
Atualizada às 11h40 |
Fernando Eichenberg/Terra Magazine
O bairro de Makélékélé é um dos mais pobres de Brazzaville. Fica no sul da capital congolesa
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Fernando Eichenberg
De Brazzaville, Congo
Próximo de seu destino final, o vôo Paris-Brazzaville (Congo), com escala em Addis Ababa, capital da Etiópia, sacudia-se em uma turbulência interior. Africanos em pé, sentados, acostados conversavam, debatiam, troçavam, zoavam, gesticulavam alegremente e gargalhavam. Estrangeiros de outros continentes observavam o incomum burburinho aéreo com olhar curioso, espantado, admirado ou contrariado.
Ao anúncio do comandante de que iniciavam-se os preparativos para a aterrissagem, prevista em 18 minutos, todos retomaram seus assentos e a quietude. A algaravia foi substituída por suaves violinos de Vivaldi, transmitidos pelo sistema de som do aparelho. A partitura barroca tornava ainda mais lento o atravessar do pesado Boeing pelo acolchoado de nuvens, descortinando aos poucos o verde pujante do solo do centro-oeste africano.
À medida em que o avião reduzia sua altitude e se aproximava do aeroporto internacional Maya Maya, a densa vegetação dava lugar a habitações espraiadas, logo concentradas em bairros compactos. O piloto da Ethiopian Airlines fez um pouso normal, sem a qualidade da excelência nem a truculência de uma barbeiragem, mesmo assim foi premiado com aplausos por parte de aliviados passageiros. Enquanto o avião taxiava na pista rumo ao desembarque, a trilha sonora mudou: de Vivaldi passou-se a uma sinfonia de cavalaria. Bem-vindo à Brazzaville.
No caminho do aeroporto para o hotel, à direita em uma grande via vislumbra-se a ainda inacabada mas já cintilante nova sede da embaixada dos Estados Unidos: um enorme cofre-forte instalado em uma ampla área. Mas o prédio diplomático é ofuscado pelo palacete adjacente, uma enorme mansão de cor branca e janelas azuis. Trata-se de um projeto pessoal do atual ministro da Construção, do Urbanismo e da Habitação, o arquiteto Alphonse N'Silou.
A capital da República do Congo acolhia o 6° Fórum Mundial de Desenvolvimento Sustentável, com a presença de um dezena de chefes de Estado africanos, representantes de entidades públicas, privadas, ONGs e acadêmicos. No Palácio do Parlamento, local dos debates, os presidentes tinham direito a tapete vermelho e guarda republicana de botas até o joelho e sabre para o alto. Dois retratos gigantes de Denis Sassou N'Guesso, líder máximo do país, decoravam os muros laterais da grande sala de conferências.,/p>
A pontualidade está longe de ser um hábito por estes lados do mundo. Como já dizia o poeta e músico Francis Bebey: "Os Ocidentais têm o relógio, os Africanos têm o tempo". Com mais de uma hora de atraso, o mestre de cerimônia solicita energicamente "uma enxurrada de aplausos" para saudar a entrada das celebridades oficiais. Os trabalhos podem começar.
Na solenidade de abertura não faltou a presença de uma menina africana para ler um discurso de adulto, aberto pela suave voz infantil com "Em nome de todas as crianças do mundo" e finalizado com um entusiasta "Viva a solidariedade internacional!". O presidente N'Guesso, é claro, abraçou-a carinhosamente, e a audiência providenciou a enxurrada de aplausos. À medida em que os discursos se alongavam, os chefes do Estado Maior das Forças Armadas do Congo, antes empertigados, escorregavam em suas poltronas, alguns ensaiando breves cochilos.
A ecologista queniana prêmio Nobel da Paz de 2004, Wangari Maathaï, encerrou sua intervenção com uma comovente parábola bíblica de Pedro e João. Nova enxurrada de aplausos. O presidente Denis Sassou N'Guesso também mostrou sua habilidade em fazer frases: "A árvore da crise financeira atual não deve esconder a floresta, a floresta do desenvolvimento sustentável". Mais uma enxurrada de aplausos.
O ministro da Economia Florestal do Congo, Henri Djombo, é um homem sedutor, esportista, campeão de pingue-pongue e faixa preta de aikidô, contador de histórias e autor de vários romances. Ele recebe em sua residência. Oferece champanhe Ruinart e generosos e repetidos copos de campek, mistura de Campari com Mpeké, o vinho de palma local, que aprecia especialmente. O ministro conta com orgulho que possui um complexo de pingue-pongue nos fundos de sua casa, no qual inicia crianças na arte do jogo do tênis de mesa (alfabetizar não seria melhor?). Durante o convescote, de repente, a sala cai na escuridão: uma queda de eletricidade, fato corrente na cidade.
Abre parêntese. Em 2006, os sete integrantes da equipe de pingue-pongue do Congo não puderam participar do 50° Campeonato de Tênis de Mesa, em Bremen, na Alemanha. A embaixada da França em Brazzaville, encarregada de conceder os vistos Schengen para a delegação rejeitou o pedido. Explicação: um grande número de artistas e esportistas africanos desaparecem na natureza uma vez na Europa. A França já recusou um visto a um DJ, alegando que não se tratava de uma profissão. Um músico, com contrato assinado para fazer um turnê de shows na França, foi obrigado a tocar para a polícia, no aeroporto, para provar que realmente sabia o que fazer com o seu instrumento. Fecha parêntese.

Moradora do bairro de Makélékélé
Alheios aos debates do fórum mundial de desenvolvimento sustentável, os habitantes de Makélékélé, um dos bairros mais pobres de Brazzaville, no sul da cidade, prosseguem seu cotidiano. A chuva torrencial da noite anterior formou ruas de puro lodo misturado a amontoados de lixo. Insetos povoam a paisagem. O bafo tropical emana do solo, do lamaçal, do entulho de detritos. Fabien, 32 anos, hoje desempregado, faz bicos para ganhar alguns trocos. Quando trabalhava como chofer de caminhão, embolsava 3 mil CFA (cerca de R$ 12) pela jornada das 5h às 22h. Suas frases são de um tom diferente dos discursos pronunciados no fórum: "Não há democracia nesse país. Aqui não se fala de política. Houve muitas guerras, muitos mortos. Sofremos muito. Sό pensamos em ter dinheiro o suficiente para comer, ir ao bar beber. E gostamos de mulheres. Eu vivo ao acaso no Congo. Aqui só não se pode ficar doente, senão se morre estupidamente. Aqui não se pode pensar no futuro, senão ficamos loucos".
O mercado de Makélékélé é similar ao de outros bairros de Brazzaville, mas de pobreza superior. Um aparelho fotográfico aqui é uma ameaça. As pessoas têm medo de uma eventual punição por parte das autoridades. O jornalista com uma lente apontada é interpelado e levado aos chefes, o grupo que controla o mercado local. Trata-se de uma pequena máfia a beber cervejas mornas em volta de uma mesa. "Para fazer fotos aqui você precisa de autorização. Não pode sair assim fotografando como quer. Aqui não há liberdade de expressão. Isso aqui é um Estado policial", diz um deles, sem cerimônia.
Diante de meus protestos, um deles ameniza: "Tudo bem, você pode fazer fotos ali daquelas mulheres vendendo legumes, mas não da sujeira". Outro acrescenta com uma lógica singular: "Veja bem, se você mostrar isso no seu jornal, as pessoas lá fora vão pensar que a realidade aqui é assim". Ao deixar o local, uma mulher me sussurra: "Fotografa mais, as pessoas têm de saber como a gente vive aqui".
Fabien conta que com freqüência os chamados "ninjas", rebeldes do ex-líder guerrilheiro Frédéric Bintsamou, de nome de guerra Pastor Ntumi, que voltou do exílio há um ano, aparecem no mercado de Makélékélé para buscar suprimentos, armados de suas kalashnikovs, e depois somem na poeira. O atual presidente, Denis Sassou N'Guesso, dirigiu uma ditadura marxista-leninista de 1979 a 1992. Em 1997, retomou o poder por meio de um golpe de Estado. Uma violenta guerra civil, de mais de 10 mil mortos, assolou o país até o cessar-fogo de 1999. N'Guesso legitimou seu poder em 2002 nas urnas.
Monsieur Guy, meu chofer de táxi, buzina, esbraveja e se enerva com o engarrafamento da hora em Brazzaville. Queixa-se dos políticos, da situação econômica do país, da falta de emprego e de esperança. Suspira e diz: "A única empresa que realmente funciona no Congo é o Exército".
No porto fluvial de Brazzaville, conhecido por Beach, barcas fazem o traslado até Kinshasa, a capital da República Democrática do Congo (RDC), do outro lado do rio Congo (onde mais uma rebelião eclodiu no leste do país). Ao lado de mesas dispostas ao ar livre, panelas fumegam com sopões de peixes, tartarugas e outras especiarias locais. Pássaros rondam o local à espera de alguma sobra e moscas fazem incessantes rasantes sobre os pratos de comida. Foi no Beach que 350 opositores do regime desapareceram em 1999, vítimas presumidas dos Cobras, a milícia das forças de N'Guesso.
Numa esquina no centro da cidade, Christ Nkodia, 23 anos, vende cartões de telefone celular da Warid Telecom, companhia dos Emirados Árabes. Para ele, "a política é negócio dos políticos", literalmente. "É uma forma de eles ganharem dinheiro. De qualquer forma, quando dá confusão, eles se mandam com os filhos para a Europa", diz. Recentemente, diferentes ONGs, lideradas pela Sherpa (organização de juristas internacionais), fizeram um estudo sobre o desvio de fundos públicos por parte de líderes africanos.
Embora não se tenha conseguido provar irregularidades, nas investigações descobriu-se que 16 membros da família N'Guesso possuem 111 contas bancárias. Uma das últimas aquisições do clã foi uma mansão nos subúrbios de Paris por 3,1 milhões de euros. Wilfrid, sobrinho do presidente, desembolsou 815 mil euros na compra de nove carros de luxo. A Global Witness publicou em seu site na internet as gordas despesas do cartão de crédito de Denis Christel Sassou N'Guesso, filho do presidente, feitas em Paris, Marbella e Dubai, e pagas, segundo a ONG, por meio de uma conta off-shore, beneficiária indireta de receitas petrolíferas do Estado congolês.
O Congo é o quatro maior produtor de petróleo da África subsaariana. O ouro negro é responsável por cerca de 80% do orçamento do Estado e por mais de 90% das receitas de exportação. Mais de dois terços dos congoleses vivem com menos de um dólar por dia e por vezes falta gasolina nos postos de combustível de Brazzaville.
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Ruas de Brazzaville
Na mesa de um boteco na calçada, sorvendo uma gelada cerveja local Primus, Lin-Christian Lembango, 39, conversa com o amigo Ibaras Elvis, 34. Os dois se conheceram em Cuba, na época em que o Estado proporcionava a formação escolar para congoleses na ilha de Fidel. Lembango é veterinário, funcionário público há um ano, com proventos mensais de 132 mil CFA (cerca de R$ 500). O amigo, engenheiro de telecomunicações da MTN, empresa de telefonia celular da África do Sul, tem uma salário mais generoso: 1 milhão CFA (R$ 3,7 mil).
Lembango define seu país como uma "jovem democracia" que precisa aprender a andar sozinha: "Os congoleses gostam de tudo que é fácil. Estávamos acostumados à proteção do Estado, que nos dava até estudos em Cuba. Hoje mudamos de sistema, adotamos o sistema capitalista, e o povo tem de mudar a mentalidade, ser mais empreendedor".
Ibaras concorda, acredita que só o trabalho do povo vai desenvolver o país. Mas acrescenta que os políticos também devem fazer a sua parte na mudança: "Os líderes dos partidos devem ser republicanos, ter o senso do Estado, hoje são todos populistas". Para ser feliz, a dupla não precisa de muito: "Nossa primeira distração é o bar. Adoramos o álcool, as mulheres, rir e dançar", dizem em coro.
Os congoleses possuem o sorriso largo e generoso. A pobreza não trouxe a criminalidade. As ruas de Brazzaville são pacíficas e o caminhar é tranqüilo, sem o temor de assassinos ou trombadinhas. As guerras ocorreram por obra da manipulação dos políticos e não pela índole do povo, costumam dizer os simpáticos nativos, que só o que desejam é viver em paz, beber, rir e dançar.
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