oportuno. Pena que restrito a uma única sala da capital, quando merece ser visto em circuito nacional à altura de uma das mais autênticas e bem realizadas produções do cinema baiano em décadas.

Premiado documentarista das Jornadas de Cinema da Bahia, Tuna Espinheira em seu primeiro longa de ficção, não renega a herança de leitor insaciável da melhor literatura e de fã de carteirinha dos grandes westerns de dois "Johns" geniais: Ford e Huston. Mistura ingredientes das melhores receitas de cinema de verdade: realismo, ação, poesia, música, devaneios oníricos e forte conteúdo de denúncia social e política. Tudo salpicado com pitadas generosas de bom humor e da corrosiva ironia crítica dos diálogos de personagens, uma das marcas do romance do imortal da ABL, que o cineasta mantém intacta no cinema.

"Cascalho" é uma história de desafios sobre-humanos. Assim como "O Tesouro de Sierra Madre", filme magistral de Houston baseado no romance de B. Traven, que fala da aventura de três americanos sem eira nem beira, desiludidos de tudo e de todos, que se arriscam em busca do ouro na serra mexicana. Na saga baiana, uma diferença significativa: o drama individual da miséria e da fraqueza humanas está presente quase o tempo todo, mas o foco principal é sempre o coletivo. A "poesia cruel" que envolve legiões de homens e mulheres, para usar a definição feliz do crítico de cinema André Setaro.

Sim, "Cascalho" é uma história sobre corrupção e cumplicidade, na qual os chamados poderes constituídos - administração pública, polícia, justiça... - também se misturam em trama autoritária implacável para subjugar gente humilde ou pessoas carregadas de sonhos e esperanças. Não por acaso, uma das passagens mais expressivas e dramáticas de "Cascalho", mostra o correto promotor encarnado por Irving São Paulo (falecido sem ver o filme exibido) acuado dentro do seu casarão, enquanto paus mandados dos coronéis, empunhando tochas acesas, cantam canções e hinos de duplo sentido e o hostilizam moralmente em procissão no meio da praça pública.

O filme é desses que mexem com praticamente todos os sentidos e sentimentos ao mesmo tempo. Encanta a vista, alegra os ouvidos, provoca justa indignação na platéia, que também ri contente em muitas cenas, ou se emociona. Como na onírica cena final em que o garimpeiro festeiro e romântico, morto por imprevisto aguaceiro que inunda a mina em que ele buscava diamantes "para ser feliz", aparece em seguida todo chique no cabaré de Andaraí e tira a prostituta que amava para dançar.

Merece destaque o elenco de atores (quase todos baianos), escolhidos pelo diretor para levar "Cascalho" à tela grande, com o glauberiano Othon Bastos à frente. Wilson Melo, Harildo Deda, Irving São Paulo, Rosa Espinheira, Caco Monteiro, Gildásio Leite, Lucio Tranchesi e Júlio Rosa completam o time de primeira linha, que conta ainda com aparições especiais do próprio Tuna e do artista plástico Ângelo Roberto. Tudo embalado pela trilha sonora de um fora de série da música baiana: Walter Queiroz.

"Cascalho" recebeu convite para a mostra do cinema brasileiro que se realiza de 13 a 19 deste mês em Berlim. É preciso para isso ter uma cópia legendada em inglês, e o diretor busca recursos para produzi-la. Pena se não conseguir antes da mostra internacional começar. "Cascalho" e a Chapada Diamantina merecem um futuro melhor.


Vitor Hugo Soares é jornalista e escreve aos sábados no Blog do Noblat.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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Divulgação
Peça de divulgação do filme Cascalho, de Tuna Espinheira

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